Negócios, negócios, amigos à parte: analistas avaliam encontro 'paz e amor' entre Trump e Xi
"Um dos eventos mais importantes da história recente", declarou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após o encontro com seu homólogo chinês, Xi Jinping, nesta quinta-feira (14), em Pequim.
O clima amistoso da visita recebeu elogios como fantástico e produtivo por parte do estadunidense, enquanto Xi declarou que a visita tem "caráter histórico".
Trump chegou em Pequim ontem (13) e permanecerá na capital chinesa até amanhã (15), marcando a primeira visita oficial em nove anos de um presidente dos EUA ao país asiático.
O encontro também ocorre após meses de trocas de acusações, ameaças de sanções, críticas e retaliações comerciais entre as duas maiores economias do mundo, em um momento em que os EUA estão fragilizados pelo mal desempenho na guerra contra o Irã.
O último encontro entre Xi e Trump ocorreu em outubro de 2015, em Busan, Coreia do Sul, onde os líderes assinaram uma trégua na guerra comercial iniciada pelos EUA com a imposição de tarifas sobre diversos produtos chineses.
Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliaram que discursos e acenos positivos de ambos os lados eram esperados e refletem a disposição tática e transacional de evitar tensões desnecessárias.
Professora de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenadora do Laboratório de Estudos da Ásia (LabÁsia - UERJ), Alana Camoça observou que o clima amigável deve ajudar a mitigar as "múltiplas tensões que estão escalando, da guerra com o Irã às fricções tecnológicas e comerciais".
"É um primeiro encontro que sinaliza diálogo e espaço para cooperação em determinadas áreas, mas ainda não trouxe efetivamente à tona tensões no âmbito financeiro [...] Existem tensões envolvendo o Leste Asiático, Taiwan, disputa tecnológica que são mais centrais no âmbito puramente bilateral."
Para o pesquisador sênior do Think Tank Observa China Gustavo Alejandro Cardozo, o evento foi um "teatro necessário para os mercados" e para dar um respiro às cadeias de suprimentos.
"É uma paz armada, vestida com trajes de gala e declarações de boa vontade, mas com os olhos fixos em quem ditará as regras do sistema internacional na próxima década", argumentou Cardozo.
Os avanços nas negociações econômicas bilaterias foram ressaltados pelo pesquisador associado do LabChina (UFRJ) Cassiano Schwantes como os mais palpáveis do encontro. Ele observou que empresários e bilionários da comitiva de Trump relataram tratativas positivas com Xi nessa seara.
"Tudo indica que haverá maior abertura para discussões sobre as atuais turbulências internacionais, principalmente no que diz respeito a possíveis tréguas nas sanções econômicas de ambos os lados, além da redução de tarifas e da ampliação da abertura comercial para agentes privados interessados".
O pesquisador, que também é mestre em economia política internacional (UFRJ), acrescentou que diminuir as medidas tarifárias que elevam custos e dificultam o funcionamento das cadeias globais de valor pode beneficiar internamente a economia estadunidense e Trump poderá utilizar isso politicamente a seu favor.
Entretanto, a necessidade de vitórias retóricas na política interna de Trump e de estabilidade para consolidar o projeto de modernização de Xi não mitiga embates estruturais entre as duas nações, opinou Cardozo: "As placas tectônicas da hegemonia continuam a colidir no fundo do oceano".
'Uma coisa é uma coisa…'
Xi declarou no discurso de abertura do evento com Trump que o renascimento da China e o lema "torne a América grande novamente" podem avançar lado a lado. Mas para os estudiosos ouvidos pela Sputnik Brasil, a afirmação é pura retórica e reuniões como essa visam estabelecer canais de comunicação de crise para evitar atritos mais graves, já que uma parceria entre aliados não se enquadra nos projetos vislumbrados pelos estadistas para suas nações:
"O projeto do 'renascimento chinês' pressupõe revisão da ordem internacional e, de forma mais específica e interessada pela China, regional no Leste Asiático [...] A ideia de fazer a 'América Great Again' no seu centro pressupõe supremacia tecnológica, econômica e militar americana. E isso não parece ser um caminho possível considerando a ascensão da China, sobretudo na área econômica e tecnológica", declarou a professora da UERJ.
A observação de Cardozo vai na mesma linha de Camoça ao apontar que, geopoliticamente, os países representam dois vetores de força nacionalista operando em um espaço finito.
"Na prática, isso só seria plausível se Washington aceitasse finalmente que a ordem unipolar morreu, algo que o establishment estadunidense não vai digerir facilmente, por mais que Trump prefira acordos bilaterais em detrimento das alianças multilaterais [...] Não estamos diante de uma trégua na governança global, mas, sim, de um interlúdio [...] a governança está em pausa, não em recuperação".
O pesquisador do LabChina também frisou que o discurso de Xi sobre a coexistência como necessidade para o futuro da ordem global, na prática, mostra-se atualmente difícil:
"Do ponto de vista geopolítico, diversos entraves permanecem presentes e continuarão surgindo. A própria lógica política e ideológica de Trump cria obstáculos para cooperações mais amplas em diversas áreas, e ele dificilmente romperá de imediato com sua forma de atuação".
O discurso conciliador de Trump, disse ele, reforçando a ideia de Cardozo, mirou na abertura comercial para empresas norte-americanas e até mesmo em questões diplomáticas mais amplas, como eventual apoio chinês relacionado ao estreito de Ormuz.
Taiwan
Taiwan seguirá sendo a pedra no meio do caminho das boas relações entre as duas potências, avaliaram os entrevistados.
O governo Chinês mencionou que o tema foi abordado na conversa e que Xi alertou que qualquer tentativa de instigar a independência da ilha acarretaria confronto com os EUA. Entretanto, a Casa Branca não mencionou o episódio.
"A posição da China sempre foi clara e está bem documentada com a ideia de que a independência de Taiwan e a paz no estreito são irreconciliáveis", ressaltou Camoça.
Para a professora, o silêncio da Casa Branca pode ter sido motivado por cautela nessa fase inicial do diálogo de não registrar oficialmente o episódio para evitar o custo doméstico e diplomático.
"O tema certamente renderá análises e discussões internas nos Estados Unidos e por razões estruturais, não apenas políticas. Internacionalmente, há um risco que determinados comentários implicariam nas relações dos EUA com aliados no Indo-Pacífico, especificamente Japão, Coreia do Sul e Austrália, que observam esse encontro com atenção direta, pois qualquer sinalização americana sobre Taiwan redefine o cálculo de segurança de toda a região".
A questão de Taiwan, segundo Cardozo, "é onde o cinismo da diplomacia atinge o seu ponto máximo", uma vez que o silêncio da Casa Branca visa ganhar tempo para evitar uma escalada das tensões no estreito de Ormuz.
"Esse tópico não perdeu a vigência nem foi resolvido; foi simplesmente guardado na gaveta até que uma das partes acredite que tem a vantagem estratégica suficiente", disse ele.
Já Schwantes ponderou que é provável que os Estados Unidos reduzam parcialmente o apoio a Taiwan em troca de flexibilização das tensões no estreito de Ormuz, considerando a proximidade entre China e Irã, além das recentes iniciativas chinesas de mediação, com o Paquistão, em busca por estabilidade regional.
"Considerando que os Estados Unidos enfrentam eleições de meio de mandato neste ano e que Trump busca reduzir os índices de reprovação de seu governo, é possível esperar um movimento de arrefecimento dos conflitos internacionais, especialmente em relação ao Irã. O prolongamento do conflito além do esperado pela Casa Branca gerou forte pressão política interna sobre Trump, o que torna sua visita à China simbólica e estrategicamente importante", concluiu ele.
América Latina
Terreno de disputa constante e acirrada, sobretudo, devido aos recursos naturais cada vez mais essenciais à manutenção da economia mundial, a América Latina é outro ponto de cisão nas negociações sino-estadunidenses, na opinião de Camoça. Ela comentou que a distensão bilateral EUA-China não deve alterar muito esse cenário.
"É evidente que a China avançou de forma consistente em infraestrutura, comércio e influência diplomática na região na última década e isso tem produzido uma percepção positiva crescente de Beijing [Pequim] em vários países, não por acaso, entre governos mais alinhados a posturas diplomáticas multilaterais, que se descolaram progressivamente dos EUA. Todavia, a pressão de Washington na região em termos militares e de segurança é inegável".