VIOLÊNCIA

Estupro coletivo de crianças em SP: ‘Não consegui ver o vídeo até o fim, terrível’, diz Nico

Publicado em 03/05/2026 às 14:58
Polícia Civil Governo de São Paulo

*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência infantil, violência sexual e violência de vulnerabilidade. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 100 ou 190, e denuncie.

O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Nico Gonçalves, disse neste domingo, 3, que em mais de quatro décadas ocorreram nas forças de segurança do Estado, não tinha se deparado com algo tão terrível quanto o caso do estupro coletivo de duas crianças. Os agressores filmaram as violências e divulgaram os vídeos nas redes sociais.

"Em 45 anos de polícia, não consegui ver o vídeo até o fim, cena terrível, inesquecível, vai ficar no meu subconsciente por muito tempo".

De acordo com o secretário, um adolescente envolvido ainda não foi localizado pela polícia. "Tem uma pessoa foragida ainda, que é o Christian (adolescente agressor). Mas temos equipes negociando com a família nesse momento para ele se entregar, que é melhor pra ele."

Três adolescentes foram apreendidos. No final da tarde de sábado, 2, o único adulto envolvido foi encontrado após fugir para a Bahia. Eles responderão por crimes de estupro de vulnerabilidade, divulgação de imagem de menor, corrupção de menores.

Segundo a delegada Janaína da Silva Dziadowczyk, responsável pela investigação, o caso primeiro repercutiu nas redes sociais, mas a ocorrência não tinha sido apresentada na delegacia.

"Assim que tomamos conhecimento, os investigadores saíram do campo, conseguiram localizar as vítimas, porque as vítimas foram pressionadas para não registrarem o boletim de ocorrência na delegacia. Embora na internet estivessem sendo divulgados os vídeos, a família não havia registrado o boletim."

Janaína afirma que a irmã de uma das vítimas, que não mora mais na comunidade, recebeu os vídeos, conheceu e levou o caso à delegacia. Mas ela não tinha informações sobre onde e quando os crimes ocorreram.

As famílias foram pressionadas para não acionar a polícia. "A família foi pressionada pela comunidade. Eles queriam resolver entre eles e não queriam que a polícia tomasse conhecimento."

A investigação aponta que os agressores convivem com as vítimas e se aproveitam dessa relação para cometer os crimes.

"Eles eram vizinhos, e eles conviviam. As crianças tinham confiança neles. Estavam soltando pipa. Eles foram atraídos para esse imóvel (de um dos adolescentes) porque eles passaram e falaram: 'vamos soltar pipa? Ah, entra aqui que tem uma linha'."

"Um dos adolescentes falou que inicialmente era uma brincadeira que acabou escalando. Mas a iniciativa de gravar os vídeos foi do maior. Foi ele que começou as brincadeiras, segundo eles. E ele começou a gravar no celular dele. E depois ele pediu para que outro menor gravesse."

Entenda o caso

O caso ocorreu em 21 de abril na comunidade de União de Vila Nova, bairro da Subprefeitura de São Miguel Paulista, zona leste da capital.

"A família, por receio, não teve coragem de denunciar. O conselho tutelar e a polícia só tomaram conhecimento em 24 de abril", afirma o subprefeito Divaldo Rosa, em vídeo publicado nas redes sociais. Ele só se pronunciou sobre o caso nesta quinta, 30.

Os agressores gravaram o estupro de violência e compartilharam as imagens em uma rede social. Em um dos vídeos, de 63 segundos, as crianças choram, gritam e falam ao menos nove vezes "para" e cinco vezes "eu não quero". Enquanto isso, os violadores riem, insistem no ato e agridem as vítimas.

O Estadão não conseguiu contato com a defesa dos adolescentes, nem do foragido. A reportagem interna do Ministério Público e da Defensoria Pública, mas não teve retorno.

À reportagem, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) definiu o caso como “terrível”. "As crianças foram acolhidas pelos equipamentos da Prefeitura. Uma está com a mãe em uma Vila Reencontro. A outra está com os dois irmãos no Serviço Institucional para Criança e Adolescente, porque o Conselho Tutelar obteve que não havia condições de continuarem com a mãe, que é dependente química, onde viviam."

As vítimas são acompanhadas pelo Conselho Tutelar de São Miguel Paulista, por assistentes sociais e profissionais de saúde e pelo Projeto Bem-Me-Quer, programa de acolhimento do governo estadual a vítimas de violência sexual.

"Este caso é revoltante, ele choca e ele não pode ser tratado como algo normal. Os abusadores agem na maioria das vezes na sombra do medo, da omissão e da falta de denúncia aos órgãos públicos", afirmou o subprefeito Divaldo Rosa.

"Se você tiver algum caso de abuso contra uma criança, faça uma denúncia anônima pelo disque 100. Você pode estar salvando uma vida. Proteger as crianças é dever de todos nós."