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Possível saída da Eslovênia afeta credibilidade e expõe divergências da OTAN, dizem analistas

Publicado em 13/05/2026 às 14:15
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Ouvidos pelo Mundioka, especialistas avaliam que uma eventual saída da Eslovênia causaria mais desgaste político e simbólico à OTAN do que impactos estratégicos concretos, além de expor divergências internas sobre segurança e prioridades geopolíticas dentro da aliança.

Em 14 de abril de 2026, o novo presidente do Parlamento esloveno, Zoran Stevanovic, anunciou a intenção de convocar um referendo sobre a saída do país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), defendendo uma política externa mais "independente e soberana".

Apesar de ser um membro pequeno da aliança, a Eslovênia ocupa uma posição estratégica nos Bálcãs — entre Áustria, no norte, e Croácia, no sul — e sua eventual saída teria forte peso simbólico ao questionar a unidade política que sustenta a capacidade de dissuasão da organização militar liderada pelos Estados Unidos.

"Prometemos ao povo um referendo sobre a saída da OTAN, e vamos realizá-lo", declarou Stevanovic à mídia local. O político afirmou que sua posição não é "pró-Rússia", mas "pró-Eslovênia", argumentando que Liubliana deve tomar decisões de forma soberana, sem subordinação a grandes potências ou instituições externas.

A proposta faz parte de uma agenda mais ampla de reposicionamento estratégico do país. O partido de Stevanovic também defende a retirada da Organização Mundial da Saúde e uma redução da participação eslovena em estruturas multilaterais consideradas excessivamente intervencionistas.

Embora reconheça que uma saída da União Europeia dificilmente teria apoio popular, devido aos benefícios econômicos do bloco, o dirigente colocou a OTAN em um debate delicado já com as tensões entre EUA e UE.

Ao Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, Roberta Melo, doutora e mestre em estudos estratégicos da defesa e da segurança (PPGEST/UFF) e coordenadora do grupo de pesquisa Segurança, Defesa e Estudos Estratégicos (SIDEES) do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), explica que a atitude de Stevanovic parece, ao menos inicialmente, uma tentativa de pressionar politicamente os membros da OTAN em relação aos gastos militares exigidos pela aliança.

Segundo ela, o movimento teria mais um caráter de "instrumentalização" política para forçar uma revisão da "quantidade de gastos em defesa" do que necessariamente um rompimento imediato com o bloco. Ela reforça que essa é uma questão repetida por outros membros da OTAN, mas Melo vê que a decisão da Eslovênia pode ter causado um tipo de desconfiança.

Melo lembra que o referendo ainda não foi confirmado e que a proposta já havia sido levantada anteriormente, em 2025, sem avanço concreto. Para ela, apesar da possibilidade de a consulta ocorrer no futuro, ainda é pouco provável que a população eslovena apoie uma retirada da OTAN, já que a entrada do país na aliança foi aprovada por mais de 60% dos eleitores em referendo anterior, em 2003. A Eslovênia entraria no bloco em 2004, efetivamente.

A especialista avalia que, do ponto de vista militar, a saída da Eslovênia teria impacto limitado para a OTAN, mas poderia produzir efeitos políticos importantes.

Ela observa que uma eventual saída poderia estimular partidos eurocéticos e grupos anti-OTAN em outros países europeus, afetando a credibilidade da organização em um contexto de crescimento de movimentos populistas no continente. "Nenhum membro da OTAN jamais saiu voluntariamente", ressalta Melo.

A pesquisadora destaca que a Eslovênia enfrenta dificuldades estruturais para atender às metas de gastos militares exigidas pela OTAN. Segundo ela, o país está entre os membros da aliança com menor investimento em defesa desde sua entrada no bloco, em 2004, e frequentemente não consegue atingir a meta de 2% do PIB destinada ao setor.

Diante dessa pressão, Liubliana e outros membros da aliança tentam ampliar a definição do que pode ser considerado "gasto em defesa", incluindo investimentos em estruturas de uso dual — com aplicação tanto militar quanto civil.

No entanto, segundo Melo, os Estados Unidos rejeitam essa interpretação mais ampla e insistem em contabilizar apenas despesas exclusivamente militares, aprofundando as tensões entre países de economias maiores e menores dentro da organização.

"É quase impossível para um país como a Eslovênia chegar aos 5% do PIB em defesa. Isso significaria destinar mais de 20% de todo o orçamento nacional para gastos militares."

Para Pedro Martins, doutorando em relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o episódio da Eslovênia representa tanto um caso isolado de saída quanto um desentendimento com outros países da OTAN. Mesmo reconhecendo a decisão como inédita, isso apresenta fissuras estruturais na aliança.

Martins explica que, apesar de ser essencialmente europeia, a OTAN reúne países com percepções muito distintas sobre ameaças e prioridades estratégicas. Ele cita como exemplo as diferenças entre os Países Bálticos — Letônia, Lituânia e Estônia — e países do oeste europeu, como Portugal, que enxergam a questão da segurança regional de formas bastante diferentes. Para o pesquisador, essas divergências influenciam diretamente a maneira como cada governo entende o papel e a atuação da aliança militar.

Abordando a Rússia, o pesquisador pontua que Liubliana não vê Moscou como um risco direto à sua segurança, principalmente pela distância geográfica, pela ausência de disputas geopolíticas e pela falta de um histórico de confrontos com os russos. "Muitos países europeus entendem que esse medo não é uma preocupação deles", resume o pesquisador.

Ele avalia que essa diferença de prioridades cria um dos principais pontos de tensão dentro da OTAN, já que os integrantes da aliança possuem realidades estratégicas muito distintas. Segundo Martins, alguns governos consideram necessário ampliar investimentos militares e fortalecer a postura contra Moscou, enquanto outros acreditam que não precisam se envolver diretamente em uma disputa que consideram distante de seus interesses nacionais.

Na prática, porém, a saída da Eslovênia não iria criar desvantagens mais diretas para a OTAN, estrategicamente falando. Martins explica que o país não possui bases militares decisivas para a aliança, tampouco se destaca pelo volume de investimentos em defesa ou pela contribuição significativa de tropas. Segundo ele, o tamanho reduzido da população eslovena também limita sua capacidade militar dentro da organização.

O pesquisador avalia que o maior impacto estaria no campo político, ao evidenciar um aprofundamento das divergências internas entre os membros da OTAN.


Por Sputinik Brasil