Relatório aponta que JK pode ter sido assassinado pela ditadura militar
Um novo relatório elaborado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek pode ter sido morto pela ditadura militar brasileira, contrariando a versão oficial que atribui sua morte a um acidente automobilístico ocorrido em 1976. O parecer, no entanto, ainda precisa ser aprovado pelos integrantes da comissão para se tornar posição oficial do colegiado.
A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pela TV Globo nesta sexta-feira (8). O documento, produzido pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na comissão, reúne mais de cinco mil páginas e está sendo analisado pelos demais conselheiros antes de ser submetido à votação.
Juscelino Kubitschek morreu em agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, durante viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro. Presidente do Brasil entre 1956 e 1961, JK ficou marcado pela construção de Brasília e pelo plano de desenvolvimento econômico conhecido como “50 anos em 5”. Após deixar a Presidência, foi eleito senador, mas teve os direitos políticos cassados após o golpe militar de 1964.
O relatório chegou a ser apresentado no último dia 1º de abril, durante a 7ª Reunião Ordinária da comissão. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a votação foi adiada devido ao grande volume de anexos e à necessidade de comunicar previamente os familiares do ex-presidente sobre o conteúdo das conclusões.
“Ressalta-se que o relatório em questão segue em análise pelos membros da Comissão e ainda não foi submetido à votação”, informou o ministério em nota oficial.
A presidente do Memorial JK e neta do ex-presidente, Anna Christina Kubitschek, afirmou ter recebido o comunicado da comissão nesta sexta-feira e disse considerar a reabertura do debate um passo importante para a história do país.
“A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil”, declarou.
Ela também relembrou episódios anteriores à morte do ex-presidente e afirmou que o caso não pode ser analisado fora do contexto político da época. “Uma semana antes da tragédia, estava ao lado de minha mãe Márcia, no Rio de Janeiro, quando recebemos a notícia da morte de meu avô em um acidente automobilístico, o que, incrivelmente, ocorreria uma semana depois”, afirmou.
Criada em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos atua no reconhecimento de vítimas da repressão política entre 1961 e 1988. O órgão também busca localizar restos mortais e emitir pareceres sobre pedidos apresentados por familiares de vítimas da ditadura militar.
Ao longo dos anos, a morte de JK se tornou alvo de controvérsias. A versão oficial sustenta que o Chevrolet Opala em que estavam Juscelino e o motorista Geraldo Ribeiro perdeu o controle após ser atingido por um ônibus durante uma ultrapassagem, invadindo a pista contrária e colidindo com um caminhão, em Resende (RJ). Ambos morreram no local.
Entretanto, diferentes comissões da verdade estaduais e municipais passaram a defender a hipótese de atentado político, relacionando o episódio ao contexto da ditadura militar e à Operação Condor, aliança entre regimes autoritários da América do Sul voltada à perseguição de opositores políticos.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade concluiu que não havia participação dos militares na morte de JK. Já em fevereiro de 2025, o governo federal decidiu reabrir o caso com base em um laudo produzido em 2019 pelo engenheiro e perito Sergio Ejzenberg, contratado pelo Ministério Público Federal.
O estudo contestou perícias anteriores e descartou a hipótese de colisão entre o Opala e um ônibus antes do impacto contra uma carreta. O parecer técnico foi utilizado como uma das bases para o novo relatório produzido pela historiadora Maria Cecília Adão.
Considerado um dos presidentes mais influentes da história republicana brasileira, Juscelino Kubitschek marcou seu governo pelo processo de modernização econômica e pela transferência da capital federal para Brasília. Após o golpe militar de 1964, teve os direitos políticos cassados pelo regime.