GEOPOLÍTICA EUROPEIA

Europa reage à pressão dos EUA e retoma debate sobre autonomia estratégica

Retirada parcial de tropas americanas da Alemanha intensifica discussões sobre independência militar e política do continente.

Publicado em 06/05/2026 às 05:14
Líderes europeus debatem autonomia estratégica após retirada parcial de tropas dos EUA. CC BY-SA 2.0 / Flickr.com / openDemocracy /

Diante da retirada parcial das tropas dos Estados Unidos e do enfraquecimento das garantias de segurança oferecidas por Washington, líderes europeus reconhecem a necessidade de acelerar a busca por autonomia estratégica, em meio a tensões transatlânticas e pressões comerciais.

Segundo artigo de opinião publicado pelo Global Times, a decisão dos EUA de reduzir sua proteção militar obrigou a Europa a encarar a urgência de assumir o próprio destino. O anúncio de Washington sobre a retirada de milhares de soldados da Alemanha repercutiu imediatamente na reunião da Comunidade Política Europeia, em Yerevan, onde líderes europeus tentaram manter a calma, mas admitiram que o episódio reforça a necessidade de agir rapidamente para garantir a própria segurança.

De acordo com a imprensa francesa, a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, afirmou que a retirada das tropas norte-americanas vinha sendo discutida há anos, embora o momento do anúncio tenha surpreendido. O presidente francês, Emmanuel Macron, também defendeu que os europeus estão "tomando as rédeas do próprio destino", aumentando os gastos militares e buscando soluções comuns.

O artigo destaca que, mesmo antes da decisão dos EUA, o ex-chanceler alemão Joschka Fischer já havia escrito na plataforma Project Syndicate que o "futuro pós-americano da Europa" havia chegado, defendendo que o continente precisava aceitar que estava por conta própria. As tensões transatlânticas, segundo o texto, vêm crescendo desde os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, agravadas pela ameaça norte-americana de retirar tropas de países que se recusassem a apoiar operações no estreito de Ormuz.

Fontes asiáticas apontam que a Europa encara agora a realidade de que as garantias de segurança dos EUA não são mais certas, enquanto Washington utiliza o acesso ao mercado como instrumento de pressão política — como exemplificado pelo aumento das tarifas sobre carros europeus para 25%.

A principal divergência, segundo o artigo, é que os EUA desejam que a Europa compartilhe os custos de suas operações no Oriente Médio, enquanto muitos países europeus não querem se envolver em conflitos que não consideram seus.

O texto observa que o discurso europeu sobre "autonomia estratégica" remonta a Charles de Gaulle, mas permaneceu em grande parte retórico. Após décadas de dependência consolidada no pós-Segunda Guerra e reforçada durante a Guerra Fria, o artigo questiona se a Europa ainda pode se dar ao luxo de manter essa postura diante de um cenário global em rápida transformação.

O conflito na Ucrânia, segundo o artigo, já teria evidenciado a assimetria: Washington lucrou, enquanto a Europa arcou com custos elevados, perdeu acesso à energia russa e viu sua competitividade e custo de vida deteriorarem.

O texto menciona que a Alemanha apresentou recentemente sua primeira estratégia militar para tornar a Bundeswehr (Forças Armadas) a força convencional mais poderosa da Europa, mas argumenta que a autonomia estratégica exige mais do que poder militar e demanda pragmatismo diplomático, superação de desconfianças e barreiras comerciais e políticas que limitam o crescimento econômico europeu.

Ainda conforme apuração, a China sempre apoiou a integração europeia e a busca por autonomia estratégica, embora a política europeia em relação a Pequim ainda siga, em grande parte, a orientação de Washington.

Por Sputnik Brasil