MERCADO FINANCEIRO

Taxas de juros futuras disparam e curva ganha inclinação com escalada do petróleo

Conflito no Oriente Médio e alta do petróleo pressionam juros longos e elevam expectativas de inflação

Publicado em 04/05/2026 às 18:09
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A primeira sessão de maio foi marcada por forte pressão sobre a curva de juros futuros, que ganhou inclinação acentuada nesta segunda-feira (4). Ao contrário do que se viu no início do conflito no Oriente Médio, quando taxas curtas e intermediárias eram mais afetadas, agora os vértices longos lideraram a alta, chegando a abrir mais de 20 pontos-base durante a tarde. O movimento reflete a percepção de que a guerra pode prolongar seus efeitos sobre a inflação global.

No encerramento do pregão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 14,141% para 14,21%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 13,665% para 13,85%, enquanto o DI para janeiro de 2031 saltou de 13,567% para 13,86%.

As taxas já iniciaram o dia em alta, impulsionadas pelo aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã, que provocou forte abertura da curva dos Treasuries e nova valorização do petróleo. O contrato futuro do Brent fechou com alta de quase 6%. No mercado doméstico, a piora das expectativas inflacionárias também contribuiu para o avanço dos juros, ainda que em menor grau.

No início da tarde, notícias apontaram que um ataque de drone do Irã provocou um grande incêndio em uma zona industrial petrolífera nos Emirados Árabes Unidos. O órgão de gestão de emergências do país informou, por volta das 14h50, que sistemas de defesa aérea estavam respondendo a uma sexta ameaça de míssil. Países do Golfo elevaram o nível de alerta diante das ofensivas, enquanto Abu Dhabi afirmou ter "pleno direito de responder" à agressão iraniana.

O presidente dos EUA, Donald Trump, acusou o Irã de atacar navios de países "não relacionados" à operação norte-americana no Estreito de Ormuz e afirmou, em entrevista, que o Irã será "varrido da Terra" caso ataque embarcações americanas. Diante do agravamento das tensões geopolíticas, o anúncio do novo programa de renegociação de dívidas do governo brasileiro, o Desenrola 2.0, passou despercebido pelo mercado.

"O dia de hoje, muito ruim, mostra o tamanho do efeito da guerra, que sempre prevalece sobre qualquer outra notícia quando se trata de juros futuros", avalia Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. Segundo ele, as ofensivas do Irã reacenderam preocupações sobre a duração do conflito e a oferta global de petróleo, uma vez que Washington e Teerã não avançam em negociações diplomáticas.

Para Tavares, a possibilidade de um conflito prolongado contaminou especialmente os vencimentos mais longos da curva de juros. "Esse cenário global adverso, sem perspectiva de fim para a guerra, afeta os períodos mais longos e provoca mau humor nos mercados", destaca.

Além dos ataques, a consultoria BuysideBrazil cita o "Project Freedom", iniciativa dos EUA para escoltar navios retidos no Estreito de Ormuz. "Embora busque aliviar o gargalo logístico, a medida aumenta o risco operacional, especialmente após o Irã ameaçar atacar forças americanas que avancem sobre a rota estratégica", alerta a consultoria. A probabilidade de o barril do Brent ultrapassar US$ 120 subiu de 30% para 40% nesta semana, segundo a BuysideBrazil.

O mercado segue ajustando suas projeções de inflação diante do cenário de guerra. No boletim Focus, a mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu pela oitava semana consecutiva, de 4,86% para 4,89%. As previsões para 2027 e 2029 permaneceram em 4% e 3,5%, respectivamente, enquanto a estimativa para 2028 avançou de 3,61% para 3,64%.