Qual é a estratégia por trás do bloqueio americano no Estreito de Ormuz? Entenda
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor um bloqueio naval direcionado a portos iranianos no Estreito de Ormuz tem um objetivo claro: fazer o Irã ceder às demandas americanas e manter a passagem aberta.
O bloqueio começou às 11h no horário de Brasília nesta segunda-feira, 13, depois que as negociações em Islamabad terminaram sem avanços no sábado, 11, com divergências relacionadas à abertura do estreito e ao projeto nuclear de Teerã.
Em vez de bombardear novamente o Irã ou fazer ameaças sobre o apagamento de uma civilização, Trump tentará sufocar a principal fonte de sustento da República Islâmica: o petróleo. A commodity representa mais de 50% das exportações iranianas e praticamente toda a receita do governo.
Washington quer que Teerã entregue o seu estoque de urânio enriquecido e desmantele seu projeto nuclear. O governo Trump também disse que gostaria que o Irã não regulasse mais o trafego do Estreito de Ormuz. A passagem que fica entre o Irã e Omã separa os maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural de seus principais clientes.
Historicamente, cerca de 20 milhões de barris passam por ali diariamente. De acordo com a Agência Internacional de Energia, a guerra no Oriente Médio já causou a maior interrupção no fornecimento da história do mercado global de petróleo.
Aposta americana
Mas a forma que o bloqueio vai funcionar ainda não está clara, assim como os perigos para as forças americanas.
A questão fundamental é quem suportaria o maior prejuízo. Um bloqueio tornaria a situação econômica do Irã insustentável e forçaria o país a ceder? Ou elevaria os preços globais do petróleo e de outros produtos a um nível tão alto que Trump seria obrigado a recuar?
O Comando Central dos EUA (CENTCOM) anunciou que o bloqueio seria imposto "contra embarcações de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras iranianas". Isso incluiria todos os portos do Irã no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.
A decisão do CENTCOM de permitir que navios que viajam entre portos não iranianos transitem pelo estreito representou um recuo em relação à ameaça anterior de Trump de bloquear a hidrovia.
"A Marinha do Irã jaz no fundo do mar, completamente destruída - 158 navios. O que não atingimos foram seus poucos navios, que eles chamam de 'navios de ataque rápido', porque não os consideramos uma grande ameaça. Aviso: Se algum desses navios se aproximar do nosso BLOQUEIO, será imediatamente ELIMINADO", disse o presidente.
Estratégia iraniana
Já a estratégia do Irã também é clara: travar os mercados globais e estender o alto preço pago pela guerra ao mundo. A tática de Teerã deu certo até agora, com o bloqueio do estreito e os bombardeios que atingiram Israel e os países do Golfo.
Os iranianos também apostam que Trump não vai suportar a pressão do bloqueio naval.
Se nenhuma embarcação de petróleo do Irã passar pelo estreito, os preços podem continuar subindo com o tempo - algumas empresas dizem que estão se preparando para US$ 175 por barril. O presidente americano também sentirá o impacto da medida na inflação americana, a menos de sete meses das eleições de meio de mandato.
"Em breve vocês sentirão saudades da gasolina a US$ 4 ou US$ 5", alertou o principal negociador do Irã e presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, aos consumidores americanos após o fracasso das negociações em Islamabad.
Retaliação
Além de apostar que é mais resiliente do que Washington, o Irã também prometeu retaliar ao bloqueio. O país sabe que não tem chance em um confronto direto contra a Marinha dos EUA, mas pode realizar ataques contra forças americanas ou coordenar um bloqueio do Estreito de Bab el-Mandeb, outra passagem estratégica importante, com os Houthis.
Teerã também pode retomar os ataques contra a infraestrutura energética de países como os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait. Neste cenário, a intenção do Irã seria bloquear a possibilidade de seus vizinhos exportarem petróleo, da mesma forma que Washington deseja fazer com o país persa.
"A segurança no Golfo Pérsico e no Mar de Omã é para todos ou para ninguém", informou a emissora estatal iraniana nesta segunda. "Nenhum porto na região estará seguro", dizia um comunicado das Forças Armadas iranianas e da Guarda Revolucionária.
Petróleo
Apesar das ameaças dos dois lados, o tráfego marítimo na região já era baixo desde o início da guerra, quando o Irã bloqueou a passagem de navios mercantes pelo estreito.
Mesmo assim, os preços do petróleo Brent subiram cerca de 6%, para US$ 101 o barril e a expectativa é de um aumento ainda maior.
A tática de intimidação por meio do petróleo ressalta a importância da commodity como arma geopolítica. Foi por conta da alta dos preços do petróleo que Trump permitiu que o Irã vendesse a commodity que já estava no mar, na esperança de aliviar a escassez de oferta.
Mas os efeitos sobre os preços foram mínimos e geraram lucro à República Islâmica. Teerã também está lucrando com o caro pedágio que cobra de embarcações que desejam passar por Ormuz.
"A situação atual, em que o Irã consegue negar o uso do estreito a todos, exceto a seus aliados ou àqueles que pagam, é insustentável", disse Richard Haass, ex-alto oficial republicano de segurança nacional e ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores, que esteve entre os primeiros a defender uma estratégia de bloqueio, em entrevista ao jornal americano The New York Times.
"O Irã enriquece enquanto outros empobrecem", continuou. "Um bloqueio aumenta a pressão econômica sobre o Irã, que já existia antes da guerra e foi agravada por ela. Se eles querem vender seu petróleo, precisam reabrir o estreito para todos."
Reação dos clientes
O sucesso ou não da estratégia trumpista depende da reação dos principais clientes de Teerã: China, Índia, Paquistão e Turquia.
Haass acredita que estes países podem pressionar o Irã a aceitar a reabertura total do Estreito de Ormuz por conta do bloqueio americano, mas não está claro se isso vai acontecer porque Pequim pode enxergar a situação como uma oportunidade de lucrar com o conflito.
A China deve se beneficiar das interrupções no fornecimento de combustíveis fósseis relacionadas à guerra, apesar de ser a maior compradora de petróleo iraniano.
Pequim lidera o mundo em exportações de baterias, energia solar e veículos elétricos, e existe a previsão de que suas indústrias tenham um aumento na demanda por produtos renováveis.
"A abordagem da China para o desenvolvimento do setor de energia e a geopolítica foi completamente validada pelo conflito com o Irã", disse Sam Reynolds, do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, com sede nos EUA, em entrevista a Associated Press (AP).
Os preços do petróleo afetam mais os Estados Unidos do que a China e a economia americana é 40% mais dependente de petróleo do que a de Pequim, segundo Rosemary Kelanic, diretora do programa de Oriente Médio da Defense Priorities Foundation, um think tank com base em Washington que defende uma política externa mais restrita, que foi entrevistada pelo Estadão no mês passado.
Em um comunicado, o chanceler da China, Wang Yi, afirmou que a prioridade atual deveria ser manter o cessar-fogo entre Irã e EUA e evitar a retomada do conflito no Oriente Médio.
*Com informações das agências internacionais.