Ciência agrícola brasileira atrai delegações de três continentes em busca de tecnologias sustentáveis
Comitivas da África, Ásia e Europa conhecem tecnologias desenvolvidas pela Embrapa Cerrados para agricultura tropical
Em setembro, a Embrapa Cerrados recebeu comitivas da África, Ásia e Europa interessadas em fertilidade do solo, bioinsumos, agricultura digital e sistemas integrados de produção para regiões tropicais. As visitas contaram com representantes do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), de instituições de pesquisa do Ministério da Agricultura da Rússia e da China Agricultural University (CAU).
África: cooperação Sul-Sul para restauração de solos e gestão hídrica
Na última semana, a Embrapa Cerrados recebeu uma comitiva de diretores regionais do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), instituição multilateral voltada à promoção do desenvolvimento econômico sustentável e do progresso social em países africanos. O grupo participou de uma missão de estudos no Brasil, no âmbito da parceria com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC).
A visita teve como objetivo apresentar experiências e conhecimentos técnicos da Embrapa em áreas de interesse comum e identificar oportunidades de cooperação em segurança alimentar e sustentável. O grupo também visitou a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e a Embrapa Agroenergia.
Na Embrapa Cerrados, foram apresentados o histórico de atuação da Unidade e a evolução das pesquisas agrícolas para a região do Cerrado, abrangendo áreas como manejo e saúde do solo, bioinsumos, recursos hídricos, Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), sistemas integrados, recuperação de áreas degradadas, melhoramento genético e produção animal. Também foram abordados os aspectos hídricos da região, as tecnologias adaptadas a condições tropicais e o potencial de cooperação técnica com países do Hemisfério Sul.
Durante a programação, foram abordadas ações de conservação ambiental e de gestão de recursos hídricos, a exemplo do Projeto Produtor de Água do Pipiripau, que envolve conservação do solo e da água, restauração ambiental e pagamento por serviços ambientais. Também foi exposta uma metodologia desenvolvida para avaliar os impactos de diferentes usos da terra sobre os serviços ecossistêmicos, utilizando mapas e indicadores para apoio ao planejamento territorial.
A comitiva visitou ainda a área experimental de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), onde foram explicados dados técnicos da evolução dessa tecnologia desenvolvida ao longo de pesquisas em parceria com produtores, iniciativa privada e políticas públicas, bem como os resultados com potencial de adaptação às condições do continente africano.
Europa: foco em práticas e tecnologias brasileiras para fertilidade do solo
No dia 14 de setembro, a Embrapa Cerrados recebeu uma comitiva de especialistas do Centro Russo de Monitoramento de Terras Agrícolas (Rosselkhozzemmonitoring) e do Serviço Agroquímico da Rússia (Rosselkhozkhimsluzhba), órgãos vinculados ao Ministério da Agricultura daquele país. Os representantes atuam com pesquisa de fertilidade, análises agroquímicas e monitoramento de terras agrícolas. O interesse principal foi discutir sistemas de cultivo e manutenção da fertilidade do solo, além de identificar pontos de convergência para futuras cooperações técnico-científicas.
A programação abrangeu palestras e visitas de campo sobre Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) em soja e intensificação sustentável em sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
A assessora do diretor do Rosselkhozzemmonitoring, Ekaterina Lazareva, detalhou o perfil das instituições visitantes e o objetivo da missão no Brasil: “A maior função das duas entidades é fazer o monitoramento de terras agrícolas. Eu represento o Instituto que se dedica ao registro quantitativo e ao monitoramento da desertificação. Meu colega representa uma instituição que faz o monitoramento da fertilidade de solos há mais de 60 anos”, detalhou.
O diretor interno do Serviço Agroquímico da Rússia, Ilya Kondratiev, destacou o potencial de contribuição entre as nações: "Na Rússia, temos mais de 100 filiais e representações espalhadas por todo o território nacional. Vimos nessa visita uma oportunidade para promover uma aproximação e desenvolver uma cooperação científica em fertilidade do solo entre a Rússia e o Brasil".
Ásia: parceria científica para além do comércio agrícola
Já no início do mês, no dia 8, representantes da China Agricultural University (CAU), acompanhados por professores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), conheceram tecnologias desenvolvidas para o Cerrado brasileiro. A Universidade já mantém um convênio com a instituição chinesa para formação de pesquisadores na área de Fitotecnia.
Os pontos de maior interesse do grupo chinês – composto por professores especialistas em genética, melhoramento vegetal e proteção de culturas –, foram pesquisas em fertilidade e biologia dos solos, Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) e intensificação sustentável por meio dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
Coordenador do consórcio acadêmico pela Esalq/USP, o professor Durval Dourado Neto destacou que a visita visa expandir as relações entre os dois países para o campo da pesquisa científica de ponta. "Essa comitiva de professores chineses tem muito interesse na área de fitotecnia, melhoramento genético, ciência do solo e interação com as plantas. Além da questão da formação de pessoas, há um interesse em parceria científica", explicou.
Dourado Neto enfatizou que o intercâmbio com a Embrapa é fundamental para consolidar a cooperação técnica no setor agrícola: "Brasil e China já são parceiros econômicos muito importantes. A China é o nosso maior parceiro comercial, mas na área científica da agricultura ainda há um caminho a avançar. A ideia de trazer essa comitiva de uma das universidades mais bem ranqueadas da China e do mundo é aproximar os grupos de pesquisa, entendendo que a Embrapa é um parceiro estratégico. Eles têm muito interesse na nossa agricultura tropical e em identificar áreas para trabalharmos conjuntamente".