Dados expostos e silêncio da Meta: jornalista tem imagem usada por criminosos e não recebe resposta
Um jornalista paulistano teve seus dados pessoais expostos e sua imagem usada por criminosos em redes sociais. O nome completo, CPF, RG, filiação familiar e até a foto da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de Lucas da Silva Ferreira Veloso circularam em perfis do Instagram associando-o falsamente a um golpe aplicado em Duque de Caxias (RJ).
A plataforma, de responsabilidade da Meta (empresa que tem atividades proibidas na Rússia por serem consideradas extremistas), não respondeu a nenhum dos pedidos de suporte feitos pela vítima.
O caso começou quando Lucas recebeu uma ligação de duas pessoas dizendo representar uma loja de celulares do Rio de Janeiro, detalhando com precisão dados pessoais sensíveis do jornalista e alegavam que ele teria participado de golpe de R$ 8 mil envolvendo dois celulares. A proposta era que ele pagasse esse valor via Pix para encerrar o caso. Lucas entendeu imediatamente que se tratava de uma tentativa de fraude, mas decidiu manter contato com os golpistas para rastrear a origem das informações.
"Eles têm meus dados realmente, querem me aplicar um golpe, então vou entender de onde eles tiraram, porque aí depois eu consigo fazer um boletim de ocorrência e formalizo isso", explicou o jornalista.
Em paralelo à ligação, amigos de Lucas começaram a encaminhar mensagens alertando sobre stories circulando no Instagram nos quais sua foto aparecia, com a acusação de que ele seria responsável pelos golpes. As publicações pediam que seguidores compartilhassem o conteúdo para páginas policiais e de fofoca da região.
"Quando eu vejo essa minha foto, o caso ganha uma dimensão para mim muito gigante, porque é minha imagem, é minha foto mesmo, são meus dados", disse Lucas. Diante disso, ele registrou boletins de ocorrência em São Paulo e no Rio de Janeiro e tentou acionar a Meta para remover os conteúdos. Não obteve resposta. Partiu então para as próprias redes sociais, gravando um vídeo pedindo que amigos e seguidores denunciassem os perfis envolvidos.
Os stories dos suspeitos chegaram a sair do ar por algumas horas, mas os perfis voltaram em seguida, sem qualquer comunicado oficial da plataforma.
Qual a responsabilidade das big techs?
O professor adjunto e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Claudio Miceli de Farias avalia que o silêncio das plataformas diante de casos como o de Lucas, em muitos casos, ocorre também porque certas empresas sequer sabem como resolver determinados problemas.
Miceli diz que plataformas muitas vezes não criam canais diretos de atendimento justamente para não gerar um passivo ainda maior de demandas não resolvidas.
O pesquisador contextualiza o problema dentro de uma lógica mais ampla de coleta e uso de dados pessoais pelas big techs. Ele explica que empresas como a Meta acumulam, por meio de produtos como WhatsApp e Instagram, um volume imenso de informações comportamentais dos usuários, que são comercializadas para terceiros, como plataformas de e-commerce e empresas de publicidade, para a construção de perfis de consumo.
Para ele, o problema não está apenas na existência dessa coleta, mas na ausência de transparência que permita aos cidadãos compreenderem a extensão do que cedem ao usar essas ferramentas. "Essa literacia digital precisa existir para que as pessoas entendam os termos e tenham uma polidez digital."
Sobre o arcabouço jurídico brasileiro, Miceli reconhece que o país dispõe de legislação e bons juristas, mas diz que tecnologia e a lei têm velocidades diferentes. "A computação avança mais rápido do que o direito consegue acompanhar."
Empresas sediadas nos Estados Unidos, na China ou na Índia, por exemplo, operam sob regras distintas, o que torna a proteção do cidadão brasileiro uma equação complexa.
Para o pesquisador, o Brasil precisa construir alternativas digitais soberanas, com infraestrutura nacional de comunicação e troca de informações que não dependa exclusivamente de plataformas estrangeiras. Ele citou exemplos positivos da capacidade tecnológica brasileira como o sistema Pix, a rede de vacinação digitalizada, o imposto de renda eletrônico e plataformas de videoconferência do governo federal.
"A gente tem que dar o exemplo, mesmo que seja desconfortável. Isso tem que ser política prioritária para que a gente não fique na dependência tecnológica de outros países."
O que significa o termo big tech?
O termo pode variar a depender de quem aborda o assunto, mas, em geral, big techs são empresas com nível de influência alto no mundo, dominando mercados globais de internet, software, hardware e inteligência artificial, incluindo monopólios.
Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Software (ABES), concorda que o Brasil acumulou um atraso significativo na formulação de políticas públicas voltadas ao setor de tecnologia, o que permite que tais empresas tenham um terreno fértil no país.
Ele questiona a ausência de estratégias concretas para atrair talentos e consolidar uma cadeia produtiva tecnológica nacional competitiva, para além da fuga de cérebros. Ele comentou que o presidente americano, Donald Trump, adotou medidas restritivas de vistos para imigrantes de tecnologia, especialmente indianos, encarecendo o acesso desses profissionais ao mercado americano. Na avaliação de Gutierrez, o Brasil poderia ter aproveitado essa janela de oportunidade para atrair esse capital humano.
"Quais são as políticas públicas que o Brasil fez nos últimos 10 anos para atrair, por exemplo, os melhores trabalhadores de programação da América Latina?", questionou. "Ele não fez nada. O Trump, com aquela medida nos EUA, que tornou caro o visto para imigrantes, sobretudo de tecnologia, para dificultar sobretudo indianos de ir para lá. Por que a gente não fez alguma medida para trazer esses caras para cá?"
Para Lucas, vítima do caso de exposição, "essas big techs têm ocupado espaço nas nossas vidas", mas ele questiona: "Para onde vão esses dados? Qual a responsabilidade que elas têm com os nossos dados?".
O jornalista também não consegue dissociar o episódio que tem passado de uma dimensão racial, enquanto pessoa preta. Ele afirma que no Brasil a associação de uma pessoa racializada a atividades criminosas encontra terreno propício num contexto de racismo estrutural e crise de segurança pública, o que é potencializado pelo âmbito digital. "Quando esse episódio aconteceu comigo, vem à tona todo esse histórico racista que o Brasil carrega."
A reportagem tentou contato com a Meta, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Por Sputinik Brasil