CRISE NA ARGENTINA

Crise política e economia fraca aumentam pressão sobre Milei após escândalos

Sessão no Congresso expõe chefe de gabinete, enquanto popularidade de Milei cai e escândalos abalam confiança no governo argentino.

Publicado em 05/05/2026 às 05:41
Javier Milei enfrenta pressão após escândalos políticos e queda de apoio em meio à crise econômica na Argentina. © AP Photo / Eraldo Peres

A sessão no Congresso que expôs o chefe de gabinete Manuel Adorni, investigado por possível enriquecimento ilícito, tornou-se novo foco de desgaste para Javier Milei, que já enfrenta queda de popularidade, frustração econômica e uma série de escândalos que minam a confiança no governo e reacendem tensões internas e com a imprensa.

O presidente argentino Javier Milei acompanhou pessoalmente o depoimento de seu chefe de gabinete, Manuel Adorni, que passou cinco horas respondendo a questionamentos sobre a investigação por possível enriquecimento ilícito. Milei, que raramente participa desse tipo de sessão, presenciou Adorni negar qualquer irregularidade e prometer provar sua inocência na Justiça.

O episódio transformou um relatório de rotina em um momento político delicado para um governo já pressionado por meses de escândalos e dificuldades econômicas. Pesquisas recentes apontam queda consistente na popularidade de Milei, que recuou dos 40% para a faixa dos 30%, acompanhada por uma forte redução nos índices de confiança.

Segundo a imprensa britânica, eleitores que celebraram a vitória de Milei em 2023 agora expressam frustração diante do agravamento da situação econômica. A oposição, mesmo ainda impopular, começa a se reorganizar e a buscar nomes para 2027, em um cenário mais aberto do que o previsto no início do mandato.

A economia é apontada como o principal fator de desgaste. Apesar da desaceleração da inflação, a atividade no varejo e na indústria caiu, os salários reais encolheram e o desemprego atingiu o pior nível para um quarto trimestre desde 2020. Comerciantes relatam queda nas vendas e percebem que as políticas do governo beneficiam grandes empresas, segundo apuração.

Nesse ambiente, escândalos envolvendo o patrimônio de autoridades ampliaram a indignação pública. O caso mais sensível é o de Adorni, investigado por compras de imóveis e viagens incompatíveis com sua renda declarada. Ele afirma que adversários tiraram conclusões equivocadas, mas o desgaste político se intensifica.

Outros episódios envolvem a renúncia de um alto funcionário por ocultação de bens no exterior e novas denúncias sobre o suposto envolvimento de Milei em um esquema de criptomoedas, o que ele nega. Embora analistas indiquem que parte das irregularidades possa estar ligada à sonegação generalizada no país, o impacto político é significativo, já que Milei fez do combate à corrupção uma de suas principais bandeiras.

A crise se aprofunda com a ofensiva do presidente contra a imprensa, após barrar jornalistas do palácio presidencial por uma semana e intensificar ataques nas redes sociais. Paralelamente, cresce uma disputa interna entre Karina Milei e o estrategista Santiago Caputo, o que alimenta suspeitas de vazamentos e sabotagens dentro do próprio governo.

Apesar de avanços no controle da inflação e de projeções de crescimento do Fundo Monetário Internacional (FMI), os benefícios concentram-se em setores exportadores que empregam pouca mão de obra, segundo a mídia. Indústria e varejo sofrem com importações mais baratas, juros altos e perda de renda, enquanto a percepção pública sobre a economia permanece negativa.

Analistas ouvidos pela reportagem afirmam que o governo precisa reequilibrar prioridades e focar na atividade econômica para recuperar apoio antes das eleições de meio de mandato. Medidas recentes, como congelamento de combustíveis e estímulos ao crédito, são vistas como iniciativas iniciais, mas ainda insuficientes para reverter a sensação de piora entre os argentinos, para quem o caso Adorni tornou-se símbolo do descontentamento crescente.

Por Sputnik Brasil