Bloco lava escadaria do Bixiga em São Paulo e afirma que abolição da escravidão foi mentira
Vestidas de branco, com tambores, flores e água de cheiro, as mulheres do bloco afro Ilú Obá de Min realizaram nesta quarta-feira (13) a tradicional lavagem da Escadaria do Bixiga e da Rua Treze de Maio, no centro de São Paulo (SP).
O ato reuniu centenas de pessoas e carrega, há duas décadas, a mensagem repetida neste ano também. A de que a abolição da escravatura, decretada pela Princesa Isabel nesta mesma data em 1888, nunca foi de fato completa.
"Hoje é uma data politicamente emblemática da população preta. Para nós é uma data de denúncia, é uma data de reivindicação", afirmou Cibelle de Paula, uma das organizadoras da lavagem e liderança do bloco.
Professora de educação fundamental com formação em Pedagogia e História e especialização em história da África e do negro no Brasil, Cibelle integra o Ilú há anos. "Ainda temos a consciência de que foi uma falsa abolição. E a gente está o tempo todo pensando historicamente, entrando em reflexão sobre o Brasil, para sempre manter uma perspectiva crítica em relação à população preta."
Cibelle explicou que escreve, anualmente, o manifesto que carrega o cortejo. "Sempre com uma intencionalidade. A continuação da narrativa, atualizar as pautas."
"No dia em que falamos de nossas ancestrais, falamos também da dimensão do bem viver. O que é importante é ocupar o lugar de poder e viver a boa vida que cada pessoa preta precisa ter, além da luta."
Para a organizadora, a lavagem de maio tem um peso particular dentro do calendário do bloco. "A lavagem do 13 de maio tem uma força política muito grande. Depois do processo do Carnaval, o 13 de maio é uma saída emblemática, que tem essa energia de preparação. É o dia de conexão ancestral, o dia que a gente se concentra, retoma, o dia de encontros políticos, o dia que a gente reencontra integrantes que compõem o Carnaval, o cortejo."
"É um dia marcante — político — de demarcar o lugar com as instituições de educação, com crianças negras em formação."
Cibelle destacou ainda o caráter formativo que o Ilú exerce fora das salas de aula: "O papel formativo do Ilú é um papel formativo na rua. É um papel formativo com a coletividade, com o povo, com os corpos, com tambores, com nossa musicalidade. A lavagem é um processo pedagógico afrocentrado."
A escolha do Bixiga
O bairro é conhecido hoje, para alguns, pelas cantinas italianas, mas foi na região que existiu o Quilombo Saracura. "Estamos falando de 13 de Maio numa rua que foi nomeada Treze de Maio. Mas além disso, tem o peso desse território que tem total confluência com a pauta do 13 de Maio. A questão do apagamento e da necessidade de valorização das pautas da cultura negra. O Bixiga é um bairro italiano, é um bairro nordestino, mas também é um bairro negro", explicou, completando que é preciso "expandir nossa permanência pelas ruas, que é o nosso território".
"É importante que se haja uma reflexão da existência do racismo estrutural. Se o racismo está na estrutura da sociedade, as instituições sociais têm uma responsabilidade para o seu combate, porque o racismo que ceifa vidas ainda coloca a população preta em vulnerabilidade de moradia, de saúde, dentre outros segmentos."
Cibelle também citou o dia seguinte à Lei Áurea como símbolo do abandono, dizendo que "a população negra não tinha nenhum direito assegurado", como "o direito da cidadania e ao trabalho". Segundo ela, "essa luta por direito permanece até hoje".
'Uma força muito grande'
A publicitária Adrieli Santos, que viu o Ilú pela primeira vez no Carnaval de 2025, descreveu a experiência sendo muito linda e rica. "Hoje foi muito lindo, zero surpresas, porque sempre é muito lindo ver esse bloco passar. Traz uma coisa muito diferenciada dos outros blocos, até porque são só mulheres e a maioria é mulheres negras, então é uma força muito grande."
"Principalmente para quem tem uma família negra, traz uma conexão e uma reverberância muito forte dentro de todo o contexto aqui de São Paulo, que é uma cidade muito misógina, extremamente racista. Então mulheres ocupando espaços públicos, mulheres pretas ocupando ruas como essa, lotada de gente para ver elas passarem e tocarem, é uma expressão muito grande, muito rica e muito forte, que deixa a gente se sentir muito bonito."
O Ilú Obá de Min foi fundado em novembro de 2004 pelas artistas Beth Beli, Girlei Miranda, Nega Duda e Adriana Aragão, com proposta inédita em São Paulo de um coletivo composto exclusivamente por mulheres.
O nome, em tradução do iorubá com licença poética, significa "mãos femininas que tocam para o rei Xangô". Vinte anos depois, a agremiação cresceu oito vezes e hoje reúne cerca de 400 integrantes entre bateria, corpo de dança e coro de vozes.
A lavagem é realizada desde 2006.
O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, é a data apontada pelo Ilú como celebração de fato, enquanto o 13 de maio segue sendo, para o bloco, um dia de reflexão e denúncia.
Por Sputinik Brasil