Taxas de juros encerram sem direção única, com cautela devido à guerra e quadro eleitoral
Em uma sessão de oscilações contidas e baixo apetite por risco antes do final de semana, que pode trazer novos desenvolvimentos no front da guerra, e de um feriado nos Estados Unidos na próxima segunda-feira, 25, os juros futuros negociados na B3 encerraram o pregão em ligeira elevação na parte curta e média da curva, e leva baixa na ponta longa.
Com muitos vetores no "price-action", a pesquisa Datafolha trouxe ao mercado sinais mistos sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. No exterior, também houve desencontro de informações sobre avanços nas negociações entre EUA e Irã, conjunção de fatores que determinou um pregão "em cima do muro" para a curva de juros local.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,043% no ajuste de quinta para máxima intradia de 14,115%. O DI para janeiro de 2029 teve leva alta a 13,895%, de 13,844% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 registrou tímida queda, de 14,012% para 14%.
Após os DIs terem zerado a alta observada até então no meio da tarde, em reação à notícia veiculada pela Sky News Arabia de que EUA e Irã teriam alcançado um entendimento geral sobre o programa nuclear iraniano, o movimento de melhora perdeu um pouco de fôlego e as taxas ficaram lateralizadas. Por volta das 16h, porém, os vértices longos da curva a termo ampliaram o viés de queda, em seguida à publicação da nova enquete eleitoral. Novamente, a melhora perdeu ímpeto rumo ao final da sessão.
O dado mostrou que, após a crise ocorrida na campanha do pré-candidato Flávio Bolsonaro, o presidente Lula abriu 9 pontos de vantagem em relação a ele no primeiro turno: o petista registrou 40% ante 31% do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Além disso, 64% dos entrevistados disseram ter ouvido falar do caso "Dark Horse", nome do filme - mesmo porcentual de eleitores que acham que Flávio agiu mal. Por outro lado, na hipótese de segundo turno, profissionais do mercado ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) indicaram que o senador se mantém competitivo: ambos aparecem empatados tecnicamente, com Lula registrando 47% das intenções de voto, ante 43% de Flávio. E isso pode ter tido um pouco mais de peso nas posições.
Dado o desempenho "em cima do muro" das taxas na última sessão da semana, com resistência dos DIs tanto a movimentos de baixa quanto de elevação, agentes avaliam que o pregão foi de acomodação da curva. Houve pouco apetite a risco, devido ao fim de semana e, ainda, ao feriado do Memorial Day nos EUA, que fechará os mercados por lá na segunda-feira.
"Para este final de semana, a expectativa é que ou saia o acordo entre EUA e Irã, ou que haja reversão rumo a um cenário pior. Após uma semana em que os nervos se acalmaram, o dia de hoje sexta-feira foi uma correção do excesso da queda de quinta. Claramente o mercado não quis assumir mais riscos", afirmou Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil.
Segundo Praça, a direção para baixo dos juros aponta para um cenário de resolução do conflito, mas os agentes estão posicionados "em cima do muro". "Hoje sexta-feira, 22 o fechamento será basicamente no mesmo clima de quinta, é um dia complexo", diz. E como os mercados nos EUA não abrem na segunda, a disposição em tomar risco diminui.
Por aqui, profissionais de renda fixa avaliam que o levantamento do Datafolha trouxe dois lados para o cenário eleitoral, mas que parece ter preponderado o "positivo" - ou seja, o que sinaliza maior probabilidade de uma transição de governo em 2027 rumo a uma agenda mais fiscalista.
"O Flávio caiu pouco, considerando que o Datafolha é uma pesquisa que geralmente 'pinta' melhor para candidatos de esquerda", disse um estrategista de uma grande corretora em condição de anonimato à Broadcast. "Mas tem outra visão possível, que é a de que notícias ruins para Flávio aumentam as chances de que ele perca apoio e apareça um outro candidato mais ao centro", ponderou.
Na parte da tarde, o mercado também monitorou o relatório bimestral de receitas e despesas, que trouxe bloqueio de R$ 23,7 bilhões no Orçamento, acima do esperado. Para o gestor de renda fixa de uma grande Asset, o dado contribuiu com o comportamento dos ativos de risco, no sentido de que "não atrapalhou". Para Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, o valor bloqueado pelo governo federal surpreendeu para cima e há chances de haver desbloqueios nas próximas revisões.
Ainda assim, as taxas curtas e médias persistiram em terreno positivo, influenciadas pela ligeira alta do petróleo na sessão e a abertura da curva dos Treasuries em iguais trechos.