Tensão entre EUA e Alemanha é sintoma do declínio da hegemonia unipolar, diz analista
Redução de tropas americanas sinaliza crise na OTAN e acelera busca europeia por autonomia estratégica, avalia especialista chinês.
A decisão do presidente dos Estados Unidos de reduzir o contingente militar na Alemanha representa uma retaliação diante de críticas e disputas históricas sobre gastos com defesa, avalia o analista militar chinês Deng Qiyuan, em entrevista à Sputnik.
Para o especialista, a medida evidencia uma crise interna na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e pressiona a Europa a fortalecer sua própria defesa.
"À primeira vista, essa redução de tropas parece uma resposta imediata às críticas públicas do chanceler alemão Friedrich Merz à política dos EUA em relação ao Irã. No entanto, trata-se do ápice de uma longa disputa entre Estados Unidos e Europa", afirma Deng Qiyuan.
Segundo ele, a ameaça norte-americana de diminuir o efetivo militar na Alemanha é "um sintoma do declínio da hegemonia unipolar" e reforça a tendência global de avanço da multipolaridade.
"A época em que os Estados Unidos buscavam controlar aliados e ditar os rumos mundiais pela força militar está ficando para trás", acrescenta o especialista.
Deng Qiyuan ressalta que o conflito entre os dois aliados da OTAN resulta de uma série de questões ligadas à mudança do papel global dos EUA.
Primeiramente, as divisões internas na OTAN se aprofundaram, ultrapassando disputas econômicas ou de defesa e revelando divergências estratégicas fundamentais.
O analista destaca que os EUA exigem alinhamento irrestrito de seus aliados a planos militares e diplomáticos, enquanto Alemanha e outros países europeus buscam maior autonomia estratégica e resistem a seguir Washington cegamente, o que fragiliza a confiança dentro da aliança.
Além disso, a pressão dos EUA não resultou em concessões alemãs, mas impulsionou Berlim a ampliar gastos militares e aprimorar o planejamento estratégico, fortalecendo a integração europeia no setor de defesa.
Por fim, Deng observa que as tradicionais relações de "mestre-vassalo" entre EUA e Europa estão se desgastando, a capacidade de Washington de controlar aliados diminui e a multipolaridade ganha força no cenário internacional.
Na semana passada, o presidente Donald Trump anunciou a intenção de reduzir o número de militares dos EUA na Alemanha em mais de cinco mil, superando previsões anteriores.
O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, confirmou à Sputnik que cinco mil soldados norte-americanos deixarão a Alemanha em até um ano. A decisão veio após críticas do presidente americano ao chanceler alemão Friedrich Merz.
Por Sputnik Brasil