CRESCIMENTO ECONÔMICO

Guiana vê PIB expandir com offshore: Brasil deveria ser 'parceiro número 1', diz analista

Descobertas de petróleo impulsionam economia guianense, mas desafios de distribuição de renda e parcerias regionais persistem.

Por Sputinik Brasil Publicado em 26/05/2026 às 19:48
Extração de petróleo offshore impulsiona o PIB da Guiana, mas desafios sociais e parcerias regionais permanecem. © AP Photo / Matias Delacroix

As descobertas que já superam 11 bilhões de barris de petróleo na bacia Guiana-Suriname elevaram a economia da Guiana, terceiro menor país da América do Sul, a um novo patamar.

Com cerca de 800 mil habitantes, a Guiana tornou-se o maior produtor de petróleo per capita do mundo, segundo relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) citado pela Bloomberg Línea.

O aumento da produção, iniciado em 2015, fez o país migrar de uma economia predominantemente agrícola para uma baseada na exploração offshore. A Guiana registrou um crescimento de 40% no PIB. No entanto, esse avanço não se refletiu na distribuição de renda e na melhoria da qualidade de vida da população.

"Cerca de 41% da população continua vivendo abaixo da linha da pobreza na Guiana, apesar do aumento excepcional da renda per capita. [...] Não adianta só crescer. A renda per capita subiu devido a uma atividade específica, o petróleo, que é exportado. Mas a população, de modo geral, não se beneficiou", explica Marcelo Simas, professor de geopolítica das energias na Fundação Getulio Vargas (FGV), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ex-executivo da Petrobras e mentor de negócios em energia.

Nesse contexto, Georgetown enfrenta o desafio de superar a chamada "maldição do petróleo", fenômeno em que a dependência excessiva da commodity enfraquece outros setores econômicos.

Segundo o analista, um dos entraves ao desenvolvimento dos países produtores é a valorização da moeda local. "O efeito da valoração contraria a industrialização. Fica muito barato importar qualquer coisa, o que pode destruir a indústria nacional. Esse é o efeito deletério do petróleo", afirma Simas em entrevista ao Mundioka, podcast diário da Sputnik Brasil.

"A única forma de se proteger contra isso é criar um fundo soberano e enviar os recursos para o exterior, recebendo apenas os rendimentos, como uma poupança. Essa foi a estratégia adotada por muitos países para evitar a maldição do petróleo", acrescenta o professor.

Outra medida importante para a economia guianense seria diversificá-la. No entanto, os royalties recebidos pelo Estado são de cerca de 2%. Para comparação, no Brasil, esse percentual gira em torno de 10%. O dado evidencia o poder da ExxonMobil, empresa norte-americana responsável pela exploração do petróleo na Guiana, que fica com a maior parte da chamada "renda do petróleo".

"Estamos reeditando na Guiana o que ocorreu no passado, até a década de 1970, durante o primeiro choque do petróleo, quando a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] passou a exercer grande poder de mercado", analisa Simas.

Oportunidade de parceria para países latino-americanos?

Ao Mundioka, Daniel Cavagnari, economista, mestre em políticas públicas e gestão da educação e coordenador dos cursos de gestão financeira do Centro Universitário Internacional Uninter, afirma que os países latino-americanos já deveriam buscar parcerias com a Guiana.

Entre eles, destaca o Brasil, que, segundo Cavagnari, pode oferecer tecnologia, experiência em exploração e refino, além de infraestrutura para apoiar o desenvolvimento guianense.

"O Brasil deveria ser o parceiro número um da Guiana. Primeiro, pela proximidade. Segundo, porque temos capacidade bélica para oferecer proteção. [...] A Guiana é mais Brasil do que qualquer outro pedaço da América Latina. E mais: precisamos muito desse petróleo, pois a qualidade do óleo guianense é insubstituível para nós", ressalta.