GEOPOLÍTICA DIGITAL

'Guerra de 5ª geração atua para provocar dúvida e medo na sociedade', diz analista

Especialista explica como estratégias informacionais e tecnologia avançada moldam percepções e ameaçam a confiança social.

Por Sputnik Brasil Publicado em 07/05/2026 às 12:43
Analista explica como a guerra de quinta geração usa tecnologia para influenciar percepções sociais. © Foto / Pixabay / geralt

A disputa geopolítica contemporânea ultrapassa o campo militar tradicional e se intensifica no plano subjetivo, onde o alvo principal é a percepção pública e a confiança nas instituições nacionais. O conceito de Guerra de Quinta Geração (5GW, na sigla em inglês) descreveu as nuances desse específico.

Num ambiente cada vez mais tecnológico, que transformou os hábitos de consumo de informação, a operação 5GW para gerar dúvidas e medo, especialmente na esfera política. É o que explica João Cláudio Pitillo, mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto Geoestratégia Estudos, em entrevista à Sputnik Brasil.

“O objetivo é implantar na sociedade, ou em um grupo escolhido, dúvida e medo. Por exemplo, uma dúvida impede que a população tenha claro na defesa de uma liderança ou no apoio a uma causa específica, enquanto o medo paralisa o indivíduo, que passa a evitar engajamento político e até militar”, observa Pitillo.

Segundo o especialista, além de opiniões de influência, o 5GW atua na forma como as pessoas processam a realidade, divulgando conteúdos informacionais de diversas fontes e dificultando o acesso ao contraditório.

"O 5GW é ​​uma guerra de múltiplas camadas, ocorrendo em diversas áreas da sociedade. Nesse cenário multifacetado, circulam informações em escala industrial e, muitas vezes, os usuários se restringem a determinados aplicativos, sem perceber que podem estar sendo transitórios a posturas comuns aos interesses do próprio país", afirma.

Big techs e IA potencializam os impactos do 5GW

Pitillo destaca que o avanço da conectividade, da inteligência artificial (IA) e dos algoritmos em redes sociais contribui para a formação das chamadas "bolhas", nas quais o usuário recebe continuamente conteúdos tendenciosos, de forma rápida e variada.

"Com a chegada da internet 5G, o avanço das big techs e das redes sociais, há a produção de vídeos curtos que ajudam a formar essas 'bolhas' de maneira ainda mais rápida. A IA amplia esse alcance. A 5GW pode atuar assim na sociedade, mas também modular sua ação para setores estratégicos, como o militar", ressalta.

Esse mecanismo intensifica a influência sem que o usuário perceba, saturando o senso crítico e levando à acessibilidade de distorções como se fossem verdades, segundo o pesquisador.

“O volume de informações chega de forma que o usuário não percebe o processo de saturação, nem nota a redução de sua capacidade crítica. O mais relevante é que esse grupo de informações conquista a confiança e passa a ser referência diária de formação e informação”, pontua.

Venezuela e Cuba na 'mira' da guerra informacional

Nesse contexto, a desinformação e os algoritmos tornam-se armas geopolíticas capazes de desestabilizar nações sem o uso direto da violência, transformando a mente humana em campo de batalha para incitar a população contra o próprio governo.

"Hoje, a sociedade cubana é bombardeada por informações que a fazem perder a esperança de melhoria e acreditar que os EUA podem levar o país a qualquer momento. Na Venezuela, o sequestro do presidente Maduro foi um golpe midiático para lançar dúvidas sobre o governo venezuelano", conclui Pitillo.

Em um cenário internacional marcado por conflitos armados em diversas regiões, a disputa por corações e mentes por meio de narrativas geopolíticas validadas no senso comum se consolida como arma estratégica, sobretudo por parte de países com capacidade de dominar o fluxo de dados e algoritmos.