‘Perda de renda’ com consignado acende alerta entre construtoras
Aumento do crédito consignado e endividamento das famílias elevam risco de inadimplência no setor, principalmente no Minha Casa Minha Vida.
O crescimento acelerado da oferta de crédito consignado, aliado ao já elevado endividamento das famílias brasileiras, tem preocupado as construtoras. O temor é de que uma possível piora na capacidade de pagamento da população comprometa não apenas as vendas de imóveis, mas também a concessão de financiamentos aos consumidores.
O risco é ainda maior para as empresas que atuam no segmento de moradias populares, especialmente no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). Nesses casos, é comum que o cliente não disponha de uma poupança suficiente para arcar com 20% a 30% do valor do imóvel, montante normalmente exigido como entrada.
Para viabilizar a compra, as construtoras parcelam esse valor em uma modalidade conhecida no setor como pro soluto. Embora facilite o acesso à moradia, esse tipo de financiamento não oferece garantia em caso de inadimplência, já que o imóvel serve de garantia apenas para o banco que financia os 70% a 80% restantes.
Com o aumento do endividamento, impulsionado pelo novo consignado, o risco de inadimplência cresce. “O valor líquido do salário recebido pelos empregados vem sendo reduzido pelo consignado privado. O risco da carteira de pro soluto está se ampliando”, alerta José Urbano Duarte, consultor de negócios imobiliários e ex-diretor de habitação da Caixa Econômica Federal.
Até março de 2025, a concessão de consignado no Brasil girava em torno de R$ 1,6 bilhão por mês. Com o lançamento do “Crédito do Trabalhador” — modalidade de consignado com FGTS como garantia e juros menores —, o volume disparou para mais de R$ 6 bilhões mensais, atingindo um pico de R$ 10,9 bilhões em março de 2026, segundo levantamento de Urbano.
Esse avanço rápido resulta em uma “perda de renda” para os trabalhadores nos meses seguintes, já que a parcela do consignado é descontada diretamente do contracheque, priorizando o pagamento aos bancos. Como consequência, aumenta o risco de inadimplência em outros compromissos, como o próprio pro soluto, aluguel e faturas de cartão de crédito.
“A consequência dessa dinâmica é o menor risco do consignado para os bancos e aumento da oferta dessas linhas, porém com uma captura crescente da renda, ampliando o risco e a inadimplência nas demais linhas de crédito”, observa Urbano.
Ricardo Paixão, diretor financeiro da MRV, destaca que o cenário merece atenção não só das construtoras, mas de todo o setor produtivo. “Isso atrapalha tudo, não só a carteira pro soluto. Afeta desde o aluguel até os gastos nos supermercados”, afirma. “O banco é como um credor sênior do consumidor. A vantagem é ser uma dívida mais barata, mas o problema é a população ficar cada vez mais endividada. Pode ser um fator de pressão”. Segundo Paixão, a MRV não registrou aumento na inadimplência até o momento, mas o tema é motivo de atenção para o ano.
Na Cury, o quadro também é monitorado de perto. “A inadimplência requer um acompanhamento constante. Impactou nossa carteira? Ainda não. Ela está sob controle, mas estamos muito atentos, pois as famílias estão mais endividadas”, ressalta João Carlos Mazzuco, diretor financeiro da Cury. Já Leonardo Mesquita, copresidente da construtora, afirma que o endividamento crescente já prejudica as vendas. “Muitas pessoas deixam de comprar um imóvel pelo nome negativado. Nos estandes, dizemos muito mais ‘não’ do que ‘sim’. O endividamento nos atrapalha”, conclui.