'Se não se reorganizarem, são os próximos alvos': analista explica parceria entre Minsk e Pyongyang
Lucas Rubio, presidente do instituto Paektu, comenta sobre a aproximação dos dois países e como essa relação redefine as organizações de alianças e blocos internacionais no atual cenário geopolítico.
No fim de março de 2026, durante a primeira visita oficial do presidente Aleksandr Lukashenko à Coreia do Norte, Belarus e Pyongyang anunciaram uma nova etapa nas relações bilaterais. A viagem resultou na assinatura de um tratado de "amizade e cooperação", além da decisão de abrir uma missão diplomática belorussa na República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e acelerar negociações para ampliar o contato entre empresas e cidadãos dos dois países.
A aproximação entre Minsk e Pyongyang levanta questionamentos sobre até onde essa relação pode avançar. Em meio ao aumento das tensões internacionais e das sanções ocidentais, analistas também discutem se o fortalecimento desses laços sinaliza a formação de um bloco informal entre países que buscam ampliar sua autonomia diante da pressão dos Estados Unidos e aliados.
Além da cooperação diplomática, os acordos assinados pelos dois governos indicam possibilidades de colaboração em áreas como comércio, agricultura, tecnologia, saúde e educação. O estreitamento das relações também reforça o alinhamento político entre Belarus e Coreia do Norte em defesa de uma ordem internacional mais multipolar.
Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Lucas Rubio, especialista em Coreia do Norte e presidente do Instituto Paektu, explica como houve a aproximação entre os dois países.
A princípio, Rubio vê a pressão ocidental que ambos sofrem como fator que uniu Minsk e Pyongyang. "Esses dois países são países considerados párias do sistema internacional", afirma o especialista. Como conta, Belarus não é um país socialista, mas que preservou muito da história da União Soviética e possui uma conexão forte com a Rússia, tanto em cultura como história e interesses.
No caso da Coreia do Norte, é socialista e possui um programa nuclear "muito controverso para o mundo ocidental". Segundo Rubio, esse processo de isolamento imposto por sanções e pressões diplomáticas acaba incentivando países nessa situação a buscarem novas alianças internacionais.
"Quando se cria essa situação de se isolar tanto alguns países, como a gente também vê isso acontecer com Cuba, Venezuela e tantos outros, esses países tendem justamente a se reorganizar e a procurar outras alianças", afirma.
Rubio avalia que as críticas recorrentes ao sistema político e aos processos eleitorais dos dois países fazem parte desse cenário de disputa geopolítica. "São dois países que sofrem essa pressão nos seus assuntos internos e externos por parte das potências ocidentais e talvez o caminho natural tenha sido essa aproximação".
Sobretudo, países que não ocupam posição central na ordem global tendem a buscar novas aproximações baseadas em interesses comuns e em maior autonomia política. "Nem a Coreia e nem Belarus são grandes potências globais, então eles vão tentar se reordenar ao redor de polos que possam representar os seus interesses", afirma Rubio.
Segundo ele, os dois países compartilham uma visão favorável ao diálogo, ao multilateralismo e à não intervenção em assuntos internos de outros Estados. O pesquisador também argumenta que Belarus e Coreia do Norte mantêm relações estratégicas com potências como China e Rússia sem que isso represente submissão política.
"São países altamente independentes. As pessoas confundem relações estratégicas com submissão, e não é esse o caso quando a gente fala da Coreia e de Belarus". Para Rubio, a convergência entre as doutrinas de política externa dos dois países e os acontecimentos geopolíticos dos últimos anos ajudam a explicar o fortalecimento dessa aproximação.
Aproximação com a Rússia e a China
Sobre como a notícia foi recebida por aliados, Rubio avalia que Pequim e Moscou enxergaram o fortalecimento das relações entre Minsk e Pyongyang "com certa naturalidade" e sem interferir na decisão dos dois governos.
Como explica, tanto Rússia quanto China mantêm uma política externa baseada na não intervenção em assuntos internos de outros países, o que teria facilitado essa aproximação. "Entendam que essa é uma decisão interna de cada governo, do governo belarusso e do governo norte-coreano", afirma. Para ele, dadas as circunstâncias geopolíticas e até ideológicas, os dois países "viram com ótimos olhos essa aproximação".
Rubio também acredita que Moscou pode ter atuado como ponte diplomática entre Pyongyang e Minsk. Isso porque Belarus ainda não possuía representação diplomática na Coreia do Norte, situação que começou a mudar após a visita de Lukashenko ao país asiático no primeiro semestre de 2026. "Pyongyang deve ter passado por Moscou, deve ter não só consultado, como solicitado a Moscou uma ajuda na aproximação", avalia.
No caso chinês, Rubio destaca que Pequim continua sendo a principal aliada econômica da Coreia do Norte e valoriza relações com países considerados soberanos e independentes. "A China se interessa por países independentes e soberanos, que têm uma participação mundial autônoma", pontua. Segundo ele, Belarus também ocupa posição estratégica importante para Pequim, o que ajuda a explicar o apoio chinês ao estreitamento entre os dois países.
O pesquisador cita ainda o desfile realizado em Pequim, em setembro de 2025, pelos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Ásia, como demonstração da proximidade política entre China, Rússia, Belarus e Coreia do Norte. Na ocasião, Xi Jinping posicionou Kim Jong-un e Lukashenko ao seu lado durante a cerimônia, enquanto Vladimir Putin ocupava o outro lado do líder chinês.
"Essas quatro capitais, Minsk, Pequim, Moscou e Pyongyang, estão realmente operando numa linha muito próxima."
Mudança de relações
Um outro ponto abordado é como a relação entre Belarus e Coreia do Norte altera como países devem pensar na organização de alianças e relações no cenário internacional. Como uma maneira para não serem encurralados e atacados, Rubio ressalta que esses países estão montando alianças e blocos internacionais, sem levar em conta diferenças culturais, geográficas ou históricas.
"Os países observam o mundo em fluxo e eles também vão seguindo um fluxo", afirma o especialista. Segundo ele, governos considerados alvo frequente de pressões ocidentais entendem que precisam construir novas formas de cooperação para evitar isolamento político, econômico e até militar.
"Se eles não se reorganizarem, eles são os próximos alvos", pontua.
Para ele, países antes apresentados como "vilões" pela mídia e pelo discurso ocidental passaram a ser vistos de outra maneira por parte significativa do mundo. O pesquisador cita o caso da China, vista como referência em desenvolvimento tecnológico e combate à pobreza, e da Rússia, que, apesar das sanções impostas, manteve e ampliou relações com outros países fora do eixo ocidental.
Nesse contexto, Belarus e Coreia do Norte enxergariam vantagens mútuas em aprofundar relações justamente por compartilharem experiências semelhantes de sanções e isolamento. "São tantas sanções que você encontra nos seus parceiros também sancionados a opção de driblar essas sanções", afirma Rubio.
O pesquisador também argumenta que organizações e projetos multilaterais como o BRICS têm atraído cada vez mais países por apresentarem uma proposta considerada mais "agregadora". "A cada reunião geral do BRICS nós temos novos membros entrando", destaca. Assim, esse movimento demonstra que parte do mundo busca ampliar relações para além do eixo liderado pelos Estados Unidos.
Apesar disso, ele pondera que a reorganização internacional não significa necessariamente maior estabilidade global. Rubio avalia que o cenário atual é marcado por crescente desconfiança entre os próprios aliados e pelo aumento do risco de conflitos regionais.
Ainda assim, no caso específico de Belarus e Coreia do Norte, ele acredita que a aproximação representa o fortalecimento da confiança mútua entre dois países que passaram décadas sob pressão internacional.
"No caso da Coreia e de Belarus, eu acho que é o sentido contrário: é um reforço do sentimento de confiança e de cooperação entre países que passaram muito tempo isolados."
Por Sputinik Brasil