Flexibilidade vira "novo salário" e redefine relações de trabalho no Brasil
Com avanço do trabalho híbrido e mudança nas expectativas dos profissionais, empresas passam a tratar flexibilidade como parte da remuneração
A flexibilidade no trabalho passou a pesar tanto quanto o salário na decisão de aceitar ou permanecer em uma vaga. Em um mercado pressionado pela escassez de profissionais qualificados, empresas têm ampliado modelos híbridos e jornadas mais flexíveis para atrair e reter talentos.
Essa mudança não ocorre de forma isolada e reflete uma transformação mais ampla na dinâmica do trabalho. À medida que atividades se tornam mais digitais e dependentes de conhecimento, cresce a importância da adaptação das equipes, o que desloca o foco da gestão para além da remuneração tradicional.
Relatório SXSW 2026 Insights, da PwC, aponta que o avanço tecnológico já supera a capacidade de adaptação das organizações e dos profissionais, criando um descompasso entre inovação e execução. Nesse contexto, a experiência de trabalho, onde a flexibilidade se insere, passa a ter impacto direto sobre desempenho e competitividade.
Para Kauã Leandro, gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o cenário indica uma mudança estrutural na forma como o trabalho é valorizado. O TBR é uma plataforma de intermediação de mão de obra e serviços de empregabilidade. “Hoje, o profissional não avalia só salário. Ele considera qualidade de vida, flexibilidade e autonomia como parte da proposta. Em muitos casos, isso pesa tanto quanto o pacote financeiro”, afirma.
Mudança no equilíbrio entre tecnologia e fator humano
A consolidação do modelo híbrido ajuda a explicar essa mudança no comportamento dos profissionais. Empresas ampliaram formatos flexíveis nos últimos anos, enquanto trabalhadores passaram a priorizar autonomia, redução de deslocamentos e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Ao mesmo tempo, a tecnologia deixou de ser o único diferencial competitivo. O relatório SXSW 2026: Insights globais à moda brasileira, da HSM, aponta que a vantagem das empresas está cada vez mais ligada à capacidade de interpretar contexto, tomar decisões e construir relações, e não apenas ao acesso a ferramentas .
Nesse ambiente, a flexibilidade ganha uma função estratégica mais clara. Ela passa a ser um instrumento de atração e retenção, especialmente em setores com maior disputa por talentos e forte dependência de conhecimento.
“Em um ambiente mais competitivo, a flexibilidade virou um elemento central da proposta de valor. Empresas que não conseguem oferecer isso tendem a perder espaço na atração de profissionais”, diz Leandro.
Produtividade depende de engajamento
A discussão sobre flexibilidade também se conecta diretamente ao nível de engajamento no trabalho, que segue em queda em escala global. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostra que apenas 20% dos trabalhadores estão engajados, o menor nível desde 2020 .
Segundo o estudo, a queda no engajamento representa um custo estimado de cerca de US$10 trilhões em produtividade para a economia global, o que amplia a pressão por modelos de trabalho mais aderentes às expectativas dos profissionais .
Mesmo com o avanço da inteligência artificial, os ganhos de produtividade ainda dependem da forma como as equipes são geridas. O relatório aponta que o principal fator de sucesso na adoção de novas tecnologias está no preparo das lideranças e no nível de adesão dos profissionais .
Adaptação ainda é desigual
A adoção da flexibilidade, no entanto, não ocorre de forma homogênea entre setores e funções. Profissionais de áreas operacionais e atividades presenciais continuam com acesso mais limitado, o que cria uma nova camada de desigualdade no mercado de trabalho.
Esse cenário tem levado empresas a buscar soluções intermediárias, como escalas mais flexíveis e melhorias nas condições operacionais. Ao mesmo tempo, exige mudanças na gestão, que passa a ser menos baseada em controle de jornada e mais orientada por metas, entregas e confiança.
Nova base da relação de trabalho
A convergência entre transformação digital, mudança de comportamento dos profissionais e pressão por resultados indica que a flexibilidade deve se consolidar como elemento permanente nas relações de trabalho. Mais do que um benefício, ela passa a integrar a estratégia de gestão e a política de remuneração das empresas.
Para Leandro, o movimento é irreversível. “A flexibilidade deixou de ser algo complementar e passou a fazer parte do que o profissional entende como valor no trabalho. Isso deve continuar influenciando decisões de carreira e de contratação nos próximos anos”, afirma.
Trabalha Brasil
O Trabalha Brasil é composto por um time de mais de 100 profissionais de tecnologia e Recursos Humanos, que se dedicam para aprimorar a plataforma que atende cada vez mais as necessidades dos trabalhadores, que buscam dignidade financeira por meio do trabalho.