De aviões a drones e blindados: o que o Brasil tem a oferecer à Argentina na área militar?
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, desembarca na Argentina nesta segunda-feira (25) em meio ao esforço brasileiro para ampliar a presença da indústria nacional de defesa no mercado sul-americano. A viagem oficial terá como foco a apresentação de equipamentos militares produzidos no Brasil ao governo do presidente Javier Milei.
Segundo o Ministério da Defesa, o catálogo que será apresentado ao ministro argentino da Defesa, tenente-general Carlos Alberto Presti, reúne mais de 440 produtos da Base Industrial de Defesa brasileira. Desse total, cerca de 300 itens são fabricados por estatais, como a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron), enquanto outros 140 são produzidos por empresas estratégicas privadas, entre elas Embraer, Taurus e Helibras.
A ofensiva brasileira ocorre em um momento em que Buenos Aires tenta recuperar capacidades estratégicas de suas Forças Armadas. O governo Milei determinou recentemente que 10% dos recursos arrecadados com privatizações, além da venda e aluguel de imóveis estatais, sejam direcionados à modernização militar do país.
Em meio à agenda do ministro na Argentina, a Sputnik Brasil reuniu alguns dos principais equipamentos produzidos pela indústria de defesa brasileira que podem entrar no radar das negociações entre os dois países. Veja abaixo:
KC-390 Millennium
Principal aposta brasileira no setor aeronáutico militar, o KC-390 Millennium foi desenvolvido pela Embraer como um cargueiro multimissão capaz de realizar transporte de tropas e veículos, lançamento de cargas, evacuação aeromédica, combate a incêndios e reabastecimento em voo. A aeronave transporta até 26 toneladas e pode operar em pistas curtas ou não pavimentadas, característica importante para operações na América do Sul.
Equipado com dois motores turbofan Pratt & Whitney IAE V2500, o KC-390 alcança velocidade próxima de 870 km/ele incorpora sistemas modernos de autoproteção, incluindo alerta de mísseis e contramedidas eletrônicas. A rampa traseira rebaixável facilita o embarque rápido de blindados e equipamentos pesados.
O cargueiro possui ainda um diferencial político e industrial importante para Buenos Aires: a Fábrica Argentina de Aviões (FAdeA) já participa da cadeia de produção da aeronave, o que torna uma eventual aquisição um reforço natural da cooperação bilateral.
Blindado VBTP-MR Guarani 6×6
Desenvolvido pelo Exército Brasileiro em parceria com a Iveco Defense Vehicles, o Guarani é o principal blindado de transporte de tropas produzido no país. Criado para substituir os antigos Urutu e Cascavel, o veículo combina mobilidade, proteção balística e capacidade anfíbia.
Com 16,7 toneladas, motor de 383 cavalos e velocidade de até 90 km/h, o blindado possui proteção contra munições perfurantes calibre 7,62 mm e casco em formato de V, projetado para reduzir os impactos de minas terrestres e explosivos improvisados.
A família Guarani inclui versões de reconhecimento, ambulância blindada, centro de comando e porta-morteiro. O modelo ganhou espaço no mercado internacional por reunir capacidades semelhantes aos de cegos ocidentais mais caros, mas com menor custo operacional.
Míssil Antinavio MANSUP
O MANSUP, desenvolvido pela SIATT, é um dos projetos estratégicos mais importantes da indústria brasileira de defesa no setor de mísseis. Desenvolvido para a Marinha do Brasil, o armamento foi concebido com tecnologia nacional e sem dependência de componentes críticos estrangeiros, reduzindo riscos de embargos internacionais.
O míssil já passou por testes de lançamento a partir da Fragata Independência, validando sistemas de navegação e guiagem. Na versão atual, possui alcance estimado de 70 quilômetros, enquanto a futura variante MANSUP-ER busca ampliar significativamente essa capacidade.
O sistema também poderá ser integrado em plataformas terrestres, submarinos e lançadores como o Astros II. Para a Argentina, o MANSUP aparece como alternativa para recuperar capacidades de ataque naval consideradas limitadas atualmente.
E-99M
O E-99M é uma das plataformas mais sofisticadas já produzidas pela indústria brasileira no campo de vigilância aérea e guerra eletrônica. Derivado do jato ERJ-145, da Embraer, o modelo atua como aeronave de alerta aéreo antecipado, capaz de detectar, rastrear e identificar alvos a grandes distâncias.
Seu sensor principal é o radar Erieye, de varredura eletrônica ativa, responsável pelo monitoramento simultâneo de múltiplos alvos. A aeronave também executa missões de inteligência de eletrônica, controle de interceptação aérea e monitoramento de fronteiras.
Na versão modernizada E-99M, a FAB incorporou novos sistemas de missão, radar e guerra eletrônica. Para a Argentina, a aeronave teria valor estratégico especialmente na vigilância do Atlântico Sul e do espaço aéreo próximo às ilhas Malvinas.
Drones
Os drones estão entre os segmentos de maior crescimento da Base Industrial de Defesa brasileira. As empresas nacionais ampliaram investimentos em sistemas não tripulados voltados para vigilância, reconhecimento, inteligência e ataque, acompanhando tendências observadas em conflitos recentes.
Entre os projetos em destaque está a parceria entre a Taurus e a Marinha do Brasil para o desenvolvimento de drones armados voltados para operações anfíbias e litorâneas, com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O interesse argentino no setor também cresceu nos últimos anos. O país já iniciou processos para aquisição de sistemas antidrones capazes de detectar e neutralizar aeronaves não tripuladas por bloqueio eletrônico de sinais.
Submarinos Classe Tupi e Classe Riachuelo
A possibilidade de transferência de submarinos brasileiros para a Argentina voltou a ganhar força após visitas de oficiais argentinos ao Comando da Força de Submarinos da Marinha do Brasil. O objetivo seria reconstruir parte da capacidade do submarino argentino após o desaparecimento do ARA San Juan em 2017.
Entre as alternativas avaliadas estão submarinos da classe Tupi, derivados do projeto alemão IKL/209, e unidades mais modernas da classe Riachuelo, construídas no Complexo Naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro.
Os submarinos da classe Riachuelo utilizam propulsão diesel-elétrica, possuem sistemas modernos de combate e capacidade para empregar torpedos pesados e mísseis antinavio. Uma eventual negociação abriria espaço para aprofundamento da cooperação naval entre Brasil e Argentina.
Por Sputinik Brasil