Debate sobre a unidade do Reino Unido é reacendido
Encontro entre líderes pró-independência da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte discute autodeterminação.
O encontro em Cardiff entre líderes pró-independência da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — com o apoio da oposição da Irlanda a favor da unificação irlandesa — reacendeu o debate sobre a unidade do Reino Unido. Na ocasião, os representantes das três nações defenderam o direito à autodeterminação diante do poder central de Londres.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Guilherme Carvalho, bacharel em relações internacionais e pesquisador do Núcleo de Avaliação de Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), aponta a existência de uma clara tendência de fortalecimento dos discursos de soberania no seio do Estado britânico.
Segundo o especialista, as demandas galesas, norte-irlandesas e escocesas refletem reivindicações históricas profundamente enraizadas em suas respectivas sociedades.
"O nacionalismo escocês, por exemplo, não surgiu com o Brexit, muito menos no País de Gales e menos ainda no caso da Irlanda do Norte. O que há atualmente são partidos com um alinhamento mais nacionalista e de busca por autonomia, a gente consegue imaginar que é uma tendência mesmo", disse.
Apesar do discurso das nações celtas por maior autonomia, o pesquisador pondera que esse cenário não se traduz, necessariamente, na saída imediata de algum desses países ou na dissolução do Reino Unido. Isso ocorre porque as demandas e as realidades locais são profundamente distintas entre si.
"São movimentos [internos por autonomia] que, ao longo dos anos, vêm conseguindo mais oportunidades de decidirem melhor o seu futuro, o seu planejamento como região, do que necessariamente eles acabarem se desvinculando do Reino Unido. Embora haja uma parcela significativa desses movimentos por maior autonomia, que deseja uma separação clara e completa", comenta.
Entre o problema fiscal e a política externa em xeque
Outro ponto levantado por Carvalho, que recentemente publicou o estudo "A instabilidade política britânica e os desafios ao planejamento estratégico da defesa" no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, é que a economia atua como um fator agravante crucial para se compreender a atual dinâmica política do Reino Unido.
"Nas outras regiões [além da Inglaterra], o impacto negativo, principalmente no aspecto fiscal, de se manter compromissos externos, como nesse caso da Ucrânia, vão ser mais sentidos. Então, quando se tem um movimento que busca salientar essa diferença econômica, fica muito fácil de entender por que vai ter níveis diferentes de apoio [dentro do Reino Unido]", destaca.
Além disso, diretrizes de política internacional adotadas pelo poder central em Londres acabam por aprofundar a racha entre as nações do Reino. Essa fricção interna estende-se desde os desdobramentos do Brexit até o contínuo suporte financeiro e militar à Ucrânia, pautas que dividem as prioridades de Westminster e dos governos locais, como elucida o pesquisador.
"Tópicos da política interna respingam na política externa e tópicos da política externa acabam respingando na política interna. Atualmente, isso trata-se das questões fiscais do Reino Unido, envolvendo os gastos com defesa e parte do apoio militar e econômico à Ucrânia. Fica a questão de até quando o país consegue manter esses compromissos e até quando ele consegue sustentar isso de uma maneira saudável", observa.
Questões internas aprofundam a crise dentro do país
Carvalho ainda enfatiza que as dinâmicas domésticas são as verdadeiras forças por trás da instabilidade britânica. Para o pesquisador, o peso da história e o forte senso de identidade de cada nação do Reino Unido exercem um papel muito mais decisivo do que as pressões externas.
"Cada uma dessas regiões tem peculiaridades com relação aos seus anseios de autonomia. E isso, naturalmente, a gente pode imaginar que é uma grande dor de cabeça para Londres, porque quando se precisa administrar isso, não está administrando uma só crise envolvendo autonomia, mas sim, três, com objetivos e problemas diferentes", conclui.
Na política interna britânica, além da crise econômica e de tensões sociais como a imigração, observa-se um crescente distanciamento de realidades e objetivos entre as nações que compõem o Reino. Esse desalinhamento provoca um enfraquecimento institucional crônico, pavimentando o caminho para o avanço das agendas separatistas.