'Equiparar crime organizado a terrorismo não ajuda', diz Celso Amorim em Moscou
No terceiro dia do evento, coordenado pelo Conselho de Segurança da Rússia, ocorreu o XIV Encontro Internacional de Altos Representantes para Assuntos de Segurança. O Brasil foi representado por Celso Amorim, assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência, que também liderou a delegação brasileira.
Com o tema "Desafios e ameaças à segurança internacional nas condições de formação de uma ordem mundial multipolar", os representantes das nações convidadas tiveram o direito a discursar. Na vez do Brasil, Amorim, que foi ministro da Defesa entre os anos de 2011 e 2014, enfatizou que o país tem que combater o crime organizado com energia e determinação mas rechaçou a ideia de classificar facções como terroristas.
"O governo brasileiro, liderado pelo presidente Lula, está garantido de forma decisiva para desmantelar as redes criminosas em cooperação com os países da América do Sul. O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação. Mas equipará-lo ao terrorismo não ajuda. Ambos devem ser combatidos, mas compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate aos tipos de crimes", disse.
Ao longo de sua explicação, Celso Amorim parafraseou o antigo papa Paulo VI, para enfatizar que a paz é de suma importância para o desenvolvimento no atual cenário internacional.
"Em 1967, Paulo VI, na encíclica Populorum Progressio, cunhou a célebre frase: "O desenvolvimento é o novo nome da paz". Mas nos tempos turbulentos em que vivemos atualmente, cito a mim mesmo: 'A paz é o novo nome do desenvolvimento'. Não pode haver desenvolvimento quando se teme pela própria vida", discorreu.
Venezuela e crise no Oriente Médio
Ao longo de seu discurso na plenária, Amorim lembrou e criticou a intervenção dos Estados Unidos em Caracas em janeiro deste ano, que culminou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
"Na América Latina, o uso da força por uma potência estrangeira, como foi o caso na Venezuela, não tinha precedentes desde a independência. Após décadas de um bloqueio ilegal. E, novamente, nós condenamos isso", enfatizou.
O ex-chanceler brasileiro também declarou preocupação com a situação atual em diversos países do Oriente Médio com a escalada de conflitos que causam impactos na ordem social desses Estados, com consequências graves.
"Já a intensificação das hostilidades no Oriente Médio desencadeou uma escalada regional com grave impacto humanitário e econômico. Não nos esqueçamos das crianças de Gaza e das aspirações do povo palestino ao seu próprio Estado, segurança e dignidade. As mortes de inocentes no sul do Líbano também devem ser deploradas."
'Auditoria nas instituições internacionais'
O encontro foi conduzido e mediado por Sergei Shoigu, secretário do Conselho de Segurança da Rússia, que no seu discurso inaugural relembrou a missão de entidades internacionais, citando o caso da Organização Mundial do Comércio (OMC), perante as sanções impostas unilateralmente contra a Rússia pelo Ocidente.
"Foi apresentado um número sem previsões de avaliações econômicas contra a Rússia e outros países por parte dos membros ocidentais da OMC, que permanece em silêncio, preferindo manter um perfil discreto. Nas condições atuais, é preciso que haja uma auditoria nas instituições internacionais. Isso é de extrema importância para a preservação do papel de coordenador do sistema jurídico internacional", afirmou.
Cooperação como chave
OI Fórum Internacional de Segurança foi muito além do desenvolvimento militar no campo de batalha, uma vez que abordou temas complexos em diversas camadas desde a cibersegurança ao neocolonialismo e alta tecnologia. A tônica em comum entre os participantes foi a cooperação como chave em prol de um mundo multipolar.
Mais de 100 países e bolsas de organizações internacionais enviaram representantes. À margem da conferência, realizou-se também um almoço de trabalho dos representantes do BRICS.
Amorim manteve reuniões bilaterais com altas autoridades russas, entre elas o assessor do presidente Vladimir Putin para assuntos de política externa, Yuri Ushakov; o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov; o presidente do Conselho Naval e assessor presidencial, Nikolai Patruschev; e o secretário do Conselho de Segurança, Sergei Shoigu.
"Nas reuniões, foi ressaltada a importância de encontros recentes, em especial a Comissão de Alto Nível de Cooperação (CAN), bem como a relevância da cooperação tecnológica e comercial entre os dois países. Amorim ressaltou a importância de ampliar e diversificar as exportações brasileiras para a Rússia, de modo a alcançar maior equilíbrio na balança comercial bilateral", destacou sua assessoria.
Celso Amorim encontrou-se, ainda, com o chefe da delegação iraniana e vice-secretário do Conselho de Segurança do Irã, Ali Baghaeri Kani, em diálogo centrado na situação regional e nos esforços diplomáticos em curso relacionados ao Oriente Médio. "Na conversa, foi lembrada a Declaração de Teerã, de 2010, como exemplo de iniciativa voltada à solução negociada de controvérsias".
Por Sputinik Brasil