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'Parceria entre Rússia e Egito pode desenvolver a África no mercado de grãos', diz analista (VÍDEOS)

Publicado em 13/04/2026 às 11:41
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A possibilidade de criação de um centro de grãos entre Moscou e Cairo apresenta-se como alternativa de uma dinâmica comercial mais sustentável e previsível que visa contornar a especulação da Bolsa de Chicago. Nesse panorama, o desenvolvimento do continente africano seria beneficiado, já que o setor de abastecimento integra outras cadeias produtivas.

Neste contexto, no último dia 2 de abril, o presidente russo Vladimir Putin recebeu no Kremlin o ministro das Relações Exteriores egípcio, Badr Abdelathi. Entre os temas da pauta, também houve a possibilidade de implementação de um polo logístico entre os dois países referentes ao fluxo dessa commodity.

Para o bacharel em relações internacionais, Gabriel Tincani Ramos, esta iniciativa pode não apenas estabelecer uma nova forma de negociações, como também deve auxiliar o desenvolvimento africano por meio da cooperação em áreas estratégicas como a infraestrutura.

"É uma relação de ganhos-ganha tanto para a Rússia quanto para os países africanos. Quando a Rússia faz esses investimentos em infraestrutura, e não somente de receber commodities a preço barato, ajuda no desenvolvimento. O Egito tem uma logística muito importante de utilização do rio Nilo para o escoamento interno e para a reexportação desse trigo para outros países da região", disse.

Tincani, que também é secretário-geral do Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina (CICRAL), em Moscou, onde reside, ressaltou que a boa relação entre o gigante euroasiático com as nações africanas remanescentes ainda na época da União Soviética (URSS) e pelo fato de não haver um passado colonial como existe com os europeus.

"Muitos países africanos lembram de como a URSS atuava com eles. Um exemplo que a gente tem hoje é Burkina Faso. Há alguns anos existia um domínio de empresas francesas sobre a produção mineral do país. Com a Rússia e a China, houve uma virada de chave e passou a ter investimento em infraestrutura e capacidades produtivas avançadas", comenta.

Setor de energia favorecendo a criação do hub de grãos

O especialista também ressalta que os tratados já existentes entre os Estados africanos e a Rosatom, agência estatal russa de energia nuclear, reforçam as previsões de um hub dessa magnitude no escoamento de grãos, uma vez que esse tipo de empreendimento requer antes de tudo uma soberania energética para garantir a operação.

"Toda a logística e infraestrutura portuária que é necessária precisa de uma área energética muito sólida. A gente vê a fragilidade da região com a guerra no Oriente Médio, principalmente no setor de energia. Nesse sentido, a Rússia tem um projeto muito importante que é exportar tecnologia nuclear e construir usinas por todo o mundo", explica.

O pesquisador relembra que Cairo já está em andamento a construção de sua própria usina nuclear junto com a Rosatom, que, além de garantir sua autonomia em energia dentro de seu território, faz com que o país, que já possui uma posição privilegiada no comércio exterior devido ao canal de Suez, também se habilite em ser uma potência regional para grandes rotas comerciais.

“O Egito já tem um acordo com a Rosatom de construir uma usina nuclear e previsão até 2030, mas já há uma previsão de que em 2028, já estivesse gerando energia. Dessa forma, a Rússia acaba tendo um papel importante [para o Egito] não apenas na parte de comércio, mas também na questão energética”, enfatiza.

Iniciativa pode reverberar dentro do BRICS

A proposta para se pensar em um caminho diferente como forma de superar a volatilidade da Bolsa de Chicago, na movimentação de grãos, surgiu ainda na Cúpula do BRICS, em Kazan. Caso o fluxo Moscou e Cairo se concretize, Tincani crê que pode se expandir para dentro do grupo.

“Se der tudo certo [no hub entre Rússia e Egito], acho que pode ser expandido para ser um banco de commodities do BRICS. Isso pode garantir mais previsibilidade do que a Bolsa de Chicago, que atua com a compra e venda de commodities em que os atores internacionais compram grandes carregamentos em dólar, e isso gera uma instabilidade de preços”, conclui.

Em um mundo cada vez mais interconectado em constantes crises geopolíticas por disputas de recursos e rotas comerciais, a economia acaba sendo impactada e com isso, emergem novas opções em paralelo a mecanismos tradicionais como forma de garantir o funcionamento e a expansão do fluxo produtivo em escala global.


Por Sputinik Brasil