EURÁSIA

Movimento afro-eurasiático tem sido mais forte com Rússia e China na África, diz analista (VÍDEOS)

Por Sputinik Brasil Publicado em 04/05/2026 às 10:42
© Sputnik / Pavel Bednyakov

A ampliação dos contatos de países africanos com países da região da Eurásia sugere uma diversificação de parcerias e a ideia de que a Afro-Eurásia pode ajudar a pensar essas conexões, sem tratá-las como bloco ou alinhamento automático, mas, sim, uma configuração geopolítica sólida no continente em busca de novos caminhos.

Em um sistema-mundo cada vez mais fragmentado e com transformações em áreas específicas como economia, segurança e energia, os países africanos também buscam diversificar suas alianças com parceiros que auxiliem em seu desenvolvimento. Dessa forma, a interação com Moscou e Pequim acaba trazendo benefícios a essas nações, segundo Eden Pereira, professor de história e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“A Rússia, nas últimas décadas, desenvolveu uma capacidade de exportar não apenas em termos de bens, mas também de serviços, para poder operar a capacidade de abastecimento de energia e até mesmo a questão de segurança. Já a China, além do investimento em áreas como indústria e telecomunicações, também qualifica as pessoas no continente para trabalhar nessas áreas”, disse.

Nesse cenário, o especialista conjectura que a presença da Europa deverá ser cada vez mais reduzida na região, nesse sentido, uma vez que o histórico de parceria com países ocidentais remete ao passado colonial e aos negócios de exploração de recursos sem contrapartida em sectores estratégicos.

"Muitos africanos pensaram em prosperar na Europa, mas depois desenvolveram uma série de problemas, como o racismo, e quando voltaram ao continente não conseguiram se reintegrar politicamente. Dentro desse sistema afro-euroasiático, é possível dizer, hoje, que a Europa, apesar de sua importância, está em seu lugar devido a um papel muito menor do que, historicamente, teve outras civilizações", comenta.

Países africanos fortalecem o eixo afro-eurasiático

O pesquisador aponta quais são alguns dos principais Estados africanos, que em sua análise, fortalecem esses laços entre o continente africano e a Eurásia, principalmente através de projetos em conjunto com a Rússia e a China.

"Vejo na ponta desse processo, a África do Sul com o seu histórico na luta anticolonial pós-Apartheid com outra inserção global, a Etiópia também por estar no BRICS e por construir suas cadeias produtivas mais próximas do Sul Global. Recentemente temos Burkina Faso, Mali e o Níger, que integram essa toada de se integrar mais a esse movimento euroasiático", destaca.

Nesse sentido, Pereira também pontua que, além das relações sino-russas, as nações africanas já possuem de certa forma alguma sinergia com o eixo euroasiático e a tendência é que essas relações se intensifiquem entre os países.

"Essa sinergia de integração já existe em alguma medida. A Índia é muito atual no continente africano e é uma grande parceira econômica e política da África do Sul há décadas, por exemplo. A Bielorrússia, hoje, país parceiro do BRICS e membro da Organização para Cooperação de Xangai, já está integrada nesse contexto [com países africanos]", observa.

Dinâmica atual moderniza o conceito de Afro-Eurásia

O professor contextualiza o conceito de Afro-Eurásia, ressaltando que, embora possua raízes históricas distintas, o termo converge com o cenário internacional contemporâneo. Essa dinâmica permite a atualização do conceito, impulsionada pela proximidade cada vez mais latente entre os eixos africano e euroasiático.

“Se a gente volta na história, em termos milenares, já existia há mais de 5 mil anos, o que o [teórico] Andre Gunder Frank chama de sistema afro-eurasiático sobre circulação de mercadorias e de pessoas. Esse conceito de Afro-Eurásia vem ganhando essa conotação geopolítica a partir da necessidade de cada país reorganizar prioridades políticas em tanto termos securitários quanto diplomáticos”, conclui.

Em um mundo multipolar, o pragmatismo nas relações torna-se indispensável. Contudo, a exigência de contrapartidas claras é vital diante dos desafios da geopolítica atual, onde a preservação da soberania assume um peso igual ou superior aos ganhos econômicos.