Petroestados vs. eletroestados: entenda a nova disputa geopolítica no horizonte (VÍDEOS)
O controle de fluxo energético coloca o cenário internacional em constante tensão, principalmente após o impasse no estreito de Ormuz. Neste contexto, a transição energética ganha mais importância tanto como alternativa de geração de energia quanto como um ativo geopolítico capaz de garantir a soberania de um país e provocar novos embates de poder.
Nesse sentido, passam a surgir os petroestados (cuja matriz energética se apoia majoritariamente em petróleo e gás) e os eletroestados (aqueles que investem em tecnologias ligadas à eletricidade limpa). No entanto, apesar de parecer haver uma dicotomia, uma determinada nação pode investir em ambas as matrizes, conforme explica Guilherme da Conceição, doutorando em relações internacionais, em entrevista à Sputnik Brasil.
"Não podemos entender como blocos antagônicos, porque um país pode ter as duas características. Esses conceitos nos ajudam a entender as relações internacionais em termos energéticos além do petróleo e do gás. Ou seja, o poder não será só de quem possui hidrocarbonetos ou controla rotas, mas também de quem domina tecnologias de eletrificação como veículos, painéis solares, baterias, entre outros", disse.
Para o internacionalista, a busca pela diversificação de fontes energéticas além das tradicionais pode gerar desequilíbrio de poder a nível regional e até mesmo entre Estados aliados. Paralelamente, pode ocorrer uma nova tentativa de controle, dessa vez, não apenas de fluxo, mas, sim, de acesso a minerais raros responsáveis pelo desenvolvimento de governos mais voltados a investir no modelo de eletroestado.
"Essa distinção entre eletroestados e petroestados denota de um novo campo em disputa. Por exemplo, os próprios Estados Unidos não investem na matriz [energética], mas buscam conseguir controlar o fluxo de minerais críticos e isso acentua, sim, uma grande rivalidade intrabloco. Acredito que no médio, longo prazo, a gente pode começar a falar de conflitos até entre aliados", comenta.
Rússia e China despontam na transição energética
Guilherme, que também é pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), destaca que, no atual estágio, dois países estão na vanguarda desse processo: a China, por possuir uma grande diversificação de fontes externas de energia fóssil e já liderar o setor de eletrificação; e a Rússia, que detém o domínio tanto de petróleo e gás quanto da energia nuclear capitaneada pela estatal Rosatom. Segundo o especialista, isso habilita ambos os países a serem, simultaneamente, eletroestados e petroestados.
"O quadro atual é um quadro bastante híbrido. A China lidera o campo das energias renováveis e pode se tornar um polo de inovação energética e o principal instrumento de adaptação, digamos assim, utilizado por Moscou nesse sentido, é a energia nuclear e isso coloca o país em uma posição bastante vantajosa dentro desse jogo", observa.
Neste âmbito, o analista ressalta que a cooperação sino-russa na área energética intensifica a relação bilateral entre Moscou e Pequim, que inclusive já têm um acordo no setor por meio do projeto gasoduto Power of Siberia 2 (Força da Sibéria 2) para o fornecimento de energia russa ao território chinês.
"A transição energética tem, de fato, estreitado os laços entre Rússia e China, um movimento impulsionado pela complementariedade entre as duas nações. Enquanto a China depende de hidrocarbonetos de regiões como o Oriente Médio, a Rússia surge como uma parceira politicamente segura e geograficamente próxima. O exemplo mais emblemático dessa convergência é o gasoduto Power of Siberia", discorre
Brasil pode buscar cooperação para evoluir no setor
No aspecto brasileiro, Guilherme analisa que Brasília, assim como outros países da América Latina, não está avançada no tema de eletrificação e ainda está presa no modelo tradicional. Apesar disso, o pesquisador acredita que o Brasil tem potencial para se desenvolver principalmente através de parcerias via BRICS, principalmente com Rússia e China.
"Na América Latina, a pauta da eletrificação é bastante baixa, inclusive no Brasil, a gente ainda está muito envolto nessa ideia um pouco mais tradicional. Capacidade para liderar essa pauta, nós temos principalmente a partir dessas boas relações com figuras-chave dentro do BRICS, como é o caso da Rússia e da China, entre outros países do grupo que já percebem o florescer dessas discussões", conclui.
No sistema-mundo, a energia consolidou-se como um recurso estratégico vital, pois, além de sustentar a economia e o desenvolvimento das cadeias produtivas, é o que garante a manutenção de infraestruturas críticas e a soberania nacional.