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Entregar Avibras ao capital estrangeiro seria 'crime lesa-pátria', diz sindicato ao celebrar retomada

Publicado em 04/05/2026 às 18:20
© Sputnik / Guilherme Correia

A Avibras Aeroco, nome adotado pela antiga Avibras Indústria Aeroespacial, sediada em Jacareí (SP), retomou suas atividades nesta segunda-feira (4), encerrando greve de 1.280 dias iniciada em setembro de 2022 por atraso no pagamento de salários, considerada uma das mais longas greves já realizadas no país.

A retomada ocorre sob nova estrutura empresarial, prometendo foco em governança, sustentabilidade financeira e ampliação da presença no mercado internacional, liderada pelo engenheiro Sami Hassuani, com mais de quatro décadas de atuação nos setores de defesa e aeroespacial.

Claudio Motta, responsável pelo RH da empresa há 35 anos, não escondeu a emoção. "É uma alegria inenarrável, é aquilo que a gente tá vivendo aqui hoje", disse. Ele descreveu o período de paralisação como marcado por momentos de "um pouco de achar que não tinha mais esperança" e relatou que um pequeno grupo de funcionários se manteve na empresa durante todo o período para preservar sua estrutura. "A gente achava que, poxa, não vai dar, e agora deu", afirmou.

Para Motta, a retomada é muito significativa para quem construiu a vida dentro da fábrica.

"Uma alegria muito grande das pessoas que fizeram a vida aqui, que fazem a vida aqui, que acreditam nessa empresa e que sabem a importância que essa empresa tem, tanto para a soberania nacional quanto para os outros países também."

"Chegou com força, porque nós temos produtos, nós temos pessoas, nós temos competências." Seu objetivo, disse, é "trazer a perpetuidade a essa empresa", meta que sempre norteou o grupo que resistiu durante a crise.

Do lado do chão de fábrica, o eletricista Eduardo Rosa, com seis anos de Avibras, resumiu o sentimento de quem viveu de perto os 1.280 dias de mobilização. "O sentimento é de muita glória, porque a gente não tinha essa expectativa uns dois anos atrás. Não tinha expectativa nenhuma de volta. Pelo contrário, de fechamento", disse ele, que participou ativamente dos piquetes e das viagens a Brasília, ao Rio de Janeiro e a São Paulo.

"Foi uma alegria imensa, porque nunca pensava em voltar e entrar no portão da fábrica junto com a quantidade de pessoas que já estavam aqui", relatou ao descrever o momento em que cruzou o portão nesta manhã.

Eduardo também admitiu que chegou a temer que a empresa fosse vendida a grupos estrangeiros.

"Há dois anos a gente achava que nem abria as portas. Eu tinha quase certeza que ia fechar", disse. Para ele, manter a Avibras em mãos brasileiras é uma questão inegociável. "Perder uma empresa nesse naipe, nesse patamar, nesse monstro do tamanho que a Avibras é, é uma perda muito grande. É uma empresa brasileira, aeroespacial, tem que ficar aqui no Brasil. Não tem que sair para outro país, não."

Welder Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, celebrou a retomada, mas fez um balanço crítico dos últimos quatro anos.

"O sentimento de ver os operários retornando à fábrica é de que valeu a pena a gente ter feito a luta, por mais que tenha sido cansativa, por mais que tenha sido desgastante, principalmente quando é uma situação em que os trabalhadores estão com salários atrasados", afirmou.

Ele disse que o sindicato foi o único a sustentar os trabalhadores durante todo o processo. "Infelizmente foi somente o sindicato, porque da classe política ninguém fez nada."

Sobre os salários atrasados, a proposta aprovada de pagamento da dívida trabalhista soma R$ 230 milhões, com parcelamento de 12 a 48 vezes conforme a faixa salarial de cada trabalhador, beneficiando 1,4 mil pessoas com valores a receber.

Gonçalves informou que 271 trabalhadores estão contratados neste mês de maio, com previsão de mais 240 a partir de junho, totalizando cerca de 500 operários na fábrica. "Com a fábrica funcionando, a gente vai pressionar para que pague o quanto antes essa dívida com os trabalhadores", disse.

"A luta dos trabalhadores da Avibras começou quando o [Jair] Bolsonaro era presidente e agora o Lula, praticamente no término do seu mandato, e até agora, por parte do governo Lula, só promessa e não cumpriu com nada", afirmou.

Para ele, o problema é estrutural, pois o governo federal historicamente compra armamentos de empresas estrangeiras em vez de contratar a Avibras, que vende principalmente para o Oriente Médio e Ásia. "Isso é uma vergonha, isso é um absurdo", disse.

O sindicalista defendeu que, dado o atual cenário geopolítico internacional, é necessário "fazer a cobrança, fazer uma grande pressão popular para que o governo federal faça investimentos na Avibras".

Um dos momentos mais delicados da crise, segundo Gonçalves, foi resistir às propostas de grupos estrangeiros interessados em adquirir a empresa, mesmo com trabalhadores há meses sem salário.

"A gente não tremeu a mão para falar, inclusive para os trabalhadores que estavam sem salários, que seria errado entregar a Avibras ao capital estrangeiro", relatou, citando as investidas da australiana DefendTex, da saudita Black Storm Military e da chinesa Norinco. "Esse foi um dos momentos mais difíceis que a gente enfrentou, porque o trabalhador com salário atrasado, ele não quer saber quem vai pagar. Ele quer é receber o que é justo, o que é legítimo."

Para o dirigente, entregar a empresa a qualquer um desses grupos "seria um crime lesa-pátria".

Gonçalves defendeu a estatização da Avibras sob controle dos trabalhadores, mas admitiu que, caso isso não ocorra, é preferível que a empresa permaneça em mãos privadas nacionais.

"Se não vai estatizar, é melhor que fique nas mãos do capital privado nacional do que nas mãos do capital privado estrangeiro. É uma questão de soberania", disse. Ao lado da Embraer, classificou a Avibras como uma das empresas com maior capacidade de geração de tecnologia e conhecimento científico do país, e pediu que o tema não seja esquecido agora que a fábrica voltou a funcionar.

"Agora com a volta da Avibras, temos que aumentar a nossa pressão para cima do governo federal para que minimamente faça contratos com a empresa."


Por Sputinik Brasil