Mucio tem missão ingrata ao tentar promover indústria brasileira aos argentinos, avaliam analistas
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicaram a história das relações militares de Brasília e Buenos Aires e enfatizaram a atual proximidade da Casa Rosada com a Casa Branca como um obstáculo para os produtos de defesa de empresas como Embraer, Emgepron e Imbel.
O ministro da Defesa do Brasil, José Mucio, viajou nesta segunda-feira (25) a Buenos Aires, na Argentina, para um encontro com o seu homólogo argentino, o tenente-general Carlos Alberto Presti, com o objetivo de divulgar o catálogo de itens da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.
A expectativa é de que Mucio apresente armamentos como mísseis, foguetes, bombas, armas leves, blindados, embarcações, aviões, drones e sistemas de satélite, tanto de empresas estatais, como Emgepron e Imbel, quanto privadas avaliadas como estratégicas, tal qual Embraer e Taurus.
O encontro acontece após o presidente da Argentina, Javier Milei, decretar que 10% de toda a arrecadação obtida por meio de privatizações, vendas ou aluguéis de bens do Estado devem ser investidos na defesa do país.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a viagem de Mucio, no entanto, não será fácil, uma vez que a Argentina vive uma relação política mais próxima aos Estados Unidos, embora tenha o Brasil como seu maior parceiro comercial.
Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que a ação do ministro brasileiro esbarra nas relações diplomáticas Brasília-Buenos Aires, uma vez a medida argentina reforça o "Plano Motosserra" de redução do poder do Estado argentino sobre a economia, além de dar destaque às Forças Armadas da Argentina (FFAA), que existem à sombra da sociedade desde a ditadura no país.
"Ao associar recursos de privatizações à modernização das FFAA, o presidente argentino pretende dar ainda mais impulso ao seu Plano Motosserra, diminuindo o poder do Estado em áreas estratégicas, a exemplo do que tem feito na saúde e na educação. No mais, quer reposicionar as Forças Armadas como ator central da política local, recuperando parte do seu prestígio político, além de responder a essa crescente securitização das relações regionais e internacionais."
Bandeira de Mello ressalta que, além da proximidade política entre Argentina e EUA, as tropas de Buenos Aires passaram a realizar exercícios junto aos soldados de Washington. Para a especialista, outro ponto digno de ênfase é o estreitamento de laços de Milei com Israel, dono de uma das maiores indústrias de defesa do mundo.
"Creio que o governo brasileiro terá o desafio de lidar com esse componente ideológico que pode se sobrepor a questões comerciais pragmáticas. [...] Ainda mais se considerarmos o potencial de Israel, que também é um dos grandes exportadores de armamentos e equipamentos militares do mundo e que atualmente figura entre um dos principais aliados internacionais da Argentina."
A doutora em relações internacionais afirma que, caso a viagem de Mucio seja bem-sucedida no campo comercial, dificilmente acarretará em alguma aproximação entre Milei e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Bandeira de Mello destaca que este interesse militar do líder argentino pode acender um alerta militar na América do Sul e, inclusive, resgatar rusgas históricas entre Brasília e Buenos Aires.
"É só olharmos para o que tem acontecido no Equador, por exemplo, que tem usado as Forças Armadas como ativos de segurança interna e no controle de crises. Isso pode reacender desconfianças e rivalidades antigas entre Brasil e Argentina, por exemplo."
Cooperação militar entre vizinhos é recente
O Brasil foi descoberto em 1500 e proclamou independência em 1822, já a Argentina, teve estes mesmos marcos históricos em 1502 e 1816, respectivamente. A proximidade de datas e também geográfica, no entanto, não se traduziu em uma aliança automática.
Felipe Salles, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM/EGN) e editor-chefe do canal BaseMilitar Video Magazine, explica que, no início do século XIX, os países que foram colonizados pela Espanha olhavam para o Brasil como um braço dos europeus nas Américas.
A desconfiança era tamanha que a Argentina, por vezes, concedeu cartas de corso a piratas, permitindo que estes corsários atacassem embarcações mercantis brasileiras e, posteriormente, pagando pelas pilhagens feitas por estes marinheiros.
O relacionamento entre Argentina e Brasil passou a ser estreitado no fim do século XIX, quando os países lutaram lado a lado na Guerra do Paraguai. No entanto, essa ligação militar esfriou e só voltou a ser notada em 1982, quando a Argentina e o Reino Unido iniciaram a Guerra das Malvinas.
"Para surpresa de muita gente, o Brasil tomou o lado da Argentina. O Brasil vetou os britânicos de usarem o país como ponto de parada de aeronaves e navios britânicos. O Brasil também forneceu aviões que eram da FAB para os argentinos. [...] A relação entre Brasil e Argentina pós-Malvinas é extremamente positiva, até na área militar."
Apresentado o contexto histórico, Salles destaca que há uma mudança expressiva no comando da Casa Rosada, uma vez que Milei rotineiramente ataca o governo brasileiro, embora a Argentina seja extremamente dependente da parceria com o Brasil.
Segundo a Trading Economics, o Brasil lidera os rankings de maior importador e maior exportador da Argentina, com a corrente comercial entre os países ultrapassando os US$ 30 bilhões de dólares.
As dificuldades econômicas, no entanto, não parecem ser um obstáculo para o projeto de renovação militar que Milei pretende realizar no país. De acordo com Salles, o povo argentino anseia pela recuperação das Malvinas e, para isso, há a construção de uma percepção de que é necessário o investimento em defesa.
"Existe um claro entendimento na Argentina de que não dá para você manter os militares como os vilões da história para sempre, porque o povo argentino deseja as Malvinas de volta e você jamais vai ter as Malvinas se não tiver uma presença militar crível no Atlântico Sul."
Para Salles, há muitos impecilhos que dificultam vendas substanciais de produtos de defesa brasileiros à Argentina. O caça Gripen e o avião multimissão C-390 Millennium, por exemplo, possuem componentes britânicos, logo são proibidos por Londres de serem vendidos à Argentina.
Outro fator que deve ser considerado é que o Brasil não equipará um vizinho ao ponto de estar desconfortável com o avanço das forças militares que estão ao sul de sua fronteira.
E, assim como Bandeira de Mello, Sales relembra a ligação política entre Buenos Aires e Washington. Segundo o especialista, os Estados Unidos podem fazer preços mais atrativos em equipamentos de segunda mão para fortalecer a parceria entre Milei e Trump.
"Os americanos podem vender meios de segunda mão, e esses meios podem custar quanto eles quiserem. Quando você fala em venda de material de segunda dos Estados Unidos, é uma decisão essencialmente política. O preço pode sair até zero, se isso for do interesse do governo americano. [...] Nós não vamos dar desconto para vender equipamento militar para a Argentina. A gente vai querer que eles paguem o preço de tabela."
Como exemplo deste raciocínio, Salles cita a preferência argentina por blindados norte-americanos, em vez dos brasileiros Guarani, que, inclusive, possuem motor fabricado na Argentina.
"Não é uma compra baseada em mérito do produto. É uma coisa mais ligada a como anda a relação do Brasil com a Argentina e da Argentina com os Estados Unidos. [...] O complexo, nesse momento, é determinar quais são os motivadores do Milei para agora investir na defesa do país."