CIÊNCIA

Sinais de antimatéria podem indicar mistérios fora da Via Láctea

Astrônomos detectam aniquilação de pósitrons em estruturas extragalácticas, desafiando modelos tradicionais.

Por Sputnik Brasil Publicado em 26/07/2026 às 12:27
Imagens da Corrente de Magalhães revelam potencial fuga de antimatéria da Via Láctea. © Foto / NASA, ESA, The Hubble Heritage Team (STScI/AURA)

Astrônomos identificaram sinais de aniquilação de pósitrons fora da Via Láctea, sugerindo que partículas de antimatéria podem estar escapando da galáxia e ampliando um mistério: a Via Láctea parece produzir muito mais pósitrons do que as fontes conhecidas conseguem explicar.

A emissão de raios gama no centro da Via Láctea continua a desafiar explicações convencionais. Há décadas, astrônomos observam uma população excessiva de pósitrons se aniquilando com elétrons na região central da galáxia, produzindo flashes característicos de 511 keV. Mesmo somando todas as fontes conhecidas de antimatéria — de explosões estelares a objetos compactos — o volume de pósitrons detectado permanece inexplicavelmente alto.

Estas imagens mostram visões amplas e aproximadas de uma longa faixa de gás chamada Corrente de Magalhães
Estas imagens mostram visões amplas e aproximadas de uma longa faixa de gás chamada Corrente de Magalhães, que se estende por quase metade da Via Láctea.

Ao analisar o conjunto completo de dados do telescópio INTEGRAL, Thomas Siegert e Hiroki Yoneda identificaram algo ainda mais desconcertante: sinais de aniquilação de pósitrons fora da Via Láctea. O achado sugere que parte dessas partículas pode estar escapando do disco galáctico antes de desacelerar e se aniquilar, o que implica numa produção de antimatéria muito maior do que se estimava.

Os sinais mais fortes surgiram em duas estruturas extragalácticas, sendo uma delas o Complexo C, uma enorme nuvem de gás caindo em direção ao disco da Via Láctea, e a Corrente de Magalhães, que acompanha as Nuvens de Magalhães. Essas regiões não deveriam produzir pósitrons em quantidade significativa, reforçando a hipótese de que as partículas viajaram até lá vindas da própria galáxia.

O enigma se aprofunda porque pósitrons só se aniquilam eficientemente quando estão lentos — e partículas tão lentas não deveriam conseguir escapar da Via Láctea. Para Siegert, isso indica a existência de uma fração de pósitrons mais energéticos, capazes de fugir para depois desacelerar no gás extragaláctico. Essa fuga, até agora inesperada, ampliaria drasticamente o balanço de produção de antimatéria da galáxia.

Se essa interpretação estiver correta, a Via Láctea pode estar produzindo até 100 tredecilhões de pósitrons por segundo, duas a três vezes mais do que estimativas anteriores. Isso pressionaria os modelos astrofísicos tradicionais, que já lutam para explicar o excesso observado apenas dentro da galáxia. As detecções, porém, ainda são estatisticamente frágeis, já que o sinal mais forte atingiu quatro sigma, abaixo do patamar de descoberta científica.

Siegert acredita que há um sinal real, mas ressalta que novas observações serão essenciais para confirmar sua intensidade e origem.

O futuro telescópio COSI, da NASA, previsto para 2027, deverá testar esses "indícios tentadores" e ajudar a rastrear o caminho dos pósitrons, o que pode empurrar, caso as descobertas se confirmem, a física para além das explicações convencionais envolvendo a matéria escura.