'Mais pragmática que apaixonada': a mudança no 'relacionamento especial' do Reino Unido e EUA
Visita de Charles III aos EUA atua como gesto de contenção diplomática em meio a atritos entre Donald Trump e Keir Starmer, enquanto especialistas apontam uma relação menos ideológica e mais pragmática entre os aliados históricos.
O Reino Unido é um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos, que compartilham história, cultura e interesses estratégicos desde as Guerras Mundiais. Contudo, essa relação está tensionada após o recente conflito no Oriente Médio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já fez várias críticas a aliados da OTAN, inclusive o Reino Unido, por não participarem da guerra contra o Irã.
Sobretudo, o republicano direcionou sua atenção ao primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, dizendo que reveria a relação tarifária entre os dois países. Starmer, por outro lado, disse que não cederia. "Não é do nosso interesse nacional entrar nessa guerra e não o faremos", disse o primeiro-ministro.
Como forma de suavizar as tensões, o rei Charles III esteve nos Estados Unidos em uma visita oficial para cumprir uma agenda que seria do primeiro-ministro. Sabendo do fascínio que o republicano tem pela família real britânica, essa troca poderia ter sido um gesto de soft power para que a Casa Branca não descarte Londres como uma aliada.
"É uma certa elegância por parte da diplomacia britânica", diz José Renato Ferraz da Silveira, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil. "O papel de rei Charles III é, de fato, um amortecimento diplomático em relação à questão muito tensa entre Donald Trump e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer."
Ferraz da Silveira avalia que a movimentação em torno de Charles III busca melhorar a sintonia entre Estados Unidos e Reino Unido em um momento de desalinhamento político entre Trump e Starmer. Enquanto o republicano adota um estilo mais personalista, o premiê britânico mantém um tom institucional e mais próximo das tradições diplomáticas europeias.
Nesse contexto, as posições de Starmer — pró-Europa e defensor do fortalecimento da OTAN — tendem a gerar atritos com Washington, que, sob Trump, tem adotado uma postura mais confrontacional com aliados históricos, como evidenciado em episódios envolvendo a Groenlândia e o Irã.
O professor insere essa tensão em uma perspectiva histórica mais ampla. Ele relembra a Crise de Suez, quando o Reino Unido enfrentou forte constrangimento internacional, apesar de seu alinhamento ideológico com os Estados Unidos em plena Guerra Fria. Forças britânicas, francesas e israelenses invadiram o Egito, em 1956, por conta da nacionalização do canal de Suez, mas tiveram que se retirar sob forte pressão dos EUA e da União Soviética.
Segundo o analista, por décadas a convergência foi a regra: Margaret Thatcher teve uma relação estreita com Ronald Reagan, assim como Tony Blair com George W. Bush.
Agora, porém, Starmer representaria uma inflexão. "Talvez seja o primeiro líder britânico menos alinhado automaticamente aos Estados Unidos", argumenta. Esse movimento ocorre em um cenário que ele define como uma "era de instabilidade e fragmentação", em que a tradicional "special relationship" – ou relação especial do inglês, como Winston Churchill descrevia essa relação entre Londres e Washington – deixa de ser baseada em afinidade ideológica e passa a assumir contornos mais pragmáticos.
Apesar do desalinhamento político, a relação bilateral permanece sustentada por pilares estruturais. Entre eles, destacam-se a aliança militar no âmbito da OTAN, a cooperação em inteligência por meio do acordo Five Eyes e a interdependência econômica entre a City de Londres e Wall Street. Ambos os países também foram arquitetos centrais da ordem liberal internacional no pós-1945.
Ainda assim, o contraste é crescente: enquanto o Reino Unido de Starmer busca reaproximação com a Europa, os Estados Unidos sob Trump sinalizam afastamento de aliados tradicionais.
Esse cenário levanta questionamentos sobre os rumos futuros da parceria — inclusive a possibilidade de o Reino Unido explorar novas aproximações estratégicas, em um sistema internacional cada vez mais polarizado entre grandes potências.
"É uma equação muito mais pragmática do que apaixonada", resume o especialista, ao destacar que a presença de Charles III atua como elemento moderador dentro de uma relação que segue estruturalmente sólida, mas politicamente tensionada.
"Nós estamos testemunhando um episódio bastante emblemático em termos dessa relação, novamente aqui falando pela terceira vez, essa 'special relationship'."
Para o professor, há também uma dimensão doméstica nesse movimento: uma tentativa de reforçar a imagem da monarquia britânica — e, em especial, de Charles III — diante da opinião pública. Segundo ele, o soberano ainda não possui o mesmo capital simbólico de Elizabeth II, o que gera a necessidade de fortalecer sua credibilidade e legitimidade como chefe de Estado.
Nesse sentido, iniciativas públicas e gestos diplomáticos também funcionam como instrumentos de reposicionamento da figura do rei, inclusive destacando pautas às quais ele é historicamente associado, como a defesa do meio ambiente e da economia verde. Ainda assim, o especialista pondera que, embora exista uma corrente crítica à monarquia, essa resistência já foi mais intensa no passado.
Hoje, afirma, o tema não ocupa o centro das preocupações da sociedade britânica. Questões econômicas, desafios de segurança e tensões internacionais — como os conflitos envolvendo grandes potências — tendem a mobilizar muito mais a atenção da população do que o debate sobre a manutenção da família real como instituição.
"Talvez seja um pouco cedo para a gente falar que seja uma reinvenção [da monarquia]", diz Marcos Vinícius Figueiredo, professor de relações internacionais do IBMEC. Figueiredo pontua que a monarquia britânica costuma ser discreta em assuntos de relações internacionais, mas que a ocasião chamou para tomar uma ação "um pouco mais protagonista".
Ao reagir à declaração recorrente de Trump de que, sem os Estados Unidos, a Europa "falaria alemão", Charles respondeu que, sem o Reino Unido, os americanos "falariam francês". Para Figueiredo, a fala combina bom humor e cálculo diplomático: "é uma cutucada inteligente, sutil, na medida certa".
O gesto, segundo ele, cumpre uma dupla função. Por um lado, contrapõe o tom considerado deselegante da afirmação de Trump; por outro, relembra — de forma histórica e simbólica — que a construção da ordem internacional sempre foi resultado de esforços compartilhados. "É uma maneira elegante de dizer que nenhuma potência atua sozinha e que o peso dos aliados não pode ser ignorado", afirma.
"Nós sabemos que na Segunda Guerra Mundial, no Pacífico, os Estados Unidos rivalizaram muito com o Japão, enquanto, na Europa, depois ali da batalha de Stalingrado, os soviéticos é que vieram derrubando os nazistas e depois os americanos entraram [...] Em termos de vitória no teatro de guerra da Europa continental, no teatro de guerra ocidental, os Estados Unidos não são assim lá tão importantes como ele está colocando."
"O rei, de forma elegante, sinaliza por uma coisa muito importante, que não se esqueça que você também precisa dos demais países nesse sistema internacional de Estados soberanos, no meio dessa anarquia."
Outro ponto sensível de desentendimento envolve as Ilhas Malvinas. Recentemente, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos apoiariam a Argentina na tentativa de recuperar o território — posição que contraria diretamente os interesses do Reino Unido e adiciona mais tensão à relação com Londres.
Para Figueiredo, porém, essa sinalização deve ser interpretada com cautela e dentro do estilo mais amplo da política externa trumpista. Segundo ele, não se trata de uma mudança estrutural no alinhamento dos Estados Unidos, mas de uma aproximação circunstancial com o governo de Javier Milei. "Não é uma aliança com a Argentina, é uma aliança com o Milei", resume.
Essa distinção é central, já comum do caráter personalista da atuação internacional de Trump. Em vez de se apoiar em diretrizes institucionais consolidadas, suas posições tendem a variar conforme afinidades políticas e ideológicas com líderes específicos.
Isso significa que, em caso de mudança de governo em Buenos Aires, o eventual apoio norte-americano à reivindicação argentina sobre as Malvinas poderia rapidamente perder força ou até desaparecer.
Além disso, Figueiredo avalia que esse tipo de declaração tem um componente mais retórico do que prático. A questão das Malvinas é historicamente sensível e envolve não apenas soberania territorial, mas também compromissos militares e diplomáticos do Reino Unido — o que tornaria qualquer apoio efetivo dos Estados Unidos à Argentina altamente complexo e custoso no plano internacional.
Nesse sentido, a fala de Trump funciona mais como um gesto político, alinhado ao seu estilo direto e provocativo, do que como um indicativo concreto de reconfiguração geopolítica.
Assim, a crescente imprevisibilidade das relações internacionais — marcada por lideranças personalistas e por uma ordem global mais fragmentada — faz com que temas historicamente estabilizados, como a posição dos Estados Unidos em disputas territoriais envolvendo aliados tradicionais, passem a ser tratados de forma mais volátil, ampliando as incertezas tanto para parceiros quanto para adversários.
"As potências ascendem e declinam. Foi assim com o Império Romano, foi assim com a Pax Britânica e é bastante esperado que aconteça com os Estados Unidos. A questão é de que forma que isso aconteçará."