TERRITÓRIO QUILOMBOLA

Um quilombo no coração do agro: Campo Grande é lar de território quilombola tombado pelo IPHAN

Por Sputinik Brasil Publicado em 11/05/2026 às 18:35
O busto de Eva Maria de Jesus na 𝐈𝐠𝐫𝐞𝐣𝐢𝐧𝐡𝐚 𝐝𝐞 𝐒ã𝐨 𝐁𝐞𝐧𝐞𝐝𝐢𝐭𝐨, Campo Grande/MS Reprodução / Instagram / Arquivo Histórico de Campo Grande

Uma ex-escravizada chegou a pé ao sertão do então Mato Grosso em 1905, construiu uma igreja e fundou uma comunidade. Em março de 2026, o Estado brasileiro finalmente reconheceu que ela existiu.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou neste ano a Comunidade Quilombola Tia Eva, em Campo Grande (MS). A iniciativa marca a estreia do novo modelo de reconhecimento patrimonial no país relacionado a esses territórios. O processo durou cerca de dois anos e foi conduzido com participação dos moradores.

Vânia Lúcia Baptista Duarte nasceu, cresceu e nunca saiu da comunidade. Professora de história e pedagogia, tataraneta da matriarca Eva Maria de Jesus e integrante da diretoria da associação de moradores, ela acompanhou de perto cada etapa.

Para ela, o tombamento não começou com uma portaria, mas sim com a luta pela reforma da Igreja de São Benedito. A obra é uma reivindicação muito antiga da nossa comunidade."

Segundo ela, os próprios moradores repararam o edifício por décadas. Em 1998, o município e estado tombaram a igreja como patrimônio histórico, mas restauração só veio depois de anos de ofícios enviados à prefeitura e ao governo estadual.

Em 2019, uma equipe de profissionais foi contemplada com recursos estaduais para desenvolver projeto. Entre eles estava o arquiteto João Henrique dos Santos, que assumiria a superintendência do IPHAN em Mato Grosso do Sul. "Quando ele chega aoIPHAN, já tinha conhecimento sobre a nossa comunidade, já tinha afinidade com a comunidade", lembrou Vânia.

Quando a Portaria 135/2023 do IPHAN instituiu um novo Livro de Tombo, de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, que inscreve especificamente territórios do tipo, a comunidade encaminhou ofício ao órgão federal solicitando que fosse a primeira a passar pelo processo.

Segundo o superintendente do IPHAN em MS, João Henrique dos Santos, o que diferencia esse tombamento dos modelos anteriores é o foco na cultura, não nas construções. "O que importa é a dinâmica do quilombo".

Pelo decreto-lei de 1937, que regula tombamentos tradicionais, o que se preserva é a materialidade — fachadas, estruturas, edificações. No novo modelo referências culturais elencadas pela própria comunidade passam a ser protegidas.

Na prática, isso significa que um morador pode reformar a própria casa sem pedir autorização ao IPHAN, por exemplo. O que o instituto protege são elementos como a Igreja de São Benedito, o barracão comunitário, o campo de futebol — e até o hábito das crianças de soltar pipa no território.

"A gente não está preocupado se a criança vai soltar pipa ali ou acolá, mas que ela permaneça soltando pipa naquele território", explicou Santos.

"Se você falar que vai instalar um posto de saúde no campo de futebol, o IPHAN vai ser contrário. Porque a comunidade identificou no campo de futebol uma referência cultural muito forte", exemplificou, ressaltando que qualquer equipamento público será muito bem vindo, respeitando normas vigentes.

Processo contínuo

O pedido formal foi entregue em maio de 2024, durante as festividades. De lá até março de 2026, o processo envolveu entrevistas, rodas de conversa, mapas afetivos e uma oficina de consulta livre, prévia e informada — instrumento vinculado ao direito internacional de comunidades tradicionais. "A comunidade em nenhum momento foi desrespeitada, anulada ou invisibilizada", disse o superintentende.

"Foi algo intergeracional. Para nós que participamos, que fazemos parte dessa história, é reviver muita coisa", atesta Vânia Duarte, tataraneta de Tia Eva.

Ela foi a Brasília (DF) para apresentar o trabalho realizado e a arquiteta Raíssa Almeida Silva, moradora da comunidade, foi ao Rio de Janeiro (RJ) na reunião de conselho que oficializou o tombamento. "Desde o início até o final, nós estivemos participando."

"Quando a nossa comunidade surge, aqui era área rural da cidade de Campo Grande. Aí vem esse processo de urbanização e obviamente afeta a comunidade, tanto de maneira positiva como de maneira negativa", descreveu.

Durante estudos técnicos, prospecções nas paredes revelaram camadas de tinta em amarelo, creme, rosa e branco. Tecnicamente, qualquer uma dessas cores poderia ter sido adotada. A comunidade, porém, fez um pedido claro: não mudar o azul.

"Quem usa isso aqui todo dia é a comunidade. A comunidade está me dizendo que ela quer a igreja dela azul. Então é azul que ela vai ser", disse João Henrique dos Santos, que é especializado em restauro e tombamento.

Todo ano, na festa de São Benedito, que dura 11 dias, moradores repintam a igreja, na mesma cor. "Para nós é um local sagrado, que todos nós que moramos aqui na comunidade temos vivência com esse espaço", disse Vânia.

Quando ela era criança, o pátio da igreja era o único espaço de concreto da comunidade — e virou parque de recreação para os pequenos. Missas na adolescência aconteciam no pátio aberto porque o salão não comportava os fiéis. O espaço já serviu de cemitério, velório, sala de aula para o Mobral, local de batismos e casamentos. "A nossa igreja sempre foi muito viva e presente no nosso cotidiano."

A estrutura atual, erguida em 1919, é a segunda construída por Tia Eva. A primeira era de madeira. Com ajuda de devotos, familiares e irmandades negras, Eva Maria de Jesus ergueu a versão atual — hoje a mais antiga de Campo Grande. A construção nasceu de uma promessa a São Benedito, feito após uma enfermidade na perna da matriarca. "Ela falou: eu tenho que ir construindo uma igreja para honrar a esse santo que sempre me traz graças."

A construção da igreja por leigos no início do século XX também chamou atenção dos técnicos. O edifício tem duas torres simétricas — característica incomum para uma obra feita sem formação formal em arquitetura ou engenharia. Santos explica que os homens da comunidade trabalhavam na construção civil da cidade e levaram esse conhecimento prático para a obra.

Futuro do quilombo

O reconhecimento de um quilombo no Brasil passa por vários estágios. No primeiro, a comunidade solicita à Fundação Palmares a certificação da comunidade. Depois, cabe ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) titular o território após diversas etapas técnicas.

O Quilombo Tia Eva já é certificada desde 2007 pela Fundação Palmares, mas ainda aguarda o trâmite no INCRA para sua titulação definitiva.

O João Henrique dos Santos, do IPHAN, avalia que o tombamento pode acelerar esse processo. A área delimitada pelo instituto como tombada se sobrepõe à área pleiteada pela comunidade junto ao Incra. "Talvez o tombamento agora auxilie nesse processo de finalização da legitimação da terra."

O superintendente avaliou que, mesmo que o tombamento tenha sido noticiado em veículos internacionais, nacionais e regionais, o governo do estado e prefeitura de Campo Grande não se manifestaram publicamente sobre o reconhecimento.

"Se você parar na rua e perguntar: Quem foi tia Eva? Com alguém que está andando na rua, talvez essa pessoa é morador de Campo Grande há 50 anos, e não vai saber te responder."

Para ele, a questão não é determinar se Tia Eva chegou antes dos migrantes brancos à região. "Mas a gente tem que reconhecer que essa mulher preta no início do século 20 contribuiu para a formação social, cultural, econômica e identitária dessa cidade." Santos afirma que foi a partir da comunidade Tia Eva que diversas outras comunidades quilombolas se formaram em Mato Grosso do Sul.

"Fortalece internamente essa afirmação que nós somos quilombolas", diz Vânia, que menciona que ainda há quem questione a existência de um quilombo na capital de Mato Grosso do Sul. "Existe quilombo em Campo Grande? Existiu na capital do estado? Sim, existiu e existe."

O território, porém, é pequeno para o tamanho da família, segundo ela. Moradores vivem em condições inadequadas, de aluguel ou em áreas cedidas fora da comunidade. A comunidade aguarda a construção de um conjunto habitacional quilombola e a titulação definitiva do Incra.

"Moradia é dignidade. E para quilombolas, a gente tem que ficar junto, a gente não tem que ficar separado, porque é a afirmação", disse Vânia. "É terra, é território, é a nossa luta para titulação desse território."