ASTRONOMIA

Maior satélite de Netuno seria responsável por inclinação de quase 30 graus do planeta, sugere pesquisador da Unesp

Por Assessoria Publicado em 06/05/2026 às 14:16
Wikimedia Commmons

A partir de simulações, novo estudo propõe que a interação com Tritão pode ter moldado a inclinação do eixo de rotação de Netuno. Ao entrar em uma espécie de alinhamento gravitacional com o gigante gasoso, o satélite teria estabilizado sua órbita e, gradualmente, reorientado o planeta até a configuração atual

As estações do ano, tão importantes para estabelecer o ritmo e as estratégias de sobrevivência dos seres que habitam a Terra, são um legado de nosso passado cósmico. O que as torna possíveis é a inclinação de cerca de 23,5° do eixo de rotação da Terra em relação ao plano da órbita em torno do Sol. Esta inclinação, explica a pesquisa astronômica, deveu-se a uma série de eventos transcorridos durante o processo de formação de nosso planeta. Alguns teóricos acreditam que grandes colisões com corpos que andavam perambulando pelo Sistema Solar em seu período inicial contribuíram para alterar a posição original do eixo, que deveria ser de 90°.

Sabemos que outros “vizinhos” planetários também apresentam diferentes graus de inclinação e, em decorrência disso, podem exibir alterações sazonais climáticas. Cabe aos astrônomos tentar explicar quais podem ter sido as causas para que eles também tenham pendido para o lado. Um novo estudo, conduzido por um pesquisador da Unesp, tem como foco Netuno, que apresenta uma inclinação ainda maior do que a da Terra, alcançando 28°.

A teoria mais aceita para explicar o surgimento do Sistema Solar sustenta que ele remonta a uma nuvem primordial de poeira e gás que se contraiu devido à ação da força gravitacional, há 4,6 bilhões de anos. Dessa nuvem formou-se uma protoestrela que depois se tornaria o Sol que conhecemos. Uma parte do material da nuvem, no entanto, não foi aproveitada na formação da estrela e se manteve pairando ao seu redor. Este material também passou por um processo de aglutinação que durou dezenas de milhões de anos (talvez mais) e que resultou no surgimento dos planetas que conhecemos, que compõem nosso sistema.

Por conta desse processo de formação, é esperado que os eixos de rotação dos planetas permaneçam próximos de uma posição “vertical” em relação ao plano da órbita que eles descrevem ao redor do Sol. Esse é o caso de Mercúrio, por exemplo. Mas a maioria apresenta alguma inclinação.

Já foram formuladas hipóteses para explicar a inclinação de 28° de Netuno, mas o debate ainda segue em aberto. Em um artigo recente, Rodney Gomes, docente da Faculdade de Engenharia e Ciências da Unesp, câmpus de Guaratinguetá, propôs uma nova solução: no lugar de colisões violentas durante a época de formação, o planeta gigante pode ter experimentado um deslocamento gradual que envolveu seu principal satélite, Tritão.

Intitulado Neptune’s obliquity was likely engendered by Triton’s tidal evolution, o trabalho foi publicado na revista científica Icarus e, a partir de simulações, o pesquisador defende que a presença de Tritão pode ter criado uma influência gravitacional em Netuno que, no decorrer de milhões de anos, levou à inclinação que vemos hoje.

“A interação gravitacional do satélite faz com que o eixo de rotação mude. Mas, para que isso aconteça, o satélite deve estar no local certo, na hora certa”, conta Gomes. “E Tritão é um satélite muito particular porque acredita-se que foi capturado”, afirma.

Este termo significa que a história de Tritão difere da de muitas outras luas do Sistema Solar, que surgiram mais ou menos ao mesmo tempo que os planetas e a partir da mesma nuvem primordial. A hipótese mais aceita para sua origem estabelece que ele teria surgido em uma região mais distante do Sistema Solar, conhecida como cinturão de Kuiper. Ao passar próximo de Netuno, foi capturado pela força gravitacional do planeta, permanecendo em sua órbita.

Segundo o docente, essa origem diferente reforça a ideia de que o satélite pode ter influenciado a inclinação de Netuno porque, ao ser capturado, Tritão passou a orbitar o planeta de uma forma que se mostraria inicialmente bastante irregular. Com o tempo, a órbita foi mudando aos poucos, e esse processo acabou interferindo na orientação do eixo de rotação do planeta, contribuindo para sua inclinação.

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.