Papa alerta para risco de 'tirania majoritária' e critica abuso de poder em democracias
Em carta, pontífice destaca importância de valores morais para evitar desvirtuamento das democracias e responde a críticas de Trump.
O papa Leão XIV alertou para o perigo de que democracias possam se transformar em uma "tirania majoritária" quando desprovidas de valores morais, enfatizando que o poder deve servir ao bem comum e ser exercido com temperança.
A declaração foi feita em carta divulgada pelo Vaticano dois dias após críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às posições do pontífice sobre a guerra contra o Irã. Na mensagem, destinada a participantes de um encontro no Vaticano sobre o uso do poder em sociedades democráticas, Leão XIV defendeu que regimes democráticos permanecem saudáveis apenas quando fundamentados em princípios éticos.
Segundo o papa, "sem esse fundamento, [a democracia] corre o risco de se tornar uma tirania majoritária ou uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas". A carta foi publicada enquanto o pontífice realizava uma viagem de dez dias por países africanos, sem menção direta aos EUA ou a qualquer democracia específica.
O contexto da carta envolve o aumento das tensões entre Trump e o papa. O presidente norte-americano classificou Leão XIV como "terrível" após críticas do pontífice à guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Em entrevista à Reuters, Leão XIV afirmou que manterá suas críticas ao conflito, apesar das declarações de Trump.
Na correspondência, o papa reforçou que, conforme o ensinamento da Igreja Católica, o poder não deve ser tratado como um fim em si mesmo, "mas como um meio ordenado para o bem comum". Ele ressaltou que a legitimidade da autoridade não deriva da força econômica ou tecnológica, mas da maneira como é exercida.
Por fim, Leão XIV exortou governantes a resistirem à tentação de concentrar poder. Para ele, "a temperança [...] demonstra ser essencial para o uso legítimo da autoridade, pois a verdadeira temperança refreia a autoexaltação desmedida e atua como um guarda-corpo contra o abuso de poder".