Para navegar nas stablecoins, precisamos separar função monetária e tecnológica, diz Lagarde
Presidente do BCE destaca que benefícios das stablecoins dependem de funções distintas e alerta para riscos à estabilidade financeira.
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou nesta sexta-feira (8) que os benefícios atribuídos às stablecoins são fundamentados em duas funções distintas: a monetária e a tecnológica. Segundo ela, essas funções têm sido sistematicamente confundidas no debate atual, e é fundamental separá-las para compreender corretamente o tema.
"Uma vez que desembaraçamos essas duas funções, o caso de promoção de stablecoins designadas em euros parece muito mais fraco do que aparente, e surge uma pergunta ainda mais fundamental: Nós realmente precisamos de stablecoins para obter os benefícios que se alegam que elas oferecem? Ou estamos confundindo o instrumento com o resultado, a árvore com a floresta?" , questionou Lagarde.
Em sua análise, o presidente do BCE destacou que a função monetária das stablecoins pode representar riscos à estabilidade financeira e à transmissão da política monetária, avaliando que essas contrapartidas superam eventuais ganhos de curto prazo fornecidos pela ferramenta.
Sobre a função tecnológica, Lagarde apontou dois problemas estruturais no modelo de liquidação das stablecoins atualmente: fragilidade e fragmentação.
“Mas a resposta não está em rejeitar a tecnologia, nem em desestimular stablecoins por completo, nem em sufocar a inovação .
As declarações foram feitas durante palestra no I Fórum Econômico do Banco da Espanha para a América Latina, realizado na cidade de Roda de Bará, na Espanha.
Ao iniciar sua apresentação, Lagarde informou ao público que faria um discurso técnico para desmistificar as diferentes funções das stablecoins e explicou por que não considera indispensável seguir "na direção que alguns preconizam" ou, em suas palavras, "competir com as stablecoins que já estão disponíveis".
Ela observou que, atualmente, as stablecoins são majoritariamente denominadas em dólares americanos e que a maior parte do mercado é controlada por dois emissores sediados em El Salvador e nos Estados Unidos.
Lagarde lembrou que, à medida que a adoção da tecnologia se expandiu e seus vínculos com o sistema financeiro real se aprofundaram, os riscos à estabilidade financeira tornaram-se mais evidentes — especialmente em partes da América Latina e da África. No entanto, ponderou que, actualmente, o tema também faz parte do debate em economias avançadas, como a Europa.
Ela destacou que a Europa foi pioneira ao considerar esse movimento e regulamentá-lo, mas enfatizou que os Estados Unidos avançaram ainda mais, implementando a Lei GENIUS, que adota uma abordagem mais ampla do que apenas proteção ao consumidor e estabilidade financeira. "A administração dos EUA descreve explicitamente como uma ferramenta para, e eu cito, 'garantir a continuidade da dominância global do dólar americano', para consolidar a demanda por títulos do Tesouro dos EUA" , afirmou.
Com isso, segundo Lagarde, os termos do debate sobre stablecoins mudaram. "Não se trata mais de saber se as stablecoins deveriam existir, mas se as jurisdições podem se dar ao luxo de não tê-las. O argumento crescente, como vemos, é que a Europa deve responder promovendo stablecoins denominadas em euros. Caso contrário, a Europa enfrentaria um futuro de dolarização digital e perda de soberania monetária" , analisou.
Por fim, Lagarde reiterou que, na sua avaliação, a conclusão de que a Europa precisa avançar em stablecoins para manter a competitividade está baseada na confusão entre as funções tecnológicas e a moeda dessas ferramentas.