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África: cerco à capital do Mali desafia Aliança de Estados do Sahel

Internacional, Aliança dos Estados do Sahel, Sahel Africano, Mali

Publicado em 04/05/2026 às 07:24

O cerco à capital do Mali, Bamako, por grupos jihadistas, entre eles ligados à Al-Qaeda, ameaça a estabilidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES), grupo formado também por Níger e Burkina Faso. O Sahel é uma região que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África subsaariana.   

Tal aliança foi formada após golpes militares que colocaram no poder governos considerados nacionalistas com apoio popular. A partir de 2020, eles iniciaram um processo de transformação institucional , política e econômica que afastou esses países de influência da França, antiga colonizadora dessa região da África Ocidental.   

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No último dia 25 de abril, em ataques coordenados de amplo alcance, o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e a Frente de Libertação do Azaward (FLA) atingiram cidades e territórios do Mali, incluindo a importante cidade de Kidal, levando ao assassinato do ministro da Defesa do país, Sadio Camara.  

Esses grupos considerados terroristas mantiveram barreiras montadas no acesso à capital do Mali para forçar uma rendição do governo do Assimi Goita.  

Um retrato emoldurado e o caixão do Ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, morto em um ataque militante, são exibidos no dia de seu funeral de Estado, em Bamako, Mali, em 30 de abril de 2026. Presidência do Mali via Facebook / Divulgação via REUTERS. ESTA IMAGEM FOI FORNECIDA POR TERCEIROS. PROIBIDA A REVENDA. PROIBIDO O ARQUIVAMENTO. CRÉDITO OBRIGATÓRIO. VERIFICAÇÃO: A Reuters não conseguiu verificar o local onde as fotos foram tiradas. No entanto, a Presidência do Mali afirmou em um comunicado que a cerimônia ocorreu no campo de desfiles do 34º Regimento de Engenharia Militar em Bamako. A data foi confirmada por reportagens da mídia e do governo. Não foram encontradas reportagens antigas publicadas online antes de 30 de abril.
Velório do ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, morto após ataques na cidade de Kidal - Reuters/Presidência do Mali/Proibida reprodução

Terrorismo avança sobre o Sahel  

O pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), o historiador Eden Pereira Lopes da Silva, explicou que o governo do Mali tem dificuldades para abastecimento devido ao cerco que, apesar de ter se ampliado com a nova experiência, já vem de alguns meses.  

"Se o Mali cair, cria-se uma situação extremamente complicada para os outros dois países da AES, até porque o Mali é o país mais extenso territorialmente. Se ele cair, criaria uma Líbia dentro da região do Sahel e isso traria problemas não apenas para Burkina Faso e Níger, mas também para outros países da África Ocidental, como Gana e Costa do Marfim", explicou.  

Com mais de 420 milhões de habitantes, a África Ocidental é rica em recursos naturais, ouro, petróleo, minerais, entre outros, apesar de uma população ser uma das mais pobres do mundo e mais afetada pelo terrorismo, com diversos grupos insurgentes islâmicos ativos. 

Brasília (DF), 05/03/2026 - Ex-colônias francesas dessas regiões da África como Burkina Faso, Níger, Mali e Senegal promovem transformações políticas e econômicas que reposicionam esses países no mundo. Arte EBC
Sahel é uma região que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África subsaariana  - Arte EBC

Eden acrescenta que o núcleo de luta terrorista tem migrado do Mediterrâneo, como Síria e Iraque, para a região do Sahel africano, sendo um ponto importante de recrutamento de membros.  

Na semana passada, após os ataques contra o Estado maliano, o chefe do governo Goita apareceu em público para dizer que a situação controlada estava. Por meio de nota, a AES condenou o ataque “bárbaro e desumano”.  

“Que carrega a marca de uma conspiração monstruosa, reforçada por inimigos da luta de libertação do Sahel, empreendida pela dinâmica da AES”, diz o comunicado.  

Em consequência das mudanças de governo em Burkina Faso, Níger e Mali a partir de 2020, a Comunidade Econômica da África Ocidental (Cedeao) expulsou esses países da organização. Sem acesso ao mar, as nações da AES sofrem ainda certo isolamento político dos demais vizinhos.  

Mali acusa França 

O Mali acusou a França de apoiar e financiar esses grupos considerados terroristas por meio de denúncia formal feita ao Conselho de Segurança da ONU, ainda em 2022.  

“O Mali possui diversas provas desses flagrantes identificados do espaço aéreo maliano foram utilizados pela França para coletar informações em benefício de grupos terroristas que operam no Sahel e para lançar armas e munições para eles”, diz o documento enviado à ONU. 

A França rejeita veementemente as acusações, classificando-as como infundadas e graves. “Há nove anos, a França afirma, juntamente com o Mali — e o pedido do Mali —, que está determinado a lutar contra os grupos terroristas armados e que 59 soldados franceses perderam a vida nessa luta”, respondeu a França.  

Antes de ser expulsa do Mali pelo novo governo, a França atuou na região contra esses grupos considerados terroristas.  

O jurista e analista geopolítico Hugo Albuquerque avalia que a operação contra o Mali, e os sucessivos combates no Burkina Faso e no Níger, têm “o dedo do ocidente” que veria com maus olhos os governos de cunho nacionalista no Sahel.  

"Essa integração do Mali, Burkina Faso e Níger atrapalha profundamente os planos americanos e ocidentais para a exploração de recursos naturais e também atrapalha um caminho por terra do gasoduto que sai da Nigéria, que é outro projeto essencial. Eles querem derrubar esses regimes nacionalistas para, basicamente, voltar a explorar os recursos naturais", explicou.  

Apoio da Rússia

Em compensação, os estados da AES passaram a receber apoio militar da Rússia, em especial, por meio do África Korps, que vem do grupo Wagner, formado por mercenários ligados a Moscou.  

A analista da ACLED (Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados) para a África Ocidental, Héni Nsaibia, avaliou que a intervenção de grupos paramilitares no Mali declarou que o envolvimento russo não conseguiu reverter a situação.  

“O recente anúncio do JNIM sobre um bloqueio total a Bamako provavelmente forçará os militares do Mali a priorizarem a segurança da capital e a relegarem outras áreas para um segundo plano”, escreveu no artigo .   

JNIM e FLA 

O pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva explicou à Agência Brasil que o JMIN defende a implantação de um califado islâmico no Sahel, com base na Sharia (Lei Islâmica).  

“Ele é um braço da Al-Qaeda dentro do Sahel e ambiciona o estabelecimento de um Estado que abrange não apenas os povos do Mali, mas também de outras partes de Burkina Faso e Níger”, destacou.  

Por outro lado, a FLA é formada por grupos tuaregues, formados por tribos nômades, que lutam por formar um estado exclusivamente para a população tuaregue daquela região e que, historicamente, atuaram em favor do império colonial francês.   

"Recentemente, eles ganharam uma importância muito grande por conta da reativação do comércio de armas naquela região, até mesmo tráfico de pessoas. Os tuaregues, historicamente, têm o apoio da França", disse.    

Interesse na desestabilização  

Para o historiador do NIEAAS, há muitos interesses para desestabilizar toda a região do Sahel africano, rica em recursos como ouro e urânio.  

“Percebemos uma cooperação no sentido de enfraquecer, vulnerabilizar e até mesmo derrubar esses estados por conta de uma tentativa de fato, não apenas da França, mas de outras potências da Europa e também até mesmo, possivelmente, dos Estados Unidos”, completou Eden Pereira.  

O analista Hugo Albuquerque pondera que as monarquias absolutistas do Oriente Médio, como Catar e Emirados Árabes Unidos, apoiam esses grupos jihadistas que servem como intermediários de interesses das potências ocidentais.  

Burquina Fasso. 23/05/2025 Presidente Ibrahim Traoré de Burkina Fasso. Foto Capitão Ibrahim TRAORÉ/X
Presidente Ibrahim Traoré de Burkina Fasso. Foto - Captain Ibrahim TRAORÉ/X

“Esse jihadismo é, basicamente, uma estratégia mercenária que passa pelo Golfo, talvez pela Arábia Saudita, mas muito provavelmente passa pelo Catar, importante aliado da França, e que atravessa o interesse europeu e americano, mas principalmente a Europa que é afetada pela guerra contra a Rússia”, disse, acrescentando que não é à toa que a Rússia apoia esses regimes da AES.  

O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, o nome mais destacado entre os líderes da AES , que reivindica uma tradição anti-imperialista e anticolonial na África, classifica o terrorismo no Sahel como uma expressão do imperialismo.  

"Acreditamos que o terrorismo que testemunhamos hoje vem do imperialismo, e estamos lutando contra ele. Se acabarmos com esta guerra, se tivermos um exército forte, seremos capazes de nos engajar no desenvolvimento de nossa pátria", afirmou.