PETRÓLEO

Novo pré-sal? Brasil tenta destravar Margem Equatorial após boom petrolífero da Guiana e Suriname

Por Sputinik Brasil Publicado em 26/05/2026 às 18:15
© Petrobras / ABr

Em meio às pretensões expansionistas dos Estados Unidos nas Américas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender, na última semana, que a Petrobras lidere a exploração da Margem Equatorial. Considerada a nova fronteira energética brasileira, a região pode abrigar até 30 bilhões de barris de petróleo.

Nas águas profundas entre o litoral do Rio Grande do Norte e o Amapá está uma região considerada por especialistas a nova fronteira energética brasileira: a Margem Equatorial, cujo potencial pode chegar a 30 bilhões de barris de petróleo. Ao se considerar as recentes descobertas realizadas em países vizinhos com características similares, as expectativas da Petrobras em relação à região são ainda maiores: a companhia brasileira prevê investimentos de US$ 2,5 bilhões (R$ 12,6 bilhões) nos próximos cinco anos no aprimoramento das pesquisas petrolíferas para identificar oportunidades de exploração da área.

O desenvolvimento da nova fronteira petrolífera brasileira tem sido uma das principais apostas do presidente Lula, que na última semana voltou a defender a exploração da região pela Petrobras com "responsabilidade", ao mesmo tempo em que criticou a postura expansionista dos Estados Unidos.

"Agora, a gente vai fazer com a maior responsabilidade do mundo, mas a gente não pode deixar uma riqueza que está a quase 500 quilômetros de distância da nossa margem porque daqui a pouco o [presidente norte-americano Donald] Trump acha que é dele e vai lá", disse ao comentar a política intervencionista da Casa Branca que tem como alvo riquezas de regiões como Canadá, Groenlândia e Panamá.

Mas o Brasil conseguirá repetir o sucesso de países como a Guiana, cuja economia deve registrar crescimento médio anual de 14% nos próximos cinco anos impulsionada pela exploração de petróleo? O professor de pós-graduação em transição energética na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Cláudio Pinho, lembra que o bloco cujos estudos da Petrobras estão mais avançados teve seu primeiro pedido de licenciamento realizado há quase 15 anos.

"O que era a exploração da Margem Equatorial nessa época, quer na Guiana, quer no Suriname? Zero, e hoje esses países se transformaram em uma potência petrolífera e nós, que temos vários blocos lá com potencial de exploração, continuamos ainda no primeiro poço para identificar se haverá petróleo economicamente viável", defende à Sputnik Brasil. Apesar desse atraso, Pinho, autor do livro "Pré-sal: história, doutrina e comentários às leis", acredita que ainda é possível recuperar o tempo perdido.

Ibama valida simulação da Petrobras e abre caminho para exploração na Margem Equatorial
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Produção petrolífera brasileira em declínio a partir de 2031

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgados no ano passado revelaram que, sem a descoberta de novas frentes de exploração, a produção petrolífera do Brasil pode começar a cair a partir de 2031. A expectativa é de um pico de 5,3 milhões de barris produzidos por dia, com quase dois terços concentrados no pré-sal. Outro alerta é que o país pode deixar de ser autossuficiente em petróleo bruto a partir de 2035, apesar de recentes descobertas em regiões como as bacias de Campos, Santos e Pelotas.

"No mundo do petróleo é raro, sob o aspecto estatístico, que você faça um primeiro poço e descubra petróleo economicamente viável. Então, por exemplo, você faz mais de 50 estudos, pelo menos 20 opções do que chamamos de lead, uma campanha exploratória em 10 poços para, no total, apenas um ser viável. Isso significa que, para um ter essa conquista, é preciso de várias frentes de estudos se iniciando, então é um processo dinâmico", explica Pinho ao defender os trabalhos na Margem Equatorial.

Além disso, o professor pontua que o Brasil é um dos países que exploram e refinam petróleo com menor pegada de carbono do mundo. Segundo ele, as emissões de gases no processo brasileiro de extração são quase metade da média global. "Se eu não tiver petróleo suficiente, eu vou precisar importar um material com uma pegada de carbono maior do que a que eu produzo no Brasil, com tecnologia brasileira. Outro fator é que vou gerar emprego lá fora. Então, deixamos de gerar riqueza, recolhimento de impostos, desenvolvimento social e economia circular [...]. Há todo um cenário que nos permite dizer que o desenvolvimento [das atividades] na Margem Equatorial é o desenvolvimento da própria transição energética", acrescenta.

Questionado se é possível conciliar a exploração da Margem Equatorial com os compromissos climáticos brasileiros, além das metas de descarbonização, Cláudio Pinho é enfático e diz que "há plena condição" de o país cumprir essas promessas, mesmo com a oferta de mais petróleo.

"Ao olharmos os números brasileiros, o maior elemento de emissão de gases de efeito estufa não vem do petróleo e seus derivados, como ocorre na maioria dos países, mas sim do desmatamento e das atividades da agricultura e pecuária. Então, é preferível manter o controle de carbono no meu meio de produção, inclusive com um comprometimento da nossa maior petroleira em reduzir esse impacto".

Pré-sal ainda é aposta mais segura

Já o economista Pedro Faria, que também é especialista em assuntos relacionados ao petróleo, afirma à Sputnik Brasil que, até o momento, a Margem Equatorial, principalmente na região da bacia da Foz do Amazonas, ainda está longe de ter a "economicidade" das suas reservas de combustível fóssil conhecidas e provadas. Diante disso, ele defende a estratégia atual de investimentos e concentração de esforços no pré-sal.

"O Brasil tem uma jogada muito mais garantida nas bacias de Santos e Campos, por exemplo. De certa forma, não é um raciocínio de que não deveríamos desperdiçar uma oportunidade [na Margem Equatorial]. Também é muito comum aparecerem argumentos de que a Guiana e o Suriname estão 'chupando de canudinho' todo o petróleo dessa região e nós estamos perdendo. Mas são distâncias muito grandes, é impossível que você tenha reservatórios compartilhados [que atravessam o território de ambos os países]", afirma.

Apesar disso, o analista defende a realização de pesquisas conduzidas pela Petrobras na região, principalmente para defender a soberania brasileira e ampliar o conhecimento sobre as potenciais riquezas do território nacional.

"Também é importante se pensar no cenário internacional, em que a soberania energética está na frente de tudo diante de situações como o fechamento do estreito de Ormuz e as agressões dos Estados Unidos e Israel contra o Irã [...]. Agora mesmo estamos vendo que o Brasil tem sido resiliente perto de países como Paquistão, Índia, Bangladesh, Indonésia, Japão e Coreia do Sul, por exemplo".

Por fim, Faria ressalta que o país ainda mantém vulnerabilidades estruturais no setor: mesmo sendo exportador de petróleo bruto, ainda precisa importar parte dos combustíveis refinados consumidos internamente por falta de estrutura de processamento. "Isso nos expõe a riscos geopolíticos, então é importante pensar nessa nova fronteira de exploração de petróleo, seja na Margem Equatorial, seja em novas frentes do pré-sal".