Análise: IA na borda dinamiza a defesa, mas Brasil ainda carece de sistemas próprios soberanos
À Sputnik Brasil, especialistas apontam que a computação de borda pode ser um novo pilar para operações ágeis e autônomas do Brasil, desde que desenvolvidas através de tecnologias autóctones.
A inteligência artificial (IA) se tornou uma aliada das Forças Armadas em todo mundo. Agora, a integração da IA com computação de borda ao setor de defesa promete levar essa tendência a um novo patamar. Essa tecnologia permite que dados sejam processados localmente em dispositivos físicos no ambiente operacional, reduzindo a dependência de nuvens centralizadas.
Um exemplo dessa tendência é o IABox, apresentado pela Daten na edição deste ano da LAAD Defence & Security, a maior feira de segurança e defesa da América Latina. A plataforma foi concebida para executar decisões analíticas diretamente no ponto da operação.
À Sputnik Brasil, a doutora em relações internacionais e analista de desenvolvimento tecnológico, Marianna Braghini Deus Deu, afirma que o principal objetivo da integração da IA na defesa é acelerar a execução do processo decisório. E a introdução da computação de borda associada ao processamento de dados caminha nessa direção.
No meio militar, o processo decisório é composto por quatro etapas: observar, orientar, decidir e agir.
Nesse sentido, argumenta, a mentalidade militar vem propagando a necessidade de automatizar as etapas desse processo e acelerar esse ciclo. "Parece-me que a busca é por um observar e agir quase instantâneo. E isso só pode ser feito com tecnologias 'de tempo real'."
Esta tendência, de remover a intervenção humana do ciclo decisório do que é classificado como alvo, vem crescendo desde a Guerra Fria, mas foi ao longo dos anos 2000 que os Estados Unidos criaram novas formas de automatizar a designação de alvos.
"Os chamados signature strikes sequer precisavam da identificação pessoal de um alvo; aquela pessoa poderia ser executada apenas mediante o comportamento captado, como passar por um lugar associado ao terrorismo ou encontrar-se com pessoas que também eram alvos."
No caso da computação de borda, essa tecnologia reduz a dependência exclusiva de grandes estruturas de processamento de dados, descentralizando o processo e até mesmo eliminando a necessidade de conectividade contínua.
Ou seja, o uso da computação de borda é ideal para áreas remotas ou com limitações de comunicação. É o que a Daten vem publicizando com seu IABox, aponta.
Para a especialista, a ideia de incorporar formulações algorítmicas nas decisões e desenvolver equipamentos que acelerem o processamento de dados ajuda a construir uma percepção de força militar moderna e preparada "para o futuro", legitimando o setor militar-industrial na disputa por maior fatias do orçamento da União.
No entanto, embora a computação de borda poderia ser um novo pilar tecnológico do Brasil, sem infraestrutura nacional, indústria própria e integração estratégica, ela pode aprofundar dependências do que gerar autonomia.
"É comum ouvirmos sobre 'transferência de tecnologia' em projetos da indústria militar realizados em parceria com outros países. Mas essa ideia é o grande canto da sereia. Influencia escolhas, gera uma validação automática e cria expectativas. Mas elas quase nunca se concretizam. O Brasil continua sem acesso a tecnologias sensíveis e de maior valor agregado, especialmente na área de computação."
Em sua visão, se um país insiste, como o Brasil faz, em importar uma doutrina estratégica e equipamentos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ao mesmo tempo em que não desenvolve um projeto industrial nacional capaz de internalizar esse desenvolvimento tecnológico em seu parque produtivo, é pouco provável que a introdução de uma inovação de ponta, como a computação de borda, produza autonomia estratégica.
"Pelo contrário, é mais provável que isso reforce o ciclo de dependência em relação a outras potências militares. A computação de borda pode trazer ganhos táticos importantes, a integração com IA pode ampliar em especial capacidades logísticas e operacionais de uma força, permitindo respostas mais rápidas e otimizando a coordenação entre unidades em campo, mas transformar isso em autonomia estratégica exige esforços em outras frentes políticas."
Para o analista militar Pedro Paulo Rezende, a questão da conectividade é menos importante do que se pensa, porque já existem sistemas com inteligência artificial que trabalham de maneira autônoma, ou seja, não precisam de uma rede de apoio para funcionar.
"Eu estive numa fábrica e vi um sistema em que um drone coordenava seis munições vagantes, que são drones de ataque, aqueles famosos drones suicidas. Então, ele examinava o campo de batalha, via os riscos, podia identificar se era amigo ou inimigo. E a partir daí esse drone, que aliás era praticamente igual aos outros de ataque, só mudava alguns detalhes na cauda, determinava se deveria ou não atacar. Tudo de maneira autônoma."
Rezende avalia que o Brasil ainda "engatinha" no uso da inteligência artificial e munições vagantes, mísseis e outros equipamentos, incluindo o processo decisório, que ele aponta ser "totalmente analógico".
"Agora, é bom ressaltar que a IA não é uma panaceia. Você pode conseguir interferir na IA. No campo de batalha, você pode interferir na IA. Isso é menos viável quando a IA é usada nas ações de comando e tomada de decisões", conclui o analista.