Dia Mundial Sem Tabaco: voz rouca pode ser um alerta silencioso do tabagismo
A Dra. Naiara Amorim explica que o cigarro irrita a laringe, reduz a resistência vocal e aumenta o risco de câncer
Quando o assunto é cigarro, os impactos sobre pulmões e coração costumam dominar o debate. No entanto, uma das regiões mais diretamente atingida pela fumaça do tabaco muitas vezes passa despercebida: a laringe, estrutura responsável pela produção da voz e fundamental para a comunicação. Em alusão ao Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, especialistas alertam que o hábito de fumar pode desencadear desde irritações persistentes e rouquidão até doenças graves, incluindo o câncer de laringe.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 8 milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência do tabagismo, sendo cerca de 1,2 milhão vítimas do fumo passivo. Embora os danos respiratórios e cardiovasculares sejam amplamente conhecidos, os efeitos sobre a voz e as vias aéreas superiores ainda recebem pouca atenção.
De acordo com a Dra. Naiara Amorim, otorrinolaringologista do HOPE – Hospital de Olhos de Pernambuco, a fumaça do cigarro entra em contato direto com a mucosa da laringe e provoca um processo inflamatório contínuo, capaz de alterar o funcionamento das pregas vocais.
“A laringe é extremamente sensível às substâncias tóxicas presentes no tabaco. Essa exposição repetida favorece irritação, inflamação e alterações nas pregas vocais, comprometendo a qualidade da voz e o conforto para falar”, explica a especialista.
A rouquidão persistente figura entre os sintomas mais frequentes entre fumantes. Isso ocorre porque o tabaco modifica a vibração natural das cordas vocais, tornando a voz mais áspera, instável e, em alguns casos, mais grave. O problema pode surgir de maneira gradual, o que faz muitas pessoas encararem a mudança vocal como algo habitual.
“Muita gente acredita que a rouquidão faz parte do hábito de fumar e acaba negligenciando esse sinal. No entanto, qualquer alteração na voz que persista por mais de duas semanas merece investigação médica, principalmente em fumantes ou pessoas expostas frequentemente à fumaça”, alerta a otorrinolaringologista.
Além das mudanças sonoras, o cigarro pode reduzir a resistência vocal e provocar fadiga durante a fala. O esforço para manter conversas prolongadas, a necessidade de pigarrear repetidamente e a sensação de cansaço ao falar são queixas recorrentes entre fumantes, com impacto ainda maior sobre profissionais que dependem da comunicação no dia a dia.
“O fumante pode perceber perda de potência vocal e maior dificuldade para sustentar a fala por longos períodos. Isso interfere diretamente na rotina profissional, social e na qualidade de vida”, afirma a médica.
O tabagismo também está relacionado ao surgimento de alterações inflamatórias e estruturais na laringe, como laringite crônica e edema de Reinke, condição marcada pelo acúmulo de líquido nas pregas vocais e frequentemente associada ao uso prolongado do cigarro.
Entre as consequências mais preocupantes está o câncer de laringe, considerado um dos tumores mais associados ao tabaco, sobretudo quando o cigarro é combinado ao consumo excessivo de álcool. Rouquidão persistente, dificuldade para engolir, tosse contínua e sensação de corpo estranho na garganta podem indicar a necessidade de avaliação especializada.
“O câncer de laringe apresenta maiores chances de tratamento bem-sucedido quando identificado precocemente. Por isso, observar mudanças na voz e procurar assistência médica diante de sintomas persistentes pode fazer diferença no prognóstico”, destaca a especialista.
Para a Dra. Naiara Amorim, a conscientização promovida pelo Dia Mundial Sem Tabaco deve incluir também os impactos sobre a voz, muitas vezes ignorados pela população.
“Parar de fumar traz benefícios para todo o organismo e a laringe também responde positivamente a essa mudança. Reduzir a exposição ao tabaco significa proteger a voz, preservar funções importantes do trato respiratório e diminuir o risco de doenças graves”, conclui.