Desinformadores recorrem ao assédio judicial para silenciar críticas, afirmam divulgadoras
Divulgadoras científicas relatam estratégias de silenciamento e desafios enfrentados na luta contra a desinformação nas redes sociais.
Quem busca informações confiáveis sobre ciência, ou tenta navegar pelo mar de conteúdos desinformativos das redes sociais, provavelmente já se deparou com o trabalho das divulgadoras Ana Bonassa e Laura Marise, do canal Nunca vi 1 cientista, e da bióloga Mariana Krüger.
Segundo Laura, em um cenário no qual "cada vez mais pessoas se informam através de pessoas, e não de veículos de comunicação", o papel dos divulgadores científicos é ocupar a internet para disseminar informações de forma responsável. As três participaram nesta quinta-feira (14) do painel Ciência que Conecta: Como Transformar Conhecimento em Conversa, mediado pela jornalista Chloé Pinheiro, no São Paulo Innovation Week (SPIW).
Além de formação em ciências biológicas, as comunicadoras têm em comum o uso do humor para abordar temas complexos de maneira acessível: Krüger já se vestiu de bactéria em um vídeo viral, enquanto a dupla do Nunca vi 1 cientista publica semanalmente o "Top surtos", quadro dedicado a desmentir conteúdos enganosos que circulam nas redes e impactam o comportamento da população.
Esse trabalho, porém, pode parecer "enxugar gelo", segundo Chloé. Por isso, Ana Bonassa ressalta que, além de desmentir inverdades, elas buscam promover o letramento científico entre os seguidores, para que possam identificar desinformação de forma autônoma.
Mas quem realmente é alcançado pela divulgação científica? Mariana Krüger questiona se seu trabalho chega a públicos como o dos antivacinas. "Falar para convertidos também é importante, pois os municia de informações para que possam dialogar com quem precisa se convencer", explica. "É uma rede que vai se espalhando".
Para Laura, a divulgação científica também tem papel fundamental ao dialogar com quem está "em cima do muro", ou seja, pessoas que têm dúvidas e não sabem onde buscar informações confiáveis.
'Nova roupagem' da desinformação e assédio judicial
As divulgadoras observam que o cenário da desinformação sobre ciência e saúde mudou desde a pandemia de covid-19.
Ana aponta que, durante a crise sanitária, as checagens tiveram grande destaque, mas perderam espaço nas manchetes devido à saturação do público. "As pessoas não querem ver a correção. Querem ver o estardalhaço", avalia.
Laura destaca outra mudança: "A desinformação ficou mais parecida com a informação". Antes, notícias falsas eram mais discrepantes; hoje, elas aparentam maior consistência e são até divulgadas por profissionais de saúde. Muitas vezes, partem de um princípio correto e inserem uma informação enganosa para vender algo. "Tem uma outra roupagem", observa.
Quando perfis com milhões de seguidores e aparente credibilidade propagam desinformação, as divulgadoras consideram necessário expor quem está por trás desses conteúdos. No entanto, essa exposição pode trazer consequências.
"Eu não sabia que podia ser processada por dar uma informação correta na internet", relata Ana. As divulgadoras foram condenadas a pagar indenização por danos morais a um nutricionista que afirmou que o diabetes era causado por vermes, mas a decisão foi revertida pelo STF.
Laura acrescenta que parte do que mantém esses perfis desinformativos ativos é justamente o silenciamento de quem os denuncia. "Fazem assédio judicial para que todos que falam mal deles sejam silenciados", afirma.