Fogueira de São João exige cuidado redobrado com a visão
Durante os festejos, oftalmologista explica que irritações, alergias e traumas provocados por fumaça, calor e faíscas costumam aumentar
Junho chega carregado de tradição, cheiro de milho assado, música animada e noites iluminadas pelas fogueiras de São João. Em meio ao colorido das bandeirolas e aos encontros familiares, um cuidado costuma passar despercebido: a exposição dos olhos ao calor intenso, à fumaça e às faíscas/fogos pode transformar celebração em urgência oftalmológica.
Durante o período junino, especialistas observam aumento de queixas relacionadas a irritações oculares provocadas pelo contato prolongado com ambientes tomados pela fumaça. Ardência, vermelhidão, lacrimejamento e sensação de areia nos olhos aparecem entre os sintomas mais frequentes, sobretudo em crianças, idosos e pessoas que já convivem com problemas crônicos da superfície ocular.
A Dra. Laura Sabino, oftalmologista do HOPE - Hospital de Olhos de Pernambuco, explica que a proximidade das chamas e o manuseio de fogos exigem atenção redobrada. “Muita gente associa a fogueira apenas ao simbolismo das festas juninas, mas ela representa uma fonte importante de calor, fumaça e partículas capazes de agredir estruturas oculares delicadas. Dependendo da intensidade da exposição, podem surgir desde irritações e alergias até quadros mais graves”, afirma.
Entre as possíveis alterações estão: agravamento das alergias oculares, com olho vermelho, coceira intensa e inchaço; intensificação do olho seco, provocando ardor e desconforto persistente; ocorrência de ceratite, caracterizada por microlesões na córnea, estrutura transparente responsável pela entrada da luz no olho, acompanhada de ardência e sensação de corpo estranho; e, por fim, casos mais graves, como queimaduras causadas por faíscas ou fogos, além da entrada de resíduos na superfície ocular e até quadros severos com ruptura das estruturas do olho em decorrência da explosão de fogos juninos.
A posição em relação ao vento também faz diferença durante os festejos. Ficar contra a direção da fumaça ou manter distância da fogueira reduz significativamente a exposição e contribui para preservar o bem-estar dos olhos. Em situações de irritação leve, lágrimas artificiais, colírios lubrificantes indicados por profissionais, podem ajudar na recuperação da superfície ocular.
Persistência de vermelhidão, sensação de corpo estranho, dor ou embaçamento visual, assim como queimaduras oculares ou traumatismos com fogos juninos,exigem avaliação especializada imediata. A médica orienta que nenhum sintoma seja ignorado. “Quando existe alteração visual ou desconforto prolongado, não é recomendável insistir em soluções improvisadas ou esperar melhora espontânea. O atendimento precoce faz diferença na recuperação”, destaca.
Caso alguma faísca atinja os olhos, a recomendação é agir rapidamente e evitar práticas populares sem respaldo científico. Lavar a região com água mineral ou soro fisiológico representa a primeira medida segura. Ela alerta que receitas caseiras podem agravar o quadro e dificultar o tratamento. “Leite materno, manteiga, pomadas ou colírios utilizados sem prescrição não devem ser aplicados em nenhuma hipótese”, afirma.
O ciclo junino alcança o ponto alto com o Dia de São João, celebrado em 24 de junho, e segue até as homenagens dedicadas a São Pedro, no dia 29. Entre fogueiras, quadrilhas e reencontros, tradição e cuidado podem caminhar juntos para que a memória das festas seja marcada apenas pela alegria, nunca por danos evitáveis à visão.