GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rota do Ártico, dominada por Rússia e China, surge como alternativa ao estreito de Ormuz

Com o derretimento do gelo polar, novas rotas encurtam distâncias entre Ásia e Europa e desafiam o domínio ocidental sobre o comércio marítimo.

Por Sputinik Brasil Publicado em 25/05/2026 às 20:45
Navios russos e chineses navegam pela rota do Ártico, alternativa estratégica ao estreito de Ormuz. © Sputnik / Valery Melnikov / Acessar o banco de imagens

O derretimento da camada de gelo do Ártico está abrindo novas rotas marítimas no extremo norte do globo, reduzindo a distância entre regiões como China e Europa. Aproveitando essa oportunidade, Pequim tem ampliado sua presença estratégica na área.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Gabriele Hernandez, doutora em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que a rota "não é tão nova assim", mas representa uma chance de "diminuir a dependência das rotas comerciais do estreito de Ormuz", especialmente em períodos de conflito no Oriente Médio.

O Ártico reúne oito estados: Islândia, Dinamarca, Rússia, Estados Unidos, Noruega, Suécia, Finlândia e Canadá, que compõem o Conselho Ártico. No entanto, a China, que se autodenomina um estado "quase ártico", tem intensificado o uso da rota marítima, buscando ampliar sua influência na região.

"A China, maior produtora de manufaturados do mundo e dependente do escoamento de mercadorias, trouxe a ideia de uma nova rota em parceria com a Rússia, exportando produtos não só pela Ásia e África, mas também pelo Ártico — a chamada 'nova rota da seda polar'", afirma Hernandez.

A colaboração entre Moscou e Pequim é considerada sustentável e vantajosa para ambos, segundo Letícia da Luz, mestranda em estudos marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN). Enquanto a Rússia recebe investimentos em infraestrutura, a China garante acesso facilitado ao petróleo. Apesar de haver certa assimetria, os dois países compartilham o objetivo de contornar o cerco ocidental.

Já os Estados Unidos, de acordo com Hernandez, não veem com bons olhos a expansão da atuação de seus rivais na região. "O Ártico ficou um pouco esquecido nos últimos anos, principalmente com as atenções voltadas para outras áreas. Isso permitiu que China e Rússia avançassem. Os EUA perceberam essa falha, mas o crescimento desses países já havia se consolidado", avalia a pesquisadora.

O tráfego marítimo na região é sazonal, mais intenso durante o verão ártico. Atualmente, a Rússia controla grande parte da navegação, já que 50% do oceano Ártico está sob seu território, com dois portos estratégicos. "A Rússia tem a vantagem dos quebra-gelos, que escoltam navios petroleiros e comerciais, desenvolvendo expertise e liderança na navegação ártica", destaca Luz.

Ártico pode ser uma alternativa ao estreito de Ormuz?

Segundo Luz, o trânsito marítimo no Ártico cresceu quase 400% nos últimos 12 anos, e Moscou já utiliza a rota para exportação de petróleo. "A logística para grandes petroleiros já é uma realidade, não apenas uma promessa. A rota está operacional e em expansão", analisa.

A pesquisadora ressalta que o Ártico pode ser uma alternativa, mas não a principal rota para o comércio global. Hernandez aponta que a Índia também pode se beneficiar, em parceria com a Rússia, para escoamento de produtos.

Para o Brasil, integrante do BRICS, a rota polar não se mostra vantajosa devido à distância geográfica. "Para o Brasil, o Ártico ainda não seria uma rota viável, pois exigiria deslocamento muito grande para exportação de petróleo", observa Luz.

Assim, para países exportadores de petróleo bruto, o estreito de Ormuz segue sendo prioritário. "Uma alternativa é o Cabo da Boa Esperança, mas isso aumenta o tempo de viagem, os custos e outros fatores", conclui a pesquisadora.