Avanço feminino no mercado cripto traz mudanças no perfil de investimento
A participação feminina no mercado de criptomoedas vem avançando de forma consistente e começa a alterar o perfil de investimento em um segmento historicamente marcado pela volatilidade e por decisões de curto prazo. Levantamento da Bitpanda indica que 50% das mulheres que investem em ativos digitais priorizam ganhos de longo prazo, enquanto 49% mantêm suas posições por até cinco anos e outras 39% pretendem permanecer por períodos ainda mais extensos.
No Brasil, esse movimento também ganha escala. Dados da consultoria Forex Suggest mostram que, até 2023, 6,63% das mulheres brasileiras investiam em criptomoedas, o que colocava o país na oitava posição global em participação feminina nesse mercado. O avanço acompanha a expansão mais ampla da presença de mulheres no sistema financeiro, refletida no crescimento da base de investidoras na B3 ao longo da última década.
Dentro desse cenário, um recorte específico começa a ganhar relevância: o de mulheres que são mães e que passam a incorporar criptomoedas a uma estratégia mais ampla de planejamento financeiro familiar. A mudança não se dá apenas em volume, mas principalmente na forma como risco e retorno são avaliados, com maior peso para previsibilidade, diversificação e construção de patrimônio no longo prazo.
Com cerca de oito anos de atuação no mercado de criptoativos, Denise Cinelli, COO da NotBank, observa que a maternidade tem papel direto nessa transformação. Segundo ela, há uma mudança estrutural na forma como essas investidoras enxergam dinheiro e risco. “Não se trata apenas de buscar rentabilidade, mas de construir segurança, estabilidade e oportunidades no longo prazo. Essa visão mais ampla faz com que muitas mães sejam menos impulsivas e mais criteriosas”, afirma.
Na prática, esse comportamento se traduz em decisões mais estruturadas e menos expostas a movimentos de curto prazo. Investidoras com esse perfil tendem a adotar estratégias como aportes periódicos, diversificação entre classes de ativos e definição prévia de limites de alocação em criptomoedas, reduzindo a dependência de oscilações do mercado. “É um perfil que costuma trazer mais disciplina e constância, evitando decisões baseadas em emoção”, completa.
Esse padrão contrasta com o perfil historicamente predominante no mercado cripto, marcado por maior tolerância ao risco e busca por ganhos rápidos. Embora a volatilidade continue sendo uma característica central desses ativos, a entrada de novos perfis de investidores contribui para uma dinâmica mais equilibrada, com crescimento gradual de estratégias orientadas ao longo prazo.
Na avaliação de Denise, essa mudança fica ainda mais evidente quando se observa como mães lidam com cenários de instabilidade. “Mesmo diante da volatilidade, elas tendem a equilibrar melhor risco e planejamento. Em vez de expor uma parte relevante do patrimônio, tratam cripto como uma parcela da carteira, o que permite capturar oportunidades sem comprometer a estabilidade financeira da família”, diz.
Outro fator relevante é o papel que muitas mulheres já exercem na organização financeira doméstica. Ao assumir, total ou parcialmente, a gestão do orçamento familiar, cresce a tendência de buscar mais informação, comparar alternativas e questionar modelos tradicionais de investimento. Esse processo favorece a aproximação com ativos digitais não apenas como tendência, mas como ferramenta de diversificação e ampliação de acesso ao mercado financeiro.
Mesmo nos casos em que não são as responsáveis finais pelas decisões de investimento, a influência feminina tende a elevar o nível de análise, incorporando variáveis como impacto no planejamento familiar, consistência das estratégias e segurança das operações. Como destaca Denise, esse movimento também reflete uma mudança mais ampla na relação com o dinheiro, que passa a ser visto como ferramenta de construção de futuro, e não apenas de gestão do presente.
Esse perfil ajuda a explicar por que, entre mães, o interesse por criptomoedas está menos associado à especulação e mais à construção de patrimônio. “O objetivo principal não é entrar rápido ou buscar ganhos imediatos, mas construir algo consistente e duradouro. A autonomia financeira aparece como consequência desse processo”, afirma a executiva.
A própria trajetória de Denise ajuda a ilustrar essa transformação. O primeiro contato com o mercado cripto foi marcado por desconfiança, ainda associada à percepção de risco elevado. Com o avanço do conhecimento e a compreensão do funcionamento dos ativos, a entrada aconteceu de forma gradual, baseada em entendimento e não em oportunidade imediata.
Após a maternidade, essa abordagem se consolidou. O foco deixou de ser o curto prazo e passou a ser a construção de uma base financeira mais sólida, com definição de metas e aportes regulares. Parte dos ganhos acumulados ao longo do tempo foi utilizada para viabilizar a entrada de um imóvel, evidenciando como esses ativos podem integrar uma estratégia mais ampla de construção patrimonial.
Apesar do avanço, a entrada de novos investidores no mercado cripto ainda é acompanhada por dúvidas, especialmente em relação à segurança. Por isso, especialistas recomendam que o primeiro passo seja o entendimento do funcionamento dos ativos, dos riscos envolvidos e das práticas de proteção antes da alocação de recursos.
A tendência, no entanto, é de continuidade desse movimento. A combinação entre maior participação feminina, amadurecimento do ecossistema de criptoativos e busca por estratégias de longo prazo deve contribuir para a consolidação de um perfil de investidor mais diverso e orientado a planejamento, com impactos graduais sobre a dinâmica do setor.
Essa transformação também começa a se refletir no ambiente corporativo. Para Denise, a experiência da maternidade influencia diretamente a forma como mulheres ocupam posições de liderança no setor financeiro, trazendo decisões mais estruturadas e uma visão mais sustentável de crescimento. “Há uma tendência de maior equilíbrio na gestão de risco e uma visão mais orientada ao longo prazo, o que impacta não só investimentos, mas a forma de conduzir equipes e estratégias”, finaliza a executiva.