Otimismo entre EUA e Irã se desfaz e juros de longo prazo disparam no Brasil
Tensões renovadas no Oriente Médio pressionam curva de juros e elevam projeções para a Selic até 2026
O clima de otimismo em relação às negociações entre Estados Unidos e Irã, que influenciou os mercados na véspera, se dissipou nesta terça-feira, 26. Teerã acusou Washington de violar o cessar-fogo e advertiu que "nenhuma agressão ficará sem resposta", fator que impulsionou a abertura da curva de juros brasileira desde o início do pregão.
Como resultado, a taxa do depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou para 14,065%, ante 14,006% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2029 subiu a 13,815%, frente a 13,674%, enquanto o contrato para janeiro de 2031 encerrou em 13,895%, contra 13,801% no ajuste de segunda-feira.
Em paralelo, operadores acompanham a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir a jornada de trabalho, além de declarações divergentes do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre a autonomia da autarquia.
Igor Campos, gestor de renda fixa da Armor Capital, observa que o mercado tem se concentrado basicamente em um tema: a continuidade ou não da guerra no Oriente Médio. "No fim das contas, o que isso implica? Se o conflito persistir e o estreito de Ormuz permanecer fechado, há redução na oferta de petróleo, o que pressiona os preços de energia, impactando negativamente a atividade econômica e elevando a inflação", explica.
Nesta terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Irã acusou os EUA de violarem o cessar-fogo vigente ao realizarem "ações ilegais e provocativas" contra embarcações comerciais iranianas na região de Hormozgan, no Golfo Pérsico, nas últimas 48 horas. Teerã reiterou que "nenhuma agressão ficará sem resposta" e prometeu reagir a novos ataques.
"Com novas notícias sobre confrontos entre EUA e Irã envolvendo embarcações, o mercado voltou a precificar uma probabilidade maior de fechamento prolongado do estreito de Ormuz", acrescenta Campos, da Armor.
O choque no mercado de energia continua a influenciar as projeções sobre inflação e política monetária. Apesar de a maioria (84%) ainda apostar em corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de junho do Copom, algumas casas revisaram suas estimativas e agora preveem taxa terminal mais elevada, com grande parte do mercado projetando juros básicos próximos de 14,00% ao final de 2026.
O Citi, por exemplo, passou a prever a Selic encerrando 2026 em 13,75% (ante 13,25% na projeção anterior), com o último corte previsto para setembro. A instituição justificou a revisão destacando o tom mais duro (hawkish) adotado pelo Copom após a reunião de abril e o processo de desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos.
Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset, ressalta que o Banco Central tem pouco espaço para cortes adicionais, considerando a alta de 3,5% no petróleo Brent, que fechou a US$ 99,58 por barril nesta terça, além da desvalorização do real, que já ultrapassa R$ 5 por dólar. "O câmbio deixou de ser um fator positivo para o BC projetar inflação em queda", pontua.