Chefão do PCC na fronteira é preso na Bolívia seis anos após ganhar domiciliar de desembargador
O traficante Gerson Palermo, conhecido como “Pigmeu” e apontado como liderança do PCC, foi preso nesta terça-feira, 26, pela polícia boliviana seis anos após foragido. Segundo a Polícia Federal, Palermo teria comprado um habeas corpus concedido em abril de 2020 pelo desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, hoje investigado por suposta venda de sentenças.
A defesa de Palermo não foi localizada. O espaço está aberto para manifestação. O desembargador Divoncir nega os ilícitos.
Antes da concessão da prisão domiciliar, "Pigmeu" foi detido em regime fechado em Campo Grande desde abril de 2017. Ele havia sido detido pela Polícia Federal na Operação All In, deflagrada em março daquele ano, quando foram apreendidos 810 quilos de cocaína.
Uma das condenações impostas a Palermo soma 66 anos de prisão e está relacionada ao sequestro de um Boeing da Vasp, em agosto de 2000. Segundo a acusação, o avião havia acabado de decolar do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba quando foi sequestrado.
“Com base nas informações repassadas pela Polícia Federal, as autoridades bolivianas localizaram o foragido e efetuaram sua detenção, encaminhando-o posteriormente à sede da Interpol em Santa Cruz de la Sierra”, informou a Polícia Federal.
Piloto de avião e planejado como integrante da cúpula do PCC, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e saiu poucas horas após ser beneficiado pela decisão judicial. Desde então, não havia mais sido localizado.
O benefício ao tráfego foi concedido durante a pandemia de covid-19, com base na informação da defesa sobre o quadro de saúde debilitado do prisioneiro, mesmo sem laudo médico comprovando tal alegação.
O habeas corpus, com cerca de 208 páginas, foi analisado e concedido em aproximadamente 40 minutos pelo desembargador.
Segundo a investigação da PF, no dia seguinte à decisão de Divoncir Maran, o relator sorteado do habeas corpus, desembargador Jonas Hass Silva Júnior, revogou a liminar deferida pelo colega e restabeleceu a prisão de Pigmeu - oportunidade na qual indicou que inexistia nos autos informações de que o preso se encontrasse segregado em presídio com excedente de lotação ou que houvesse registro de deficiência sanitária ou incidência do vírus da covid-19.
Desembargador preso
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu por unanimidade, durante a 1ª Sessão Ordinária de 2026, aplicar a pena de aposentadoria compulsória ao desembargador Divoncir.
Maran já havia se aposentado em abril de 2024, ao completar 75 anos, idade limite para permanência na magistratura. A aposentadoria compulsória, porém, é considerada a sanção disciplinar mais grave prevista na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) contra um juiz ou desembargador. Nessa condição, o magistrado permanece afastado das funções, mas continua recebendo vencimentos proporcionais ao tempo de serviço.
Como mostrado no Estadão, Divoncir recebeu R$ 357,3 mil líquidos no último trimestre, entre cláusulas e verbas adicionais pagas pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
Gado de papel
A Polícia Federal suspeita que o desembargador Divoncir recebeu propina do traficante Pigmeu e ocultou os valores por meio do esquema conhecido como "gado de papel", modalidade usada para simular transações de compra e venda de gado com o objetivo de lavar dinheiro.
No relatório em que pediu o indiciamento do magistrado, a PF descreveu a suposta participação de um dos filhos de Maran no esquema. Segundo o investigador, ele atua nas negociações de gado e recebeu "quantias consideráveis em espécie, em diversas transações suspeitas, incompatíveis com os ganhos declarados".