Pouco estudada, névoa da Amazônia tem papel ambiental, indica pesquisa
Fenômeno que ocorre na altura da copa das árvores revela dinâmica intrincada entre microrganismos e a umidade que a floresta produz
Oponto a 43 metros de altura de uma plataforma metálica no meio da Floresta Amazônica, na Estação Científica de Uatumã, tem sido o local de trabalho recorrente da pesquisadora curitibana Bruna Sebben nos últimos sete anos. No Observatório de Torre Alta (ATTO), aonde se chega do aeroporto de Manaus por um trajeto de seis horas que envolve rodovia, barco e estrada de terra, pesquisadores do Brasil e da Alemanha buscam entender a relação entre floresta e atmosfera.
Para Bruna Sebben, estar na Amazônia significa desvendar a dinâmica e as funções da neblina amazônica. Talvez pouca gente saiba, mas a névoa é um fenômeno frequente da floresta. Ocorre entre as 3 e as 7 horas da manhã, coincidindo com o nascer do dia. Gera uma massa densa que envolve a vegetação e muda a paisagem na copa das árvores, entre 30 e 150 metros de altura.
“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve a cientista vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A neblina é resultado da perda de calor para a atmosfera à noite e de como esse resfriamento impacta a umidade (o vapor d’água) que a floresta produz o tempo todo. Além de uma característica da Amazônia, a neblina é um dos processos do ciclo da água que fazem da floresta a “bomba d’água” do planeta. Mas, ao contrário dos rios voadores — as correntes de umidade que circulam pela Terra impulsionados pela floresta —, a neblina é menos estudada porque sua presença é local
Resultado da pesquisa de mestrado de Bruna Sebben, um estudo publicado com outros 35 autores no periódico Communications Earth & Environment traz elucidações sobre o papel ambiental da neblina amazônica. A pesquisa foi liderada pelo professor Ricardo Godoi, orientador da pesquisadora no mestrado que também coordena o Laboratório de Análise e Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR.
As análises indicaram que a neblina sustenta a vida microscópica da floresta, dispersando nutrientes e servindo de habitat para microrganismos, como fungos e bactérias. Também é uma facilitadora dos ciclos biogeoquímicos, ou seja, dos ciclos naturais que “reciclam” os elementos químicos necessários à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.
A vida que mora na neblina amazônica
Neblinas são formadas basicamente por água condensada, o vapor de água que acabou de passar para o estado líquido. A pesquisa constatou que a neblina amazônica consegue carregar pela atmosfera partículas químicas, mas também microrganismos e até fragmentos de seres vivos macroscópicos (visíveis a olho nu).
Assim, a análise revelou que a neblina é um habitat temporário para microrganismos ativos. As amostras apresentaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água. Ou seja, a névoa é o ambiente de comunidades vivas de bactérias e de fungos que têm funções ambientais importantes.
“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro. De forma geral, os fungos e as bactérias observados são essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a reposição de nutrientes ao solo”, conta a pesquisadora.
No caso das bactérias, foram encontradas oito espécies vidas. Entre as mais frequentes estão a Sphingomonas paucimobilis e a Pseudomonas putida, que têm função no ciclo do fósforo, ajudando na fertilidade do solo. Houve ainda registros de bactérias que agem na decomposição de compostos orgânicos (Serratia marcescens e Ralstonia pickettii).
Em situações específicas, como em ambientes hospitalares ou frequentados por pessoas com problemas de imunidade, algumas dessas espécies são capazes de provocar infecções no ser humano. Na floresta, porém, têm funções ecológicas reconhecidas pela ciência e participam do equilíbrio de locais sem interferência humana, caso do ponto de vegetação contínua onde foram colhidas as amostras.
Nevoeiro age como uma ponte de água entre a atmosfera e o solo
O diferencial da pesquisa está em apresentar o nevoeiro como um transportador desses microrganismos vivos, ultrapassando a imagem dele como fenômeno meteorológico.
Segundo os cientistas, a neblina funciona como uma ponte biológica que facilita o transporte vertical (do ar para o solo) de bactérias e fungos. Assim, esses micro-organismos que costumam ficar suspensos no ar, acima da copa das árvores, acabam depositados vivos sobre as superfícies das plantas e do solo.
“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica [as reações químicas de troca com o ambiente que mantêm um organismo vivo], porque as protege da radiação solar e da desidratação”, avalia a pesquisadora.
“Quando o nevoeiro goteja nas folhas e no solo esses microrganismos são depositados ainda metabolicamente ativos, facilitando seu papel ecológico e populando outras regiões”.
Descendo à altura das árvores, esses micro-organismos passam a compor as colônias que vivem sobre a superfície das plantas, outro universo particular chamado de filosfera. Essa relação com bactérias e fungos costuma proteger as plantas contra doenças, secas e radiação solar, além de beneficiar o seu crescimento pela produção de hormônios vegetais.
Ainda na graduação em Engenharia Ambiental da UFPR, Bruna Sebben examinou como esporos (células de reprodução de plantas, fungos e bactérias) e pólens de plantas da Amazônia se relacionam com a neblina. A conclusão foi de que, nesse caso, o nevoeiro funciona como ambiente de preservação dessas partículas, mais do que de transporte.
“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior, isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”.
Colaboração mútua: o mundo microscópico depende do nevoeiro e ajuda a provocar o fenômeno
Outra indicação do estudo é que os micróbios e demais partículas da neblina amazônica ajudam que o próprio fenômeno exista.
Isso porque essas partes sólidas agem de duas formas para que a água do vapor da floresta se condense. Primeiro, pela sua capacidade de absorver água, o que atrai mais umidade para a região onde ocorre a neblina.
A outra forma é pela carga elétrica. As paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga superficial negativa. Essa carga negativa é atraída pelas gotas de água, facilitando a incorporação e a estabilidade dos seres vivos dentro da neblina.
Essas características mostram a facilitação que gera a dependência mútua entre a comunidade de micróbios e a neblina.
No artigo, cientistas descrevem essa relação como colaborativa. Os microrganismos ajudam a criar a gota d’água ao servirem de base para a condensação. Em troca, ganham um microhabitat protegido contra a radiação solar, poluentes e desidratação, o que garante sua sobrevivência durante o transporte pela floresta.
Dessa forma, os microrganismos não são apenas passageiros passivos, porque agem na dinâmica das nuvens baixas na Amazônia.
Assim sendo, queimadas e desmatamento, dois problemas da Floresta Amazônica, afetam a neblina tanto aumentando as temperaturas quanto impedindo que a comunidade de micróbios permaneça vida e ativa.
Ainda que tenha havido queda nos alertas dos últimos três anos, segundo a medição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre janeiro e março de 2026 a floresta perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento.
No mesmo período, a Amazônia figura no sistema do Inpe como o bioma com mais área queimada (quase 9,4 mil quilômetros quadrados).
A neblina ocorre em áreas contínuas de floresta, o que significa que sua presença é um indicativo dos locais intocados e dos que mostram capacidade de se adaptar aos problemas.
“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, acredita Bruna Sebben.
Um parêntese: como se coletam amostras de neblina?
Para coletar a neblina na Amazônia, os pesquisadores utilizaram a versão pequena de um dispositivo científico que colhe amostras de gotículas de nuvens e névoa. O aparelho coleta gotículas por meio de fileiras de fios de Teflon, material que não altera a composição das gotas e permite que elas gotas se acumulem quando o vento da névoa passa em alta velocidade.
“As gotinhas de nevoeiro impactam [nos fios] e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica Bruna Sebben.
Para a pesquisa, o amostrador foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma no lado nordeste da torre principal do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), que possui 325 metros no total. Localizado no Amazonas, o observatório é uma parceria entre Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck, da Alemanha.
As mostras de névoa foram coletadas três vezes entre 2022 e 2023, de 13 nevoeiros diferentes.
Depois de recolhida, a água de névoa coletada precisa ser acondicionada em garrafas esterilizadas, para impedir contaminação. Essa parte da pesquisa ficou a cargo do LabAir da UFPR, em Curitiba, especializado em estudos ambientais relacionados ao ar
Também foram realizadas na UFPR, no Laboratory of Cancer Drug Resistance, as análises de citometria de fluxo. Essa técnica laboratorial usa laser e corantes fluorescentes para quantificar a concentração total de células e avaliar se os microrganismos estão vivos e viáveis (o equivalente a “saudáveis” para seres unicelulares).
Por fim, as partículas encontradas na névoa foram incubadas sob temperaturas controladas. Assim fungos e bactérias cresceram e as espécies puderam ser isoladas e identificadas. O principal método para isso, a espectrometria de massa, que analisa a estrutura química dos microrganismos, ocorreu no Laboratório de Micologia no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.
Como resultado, o estudo, financiado por agências públicas, entre elas o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), quantificou que dezenas de milhares de seres vivos habitam cada gota de névoa.