Governo e dissidentes disputam controle de rios na Colômbia, aponta pesquisador (VÍDEOS)
As bacias hidrográficas colombianas se tornaram um dos principais cenários contemporâneos de conflito em "águas marrons", expressão utilizada para operações em rios e áreas fluviais. Atualmente, esses corredores marítimos passaram a ser disputados internamente entre o próprio Estado e grupos armados, como o Exército de Libertação Nacional (ELN).
O controle de rotas de fluxos fluviais se tornou uma alternativa para os grupos dissidentes dentro do país na conquista de territórios, a fim de expandir e estruturar seus negócios ilícitos longe da presença estatal, conforme explica Matheus Moreira, pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Como a Colômbia tem muitos rios navegáveis, tanto o Estado quanto grupos dissidentes os controlam em diferentes partes, e isso muda a cada momento. Embora o governo reconquiste partes dos rios, os dissidentes seguem avançando para estabelecer seu comércio no Caribe e no Pacífico e para outros países da América Latina, como Peru, Brasil e Venezuela", disse.
Atualmente, segundo Moreira, os rios grandes e principais estão sob controle governamental. No entanto, na parte mais interiorana, essa área acaba sendo mais acessível aos dissidentes, que aproveitam essa dificuldade logística por parte das autoridades para ocupar e se expandir na região.
"Nos rios com maior navegação de comércio, o governo colombiano tem maior controle. Já os rios com afluentes que levam para o interior são mais dominados por grupos dissidentes pela dificuldade de entrada nesses rios em comunidades pequenas e isoladas. Então, o governo precisa investir para exercer sua soberania nesses rios", comenta.
Esse problema que ocorre em território colombiano não é algo recente, como enfatiza Eduardo Gomes, doutor em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista na Colômbia, à reportagem da Sputnik. As características da geografia também são um ponto que dificulta que a presença de forças do Estado possa se importar em toda a extensão territorial do país.
"Esse debate relacionado à questão fluvial na Colômbia é histórico. Durante muitos períodos, conflitos e disputas ocorreram por territórios que eram de importância agrícola. Isso ocorre porque o país, marcado por montanhas e uma geografia muito específica, é propício para rotas de fuga e para a dominação em determinados contextos", disserta.
Batalhas em águas marrons e novos meios de Defesa
Moreira também contextualiza o termo "águas marrons" (que se refere a rios) e como esse confronto, além de acirrar a disputa entre o Estado e grupos paramilitares, também vem desenvolvendo, por parte da Marinha colombiana, uma expertise em conflitos nesse tipo de cenário, que se difere do âmbito de mar aberto, a zona de "águas azuis".
"Hoje em dia, há uma batalha nas águas marrons da Colômbia. Esse conflito é tão importante, tão sério, que a Marinha da Colômbia se especializou nesse tipo de combate e exporta tanta doutrina quanto à tecnologia, para que outros países tenham capacidade de exercer seu controle em rios", destaca.
Nessa disputa, o governo colombiano não tem apenas um opositor, mas vários, devido à fragmentação de grupos desde a época das FARC, que passaram a ser conhecidos como dissidentes de forma geral. No entanto, o principal é o Exército de Libertação Nacional (ELN), segundo o especialista que publicou o seu estudo sobre o tema no Boletim Geocorrente do NAC/EGN.
"O grupo dissidente principal é o ELN. Porém, as FARC em si não existem mais. Surgiram muitos grupos dissidentes, e muitos deles, sem nome, a partir disso. Então, por isso 'grupos dissidentes' é um termo que abrange mais esses grupos, que continuam agindo e atuando no território colombiano", elucida.
Gomes, que também é professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), reforça que o cenário de disputa entre o poder estatal e os dissidentes está fragmentado há décadas e que a situação vem se intensificando ao longo do tempo.
"Na atualidade, o controle das rotas fluviais tem sido fragmentado e varia a cada região. Em áreas mais próximas de grandes centros, por exemplo, há bases militares e o Estado consegue até manter um controle estatal, mas em regiões periféricas, especialmente na parte da Amazônia colombiana e do Pacífico colombiano, há uma disputa com esses grupos desde os anos 70 e 80", pontua.
Conflito fluvial colombiano pode escalar na região
Moreira ressalta que, como a Colômbia faz fronteira com países como Brasil, Equador, Peru, Venezuela e Panamá, há riscos de que o conflito interno atual entre Bogotá e a dissidência armada possa impactar os países do entorno.
“Essa situação pode transbordar para outros países da região, e isso demonstra a necessidade de se ter uma cooperação hemisférica e continental, para que os países consigam lidar com essa ameaça. Esses grupos podem migrar [para outros territórios] para manter suas economias ilícitas em outros países, como no Peru e no Brasil, porque têm essa capacidade de atuar em rios”, destaca.
Enquanto isso, Gomes analisa que as tecnologias usadas no conflito corrente nos rios colombianos geram conhecimento a ponto de esse armamento escoar para diversas partes do globo, saindo da escala regional.
“A tecnologia que o Estado colombiano tem para combater também chega a grupos paramilitares, guerrilheiros e narcotraficantes, que antes usavam emboscadas para conhecerem o território e agora usam drones de monitoramento e ataque. Isso aproxima o conflito colombiano de outros em escala macro e micro.
A disputa por controle de fluxos, vista no cenário internacional, também está presente na política interna de cada país, como no caso colombiano, em que dissidentes armados ocupam territórios e usam os rios para se fortalecerem, enquanto as Forças Armadas precisam adaptar seus esforços para o combate em ambiente amazônico e fluvial. Contudo, o que acontece localmente também pode reverberar em diversas camadas para outros países.
Por Sputinik Brasil