ENDIVIDAMENTO

Brasil no vermelho: número de recuperações judiciais bate recorde e encosta em 2,5 mil

Setor do agro e serviços são os que concentram maior volume de pedidos

Por Assessoria Publicado em 11/05/2026 às 15:19
Victor Lages Assessoria

As recuperações judiciais nunca estiveram tão em alta no Brasil como atualmente. Dados do Serasa Experian e do indicador da datatech mostram que vigoram 977 processos de recuperação judicial iniciados no ano de 2025, o maior volume desde 2016. O movimento ocorre em um cenário de crédito mais restrito, custo financeiro elevado e aumento da inadimplência.

Com isso, o Brasil chegou a um patamar de 2.466 empresas em recuperação judicial, recorde para a série histórica. O volume representa crescimento de 13% ante o ano anterior. Sob a ótica setorial, agro e serviços concentram o maior volume de pedidos. Na contramão, globalmente os pedidos de falência caíram 19% no acumulado do ano de 2025.

Segundo o advogado especialista em recuperação judicial, Victor Lages, esses números vêm sendo batidos sucessivamente desde 2024. “Eles mostram o cenário econômico que a gente vive hoje, com uma Selic em 14,75%, o que encarece a dívida para o empresário que precisa tomar crédito. No entanto, também há o ponto de eles mostram um amadurecimento do instituto da recuperação judicial, que possuía um histórico de que os empresários somente recorriam a esse pedido quando já estavam em estado falimentar, ou seja, quando não havia mais viabilidade econômica naquela empresa”, ressalta.

O aumento das recuperações judiciais está ligado ao ambiente de crédito. Com juros em patamar elevado e maior rigor na concessão, empresas com maior nível de endividamento enfrentam dificuldades para rolar dívidas ou captar novos recursos.

Nesse contexto, a recuperação judicial tem sido usada como ferramenta para reorganizar passivos e preservar operações. Mesmo com oscilações mensais, o indicador mostra que 2025 ficou acima da tendência histórica tanto em número de processos quanto em empresas envolvidas.

“Todo negócio vai ter a alta temporada e a baixa temporada. Só que muitas vezes o empresário precisa de crédito e com o endurecimento dessa concessão fica mais difícil para solver essas obrigações de curto prazo. É preciso que o empresário faça um acompanhamento do caixa, para garantir que haja recursos financeiros para as obrigações de vencimento de curto prazo de até 180 dias”, orienta o advogado.

Enquanto as recuperações judiciais avançam, os pedidos de falência seguem em queda. Em 2025, foram registrados 698 CNPJs com pedidos desse tipo, uma redução de 19% em relação ao ano anterior.

Victor Lages também salienta que esse também é um meio de reerguimento empresarial válido, mesmo enfrentando forte desconfiança popular. “Se o patrimônio líquido daquela empresa faz frente às dívidas, a falência é totalmente viável. Existe uma visão do falido quase como uma desonra social, mas em economias grandes é muito comum o empresário falir algumas vezes até acertar. Se ele entende que aquele negócio não tem mais condição de tocar, a falência deve ser uma opção”, pontua.

Além das medidas de governança e gestão de caixa, que garantem a viabilidade do negócio, quando a situação aperta, antes de recorrer à falência, o empresário possui algumas opções. Entre elas está a mediação cautelar, que pode ser entendida como uma pré-recuperação judicial.

“Ela serve para crises pontuais e todas as dívidas ficam suspensas por 60 dias. Após a adoção, se inicia um procedimento de mediação junto às instituições envolvidas. Se não der certo, as ações que tinham em curso e os encargos das dívidas voltam a correr, mas o empresário pode pedir a recuperação judicial, onde todas as dívidas existentes podem ter suspensão de juros e correção monetária durante 180 dias, que podem ser prorrogados, além da suspensão das ações e execuções em andamento”, explica o especialista.

Ao adotar uma recuperação judicial, o empresário deve apresentar um plano com uma proposta de pagamento, onde credores definirão se aprovam ou não o contrato, que pode ser negociado e modificado. Essa solução pode ser uma alternativa frente à falência para os negócios que podem receber ajustes e adotar novos mecanismos para se reinventar.