Prédio invadido na Oscar Freire: Empresário quer retrofit e proprietários, venda; disputa segue
A reintegração de posse quarta-feira, 6, do Edifício Peixoto Gomide, prédio com risco de desabamento no cruzamento das ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, no Jardim Paulistano, zona oeste de São Paulo, ainda pode estar longe da solução definitiva.
O local é alvo de disputa judicial há duas décadas entre uma construtora que comprou a maioria dos apartamentos e dois proprietários que resistiram à venda.
O imbróglio fez com que o edifício fosse invadido por pessoas em situação de vulnerabilidade em 2006. O espaço passou por desocupações. Mas foi novamente invadido em 2016. Desde aquele ano, esteve ocupado por cerca de 30 famílias, que deixaram o imóvel na terça-feira, 5. Nesta quarta, a propriedade foi devolvida aos seus proprietários.
A empresa Santa Alice Hotelaria e Construções LTDA. é dona de sete dos nove apartamentos do empreendimento de quatro andares. O empresário Álvaro Moreira esteve à frente da construtora na compra do prédio. Hoje, aos 87 anos, diz que deixou a carga de executivo para seus filhos e o apartamento para um neto de 7 anos. Mas segue acompanhando o caso de perto. Nesta quarta, foi o único da família presente na reintegração.
Segundo ele, o plano é fazer um retrofit no edifício art déco para o imóvel voltar a ser um condomínio. Mas descartei planos de comprar os outros dois apartamentos, que resistiram à venda no passado. Também refuta a venda para outra empreiteira, como defesa desses proprietários, ou a demolição do prédio, como deseja a associação de moradores AME Jardins.
"A empresa não tem ideia de comprar nada. Pode até comprar, mas tem que ser no limite de valores atuais - não os supervalores. Eles podem ficar (com os apartamentos deles). Vamos reformar os nossos. Eles, se quiserem, reformam os deles. Mas não vamos nem demolir nem vender", afirmou. Apesar disso, ele afirma que a decisão caberá aos filhos.
O Estadão acompanhou a reintegração de posse nesta quarta. Representantes de um dos apartamentos pretendiam negociar a venda da unidade para Santa Alice. Também estou avaliando como alternativa a venda de todos os novos apartamentos para uma outra construtora – segundo eles, já houve ofertas. Questionados, eles não quiseram se pronunciar.
A reportagem não conseguiu contato com a segunda nobreza, nem com sua defesa.
Enquanto as negociações seguem travadas, a lacração do imóvel, com concreto e tijolos nas portas e janelas, já começou a ser feita pela Santa Alice para impedir novas invasões.
Moradores do entorno reclamam de ratos, baratos e de manipulação
A advogada Beatriz Antesana é vizinha do Edifício Peixoto Gomide há seis décadas. Teve amigos que moraram no condomínio antes da venda para Santa Alice. Ela lamenta a situação em que o local se encontra. "Isso é art déco. Era um prédio maravilhoso, muito bonito, em bom estado. Agora, está todo detonado, cheio de baratas, cheio de ratos. Está vendendo o rato ali?", diz, apontando para a janela do imóvel. "É uma infestação tremenda. Sofreremos há mais de dez anos com isso."
Diretor da AME Jardins e sócio da administradora de prédios BBZ, responsável por mais de 300 condomínios no bairro, Roberto Piernikarz afirma que a associação já pediu a demolição do imóvel para evitar novas ocupações. "Tinha risco iminente de explosão, com botijão de gás, ponto de energia elétrica conectado com cano de água e risco de queda. A estrutura está totalmente abalada. É um risco para quem passa na rua e para quem mora aqui dentro. Ia virar um novo edifício Joelma."
A imobiliária Fernanda Chaves mora há 18 anos como corretora a uma quadra do imóvel. Ela define a reintegração como "um colapso", embora ainda tenha recebido novas invasões ao local. "Os apartamentos do entorno desvalorizaram um absurdo. Ninguém quer morar aqui do lado."