Geopolítica: 'estamos em transição, para qual direção, eu não sei', diz Jamil Chade
Xi Jinping disse a Putin que o que estamos vivendo é uma transformação que só acontece na história a cada 100 anos. Jamil Chade trouxe essa frase ao palco durante o painel 'A Reinvenção do Futuro e o Redesenho do Mundo no Século 21" do São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos.
"Eu tenho certeza de que estamos numa transição. Para qual direção, eu não sei", afirma o jornalista. Chade é formado em Direito Internacional e já colaborou para os principais veículos de comunicação do mundo, entre eles o Estadão. Durante o painel, ele deixou uma provocação que instigou a plateia: em meio ao momento histórico de transição de poder geopolítico, o Brasil precisa urgentemente de um projeto de país à altura desse momento histórico.
China, EUA ea nova ordem
Chade conta sobre sua experiência na China e explica que os chineses estão com uma paciência estratégica que os países ocidentais perderam: "Eles estão muito elaborados de que aquele caminho deles é o caminho certo. Eles não se ligam para o que nós pensamos".
Enquanto Pequim avança com pragmatismo, Washington reage com turbulência. Os Estados Unidos, o jornalista relata, optaram por gerar instabilidade deliberada na ordem internacional: "um terremoto geopolítico usado como instrumento de contenção da ascensão chinesa". O resultado é, segundo Chade, um mundo que ninguém ainda sabe nomear.
Pela primeira vez em pelo menos trinta anos, o destino do mundo está sendo redesenhado sem a presença europeia.
Para o jornalista, o encontro nesta quarta-feira, 13, entre Donald Trump e Xi Jinping representa o rabisco inicial do que será essa nova ordem internacional, tendo as duas potências como pilares centrais de um sistema ainda em construção.
O lema chinês para o encontro foi "coexistência de importação", o que, na leitura de Chade, carrega uma mensagem direta para Washington: vocês vão ter que me aturar. “A China está convencida de que o século 21 é o seu momento de tomar a hegemonia, após cerca de três anos de domínio americano”, explicou. Já para Washington, o problema não é o comércio com a China, mas o fato do país asiático impedir a presença estratégica na América Latina, o que é visto como uma ameaça direta à segurança nacional americana.
Brasil
Neste tabuleiro geopolítico, o Brasil ocupa uma posição que o Chade define como estratégica e vulnerável ao mesmo tempo. "O Brasil deu muito certo para o objetivo que ele foi previsto, que era uma exploração." O país foi desenhado historicamente como uma fazenda e essa lógica ainda organiza suas decisões políticas e econômicas, explica Chade. Mas agora ele está no centro do furacão por uma razão muito concreta: a América Latina é o quintal onde os Estados Unidos pretendem conter a expansão da influência chinesa.
O governo norte-americano decidiu que não tem como confrontar diretamente a China. O que ele vai fazer é prioritariamente no seu quintal, na América Latina.
Diante desse cenário, Chade defendeu que o Brasil não pode continuar sem um projeto nacional, não apenas de governo, mas de país, de soberania, de uma escolha consciente sobre o lugar que quer ocupar essa nova ordem que se forma. Essa escolha, para ele, passa por uma compreensão mais radical da democracia. "Democracia não é eleição. Democracia é uma garantia de direitos. É ter direitos a ter direito a ter direitos."
Nesse contexto, Chade também defendeu o jornalismo profissional como um dos principais antídotos contra o autoritarismo. Para ele, a questão central é a desinformação definida como “um ato político deliberado para hackear a democracia”. Ele explica que governos e movimentos autoritários utilizam inteligência artificial e notícias falsas para criar realidades paralelas, gerando uma concorrência desleal com a imprensa tradicional. E o jornalismo, acrescenta, não pode ser conivente com isso sob o pretexto de neutralidade.
O jornalista ainda propôs o que chamou de democracia radical: um investimento sólido em direitos sociais e na erradicação da fome. Ele lembrou que com um ano de gastos globais em armas, a fome no planeta poderia ser erradicada. "Eu gostaria que a gente tivesse a coragem de ter uma democracia radical, colocar um volume obsceno de dinheiro para as questões sociais."
Chade pediu que as pessoas na placa tivessem coragem de assumir as instituições da democracia, de não deixar vazias, de entender que cultura, informação e participação não são acessórios, mas a estrutura do que ainda pode ser salva. "Desesperado, jamais. Mas concordo que é um momento desafiador", ele afirma.
SPIW
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta,15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.