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Governo e dissidentes disputam controle de rios na Colômbia, aponta pesquisador (VÍDEOS)

Publicado em 11/05/2026 às 10:25
© AP Photo / Fernando Vergara

As bacias hidrográficas colombianas se tornaram um dos principais cenários contemporâneos de conflito em "águas marrons", expressão utilizada para operações em rios e áreas fluviais. Atualmente, esses corredores marítimos passaram a ser disputados internamente entre o próprio Estado e grupos armados, como o Exército de Libertação Nacional (ELN).

O controle de rotas de fluxos fluviais se tornou uma alternativa para os grupos dissidentes dentro do país na conquista de territórios, a fim de expandir e estruturar seus negócios ilícitos longe da presença estatal, conforme explica Matheus Moreira, pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Como a Colômbia tem muitos rios navegáveis, tanto o Estado quanto grupos dissidentes os controlam em diferentes partes, e isso muda a cada momento. Embora o governo reconquiste partes dos rios, os dissidentes seguem avançando para estabelecer seu comércio no Caribe e no Pacífico e para outros países da América Latina, como Peru, Brasil e Venezuela", disse.

Atualmente, segundo Moreira, os rios grandes e principais estão sob controle governamental. No entanto, na parte mais interiorana, essa área acaba sendo mais acessível aos dissidentes, que aproveitam essa dificuldade logística por parte das autoridades para ocupar e se expandir na região.

"Nos rios com maior navegação de comércio, o governo colombiano tem maior controle. Já os rios com afluentes que levam para o interior são mais dominados por grupos dissidentes pela dificuldade de entrada nesses rios em comunidades pequenas e isoladas. Então, o governo precisa investir para exercer sua soberania nesses rios", comenta.

Esse problema que ocorre em território colombiano não é algo recente, como enfatiza Eduardo Gomes, doutor em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista na Colômbia, à reportagem da Sputnik. As características da geografia também são um ponto que dificulta que a presença de forças do Estado possa se importar em toda a extensão territorial do país.

"Esse debate relacionado à questão fluvial na Colômbia é histórico. Durante muitos períodos, conflitos e disputas ocorreram por territórios que eram de importância agrícola. Isso ocorre porque o país, marcado por montanhas e uma geografia muito específica, é propício para rotas de fuga e para a dominação em determinados contextos", disserta.

Batalhas em águas marrons e novos meios de Defesa

Moreira também contextualiza o termo "águas marrons" (que se refere a rios) e como esse confronto, além de acirrar a disputa entre o Estado e grupos paramilitares, também vem desenvolvendo, por parte da Marinha colombiana, uma expertise em conflitos nesse tipo de cenário, que se difere do âmbito de mar aberto, a zona de "águas azuis".

"Hoje em dia, há uma batalha nas águas marrons da Colômbia. Esse conflito é tão importante, tão sério, que a Marinha da Colômbia se especializou nesse tipo de combate e exporta tanta doutrina quanto à tecnologia, para que outros países tenham capacidade de exercer seu controle em rios", destaca.

Nessa disputa, o governo colombiano não tem apenas um opositor, mas vários, devido à fragmentação de grupos desde a época das FARC, que passaram a ser conhecidos como dissidentes de forma geral. No entanto, o principal é o Exército de Libertação Nacional (ELN), segundo o especialista que publicou o seu estudo sobre o tema no Boletim Geocorrente do NAC/EGN.

"O grupo dissidente principal é o ELN. Porém, as FARC em si não existem mais. Surgiram muitos grupos dissidentes, e muitos deles, sem nome, a partir disso. Então, por isso 'grupos dissidentes' é um termo que abrange mais esses grupos, que continuam agindo e atuando no território colombiano", elucida.

Gomes, que também é professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), reforça que o cenário de disputa entre o poder estatal e os dissidentes está fragmentado há décadas e que a situação vem se intensificando ao longo do tempo.

"Na atualidade, o controle das rotas fluviais tem sido fragmentado e varia a cada região. Em áreas mais próximas de grandes centros, por exemplo, há bases militares e o Estado consegue até manter um controle estatal, mas em regiões periféricas, especialmente na parte da Amazônia colombiana e do Pacífico colombiano, há uma disputa com esses grupos desde os anos 70 e 80", pontua.

Conflito fluvial colombiano pode escalar na região

Moreira ressalta que, como a Colômbia faz fronteira com países como Brasil, Equador, Peru, Venezuela e Panamá, há riscos de que o conflito interno atual entre Bogotá e a dissidência armada possa impactar os países do entorno.

“Essa situação pode transbordar para outros países da região, e isso demonstra a necessidade de se ter uma cooperação hemisférica e continental, para que os países consigam lidar com essa ameaça. Esses grupos podem migrar [para outros territórios] para manter suas economias ilícitas em outros países, como no Peru e no Brasil, porque têm essa capacidade de atuar em rios”, destaca.

Enquanto isso, Gomes analisa que as tecnologias usadas no conflito corrente nos rios colombianos geram conhecimento a ponto de esse armamento escoar para diversas partes do globo, saindo da escala regional.

“A tecnologia que o Estado colombiano tem para combater também chega a grupos paramilitares, guerrilheiros e narcotraficantes, que antes usavam emboscadas para conhecerem o território e agora usam drones de monitoramento e ataque. Isso aproxima o conflito colombiano de outros em escala macro e micro.

A disputa por controle de fluxos, vista no cenário internacional, também está presente na política interna de cada país, como no caso colombiano, em que dissidentes armados ocupam territórios e usam os rios para se fortalecerem, enquanto as Forças Armadas precisam adaptar seus esforços para o combate em ambiente amazônico e fluvial. Contudo, o que acontece localmente também pode reverberar em diversas camadas para outros países.


Por Sputinik Brasil