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Escritora e uma das roteiristas de "Mundo da Lua", Fernanda Pompeu lança livro sobre envelhecer sem filtros e desculpas
Há uma cena em Quando eu era velha, de Fernanda Pompeu, que diz mais do que qualquer teoria sobre envelhecimento. Olívia, jornalista veterana, está sentada no metrô quando uma jovem se levanta e oferece o lugar. O gesto é gentil, mas vem como um terremoto para a protagonista desta ficção. Em apenas um segundo, ela vê o mundo emitir seu veredito: você chegou na terceira idade.
Ao se aposentar, a personagem recebe uma proposta para escrever um livro sobre envelhecer. Ela aceita, mas decide fugir das abstrações. Fala do que acontece de verdade: o garçom que olha na sua direção sem realmente vê-la, até que ela acena como quem sinaliza um táxi. Fala das rugas que aparecem como hóspedes que ninguém chamou. Fala de memórias de infância e os silêncios que doem mais que as dores do corpo, construindo metáforas sobre a vulnerabilidade que o passar dos anos impõe.
Escritora, redatora, editora e roteirista de carreira, Fernanda Pompeu combina esse recurso da metalinguagem com a própria bagagem para oferecer quase um manifesto. A autora não encara a velhice como tragédia nem como cartão-postal de avó tricotando em paz. Em vez disso, cunha o termo "novos velhos" para se referir às pessoas que cresceram no analógico, atravessaram o digital e ainda estão de pé, tentando entender por que o Instagram prefere rostos sem história.
Para quem já trabalhou com conteúdo, a profissão da protagonista ganha uma camada extra. Olívia pertence à geração que apurava por telefone fixo e tratava a redação como um segundo lar. Esse mundo sumiu. O que ficaram, segundo a narrativa, são jovens "empreendedores da notícia", velozes e conectados, mas frequentemente rasos. A tensão entre a autoridade conquistada com anos de ofício e a visibilidade instantânea das redes sociais é um dos fios mais honestos do livro, com o qual muitos jornalistas vão se identificar.
Outro ponto que diferencia a leitura de tantas outras sobre longevidade é a recusa em vender ilusão. Perto dos 70 anos, Fernanda Pompeu não promete que envelhecer é a melhor fase da vida. Mas mostra o que há do outro lado: a liberdade de quem não precisa mais provar nada, o prazer de escrever sem patrão, a clareza sobre o que importa que só vem depois de muitos "nãos". Quando eu era velha chega aos leitores como esse retrato de quem também se nega a sentar na calçada enquanto espera o tempo passar. Porque tudo é possível para quem ainda não está morto.
Ficha técnica
Título: Quando eu era velha
Autora: Fernanda Pompeu
Gênero: Ficção literária
Editora: Labrador
Páginas: 128
ISBN: 978-6556259239
Preço: R$ 39,90
Onde encontrar: Amazon e principais livrarias do país

Sobre a autora: Fernanda Pompeu é escritora e roteirista com mais de quatro décadas de carreira. Ficou conhecida pelo grande público como uma das roteiristas do programa infantil Mundo da Lua (TV Cultura). Ao longo da carreira, atuou como redatora freelancer em projetos editoriais variados. Define a si mesma como uma "inteligência biológica" em tempos de automação e IA. Quando eu era velha é sua mais recente obra e reúne, em forma de ficção, anos de observação sobre o tempo e o que significa continuar se reinventando. Também publicou 64, microcontos em torno das sequelas da ditadura militar, e Escriba errante, autoficção pela Labrador