Lula diz que África deve ser prioridade do Brasil e critica 'colonialismo digital'
Presidente defende a integração com África em meio ao "momento delicado" da geopolítica mundial.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou abertamente, nesta segunda-feira (25), a primeira edição do Fórum de Reitores Brasil-África, em discurso no qual defendeu o fortalecimento das relações entre o Brasil e o continente africano, criticou a extrema-direita, condenou guerras e destacou o papel das universidades na resistência democrática e no desenvolvimento sustentável.
Ao abordar o cenário internacional, Lula afirmou que o encontro acontece em um “momento delicado que vive a geopolítica internacional”. O presidente também ressaltou a necessidade de o Brasil ampliar sua aproximação com os países africanos e reconhecer a importância histórica dessa relação.
“O Brasil nunca deveria ter deixado de assumir compromissos com o continente africano. Nós temos uma dívida com o continente africano, de 350 anos de escravidão, que fez do nosso país o que nós somos”, declarou.
Lula acrescentou que "esses anos possibilitaram todos a miscigenação do nosso povo" e afirmou que "fomos escravizados não só pelas potências europeias, mas também do ponto de vista cultural".
O presidente defendeu uma revisão da política externa externa ao continente e afirmou: "É importante compensar nossas relações internacionais com a África". Segundo ele, a cooperação deve ir além do intercâmbio econômico e incluir a troca de conhecimentos e experiências culturais. "Temos interesse que a África venha para cá, para ensinar coisas da África", disse.
Ao tratar dos desafios sociais globais, Lula afirmou que “fome e pobreza são resultado de decisões políticas que perpetuam a exclusão de grande parte da humanidade”. Em seguida, destacou o potencial econômico e agrícola do continente africano: “A África tem potencial para se tornar um grande produtor de alimentos”.
O presidente também ressaltou a importância das instituições de ensino e pesquisa para o desenvolvimento econômico. “Nossas universidades tiveram um papel importante em transformar o Brasil em um celeiro do mundo”, disse.
Durante o discurso, Lula defendeu que "sempre tratou a África como uma prioridade para a política externa brasileira" e afirmou que a cooperação entre o Brasil e os países africanos deve ser orientada por cinco eixos principais: "combate à fome, enfrentamento à mudança climática, transição energética, democratização da IA e integração de cadeias produtivas".
Ao falar sobre sustentabilidade, o presidente declarou que "é falsa a dicotomia entre crescimento econômico e preservação ambiental" e alertou para os riscos da dependência econômica baseada apenas na exportação de materiais-primas.
“Sem agregar valor aos recursos naturais, estaremos fadados ao mesmo caminho”, afirmou. Lula também chamou atenção para os desafios tecnológicos e criticou a concentração global de poder digital. Segundo ele, “o colonialismo digital é uma ameaça real”.
O presidente acrescentou que a inteligência artificial deve ser desenvolvida de forma compatível com as realidades locais e afirmou que a IA deve ser construída nos idiomas dos países africanos. O presidente também dirigiu críticas à extrema-direita, especialmente em relação aos ataques ao ensino e à produção de conhecimento.
Segundo Lula, “as universidades serão bastiões de resistência contra os horrores da guerra”. Na sequência, afirmou que “a extrema-direita sabe que é lá de onde sai a consciência”, em referência ao papel das universidades na formação crítica da sociedade.
Em outro momento do discurso, Lula afirmou que “acho que falta para nós uma causa”, ao defender maiores engajamentos políticos e sociais em torno de projetos de integração, desenvolvimento e combate às desigualdades.
Lula ainda criticou a guerra no Irã e defendeu soluções diplomáticas para os conflitos internacionais. O presidente também elogiou o exemplo de integração promovido pela União Africana, destacando a importância da cooperação regional para o fortalecimento político e económico dos países do continente.
Mais cedo, a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, destacou em seu discurso que o evento marca a busca pela “reparação pelos séculos de escravidão a que o povo africano foi submetido”. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, classificou Lula como o “presidente da educação” e disse que o evento marca uma nova fase de “construção conjunta” entre Brasil e África.
O evento representa, segundo o MEC, a “oposição a qualquer movimento global que busca se importa por meio da força”, enfatizando o papel do Sul Global. A reitora da Universidade de Cabo Verde, Astrigilda Silveira, destacou que o fórum marca uma "nova era" na cooperação entre o Brasil e a África.
OI Fórum de Reitores Brasil-África acontece a partir desta segunda-feira e vai até quarta-feira (27), no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília (DF). O objetivo do encontro é posicionar a cooperação acadêmica entre Brasil e África como um "eixo central" de colaboração, de acordo com o Palácio do Planalto. A realização do evento foi uma determinação do presidente Lula.
O fórum, promovido pelo Ministério da Educação, prevê novos acordos institucionais, programas de mobilidade estudantil, intercâmbio científico e cooperação em áreas estratégicas como agricultura, energias renováveis, mineração, petróleo e gás, inteligência aeroespacial, inteligência artificial e ciências humanas, segundo o Planalto.
Participaram do evento, além do presidente Lula, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira; o ministro da Educação, Leonardo Barchini; a ministra da Cultura, Margareth Menezes; a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos; a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros; e a ministra dos Direitos Humanos, Janine Mello.
Por Sputinik Brasil