Análise aponta que BRICS promove cooperação entre países rivais
Grupo é visto como um espaço para negociação, superando interesses nacionais diversos.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o grupo atua na diplomacia do "encapsulamento de crises", que consegue colocar rivais de longa data, como China e Índia, na mesa para negociar interesses em comum.
A atuação do BRICS como um polo de articulação do Sul Global ultrapassa a cooperação econômica entre seus membros. O grupo também serve como espaço comum para que países com disputas históricas, como Irã e Arábia Saudita, possam sentar e discutir questões como segurança, conflitos e governança global.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Marianna Albuquerque, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que nunca foi correto descrever o BRICS simplesmente como um mecanismo econômico. Ela diz que, desde a criação, o BRICS tem uma cooperação baseada em três pilares: política e segurança; economia e finanças; e cooperação cultural e interpessoal.
"Cada país membro do bloco enxerga nesses pilares uma forma de também levar os seus interesses adiante [...] não há nenhum problema, na visão dos membros do BRICS, no fato de a China olhar para o BRICS com uma intenção, de o Brasil olhar com outra, de a Índia olhar com outra, de o Irã olhar com outra. É esse amálgama de interesses nacionais que faz com que a gente busque consenso por meio do respeito às diferentes posições nacionais", afirma.
Segundo Albuquerque, a declaração assinada na recente cúpula em Nova Deli reforça o papel do grupo na diplomacia e mediação e na cooperação por meio de operações multilaterais das Nações Unidas (ONU). Isso cria terreno para que países como Irã e Emirados Árabes Unidos, que estão em conflito, parem, sentem e negociem.
"Esse, para mim, é um dos principais pontos-chave do BRICS. Essa possibilidade de os países membros do BRICS enxergarem o bloco como um espaço em que é possível fazer o que a gente chama de diplomacia do encapsulamento de crises."
Ela pontua, no entanto, que considera que o valor do grupo não está em resolver as rivalidades entre os países, mas sim em não permitir que elas impeçam toda e qualquer forma de cooperação entre eles, respeitando as posições nacionais de cada membro.
"Eles conseguem formular algumas posições coletivas, como, por exemplo, a importância da proteção de civis, da soberania, da integridade territorial, a busca do entendimento por meio do diálogo. A heterogeneidade e a diferença não desaparecem, ela é incorporada ao método de funcionamento do grupo", aponta.
Uma das conquistas geopolíticas indiretas do BRICS foi fazer com que China e Índia, duas potências fundadoras do BRICS que cultivam forte rivalidade, se reúnam pelo menos uma vez por ano na cúpula do grupo.
"O Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e o Xi Jinping, o líder chinês, têm um encontro anual, e isso não é pouco para países que têm questões fronteiriças e diplomáticas que remontam ao pós-Segunda Guerra Mundial, a Guerra Sino-Indiana nos anos 1960, isso é algo a se marcar."
Porém, ela aponta cautela em afirmar que essa cooperação é feita apenas dentro do BRICS, destacando que os dois países participam de outros espaços de cooperação, como a Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que também se reúne em formato de cúpula anualmente. Na visão de Albuquerque, a ideia é que o BRICS seja "um espaço de coexistência" entre os membros do grupo.
"É uma forma de criar entre eles canais de difusão de interesses, de compartilhamento de projetos conjuntos, de construção de confiança mútua, mas o tempo todo deixando claro que o BRICS respeita as diferenças entre eles", afirma.
Isabela Rocha, pesquisadora do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) e presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS+, diz que o perfil das pessoas que vão para um ambiente como o BRICS é bem diferente do perfil das pessoas que vão para um ambiente como a ONU.
"No BRICS, a gente vê uma maior flexibilidade, uma maior tentativa de buscar caminhos via sociedade civil, de cooperação, via comércio, enquanto a gente vê uma política mais engessada por parte do pessoal que participa desses fóruns mais duros, como a própria ONU", afirma.
Rocha acrescenta que as diferenças que os países do BRICS têm entre eles é menos relevante do que o que eles têm em comum, que é o fato de estarem na "periferia do arranjo capitalista global". Ela diz que o objetivo do grupo hoje é avançar na construção de uma nova ordem multipolar, e, para isso é necessário criar acordos vinculantes e mecanismos de transação econômica que permitam a participação da sociedade.
"Para o BRICS se tornar essa instituição que a gente sonha, que a gente quer que ele se torne, e realmente seja o precursor e o protetor dessa nova ordem multipolar, a gente precisa do mínimo. A gente precisa de instrumentos jurídicos e econômicos vinculantes."